Posts Tagged ‘vida’

Entre encaixes

domingo, dezembro 6th, 2009

Brillo: sim

O que eu fazia melhor naquela época era empacotar. De uma forma ou outra, empacotar. Assim em caixas, ou algo do tipo, guardar as coisas. (Tirá-las da superfície e mantê-las ocultas.) Fazemos muito isso. Fazemos muito isso o tempo todo. Meu avô me dizia que o que não se guarda se perde. Talvez ele também tenha querido dizer com isso que tudo o que não se perde está guardado, eu acho, mas não acredito. É o porquê.

Guardar tem dois sentidos, eu já disse: esconder e preservar. Esconder de quem e preservar do quê não sei dizer, mas é assim que a gente faz. E é melhor que seja mesmo, caso contrário sempre agi errado. Se guardar fosse pôr para fora e compartilhar, qual seria a lógica no empacotamento que me persegue? Não faria sentido, eu não faria sentido, logo nada faria. E assim chegamos ao como.

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O eu contratado (pt. I)

domingo, setembro 20th, 2009

Às armas!

Em apenas poucas partes de conto (ele está sendo escrito ao mesmo tempo em que postado aqui) vocês vão saber o que merece viver e o que merece morrer. Boa leitura :)

Hoje eu acordei benevolente, mas nem tanto, então não crie expectativas pelo fato de eu estar melhor hoje do que estava ontem. É só que minhas vontades (quase todas; não todas) passaram e agora fico aqui sentado em estado de alfa, parado, alheio, relapso em relação ao tempo e às coisas que tenho de fazer. Porque minhas vontades passaram, já disse.  Então, bem, eu não quero fazer mais as coisas que me mandam fazer para viver, mesmo que esteja fora de questão questionar isso, e argumentar com quem quer que seja sobre o que eu deveria ou não estar fazendo da vida (e com a vida) também não é uma opção.

Ouça bem e você vai entender, porque sei que não captou nada e, como sei disso, tenho que me fazer explicar. Se você tivesse entendido desde cedo eu não precisaria perder meu tempo falando mais, mas, não, vocês têm que ser absurdamente inúteis quando o assunto é a compreensão. O que estou dizendo agora é que tenho um trabalho que não quero fazer. Não para sempre, suponho que queira voltar a trabalhar algum dia (na verdade, daqui a alguns dias), mas não agora, porque minhas vontades passaram. E é óbvio que eu sei que já disse isso, mas enfia essa merda de repetição que você tá criticando onde sentir que ela vai se encaixar melhor e me deixa falar.

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Outras vidas

sexta-feira, setembro 11th, 2009

Lévi-Strauss, Claude“Sabe como tornar alguém imortal?”, perguntou. Naquele tempo, eu ingeria todo tipo de literatura e podia opinar sobre um tudo nas rodas de conversa, desde algo a respeito de culinária, passando por política, guerras e comunismo, e finalmente culminando em palpites sobre as agências espaciais e seus entusiásticos foguetes. Claro, “imortalidade” estava dentro de meus domínios.

Mas, bem, eu respondi “Não” quase instantaneamente. Suponho que deva explicar porquê. Já havia, de fato, lido sobre o assunto algumas vezes, geralmente em revistas que chegavam para mim pelo correio ou comprava nas bancas, mas o problema é que, ao lidar com quem eu conversava, era sempre bom negar tudo. Saber ou acreditar em certas coisas nem sempre é o mais indicado em uma discussão com ele.

“Uma pena”, ele me disse, “realmente uma pena”. E aí ficou tamborilando com os dedos no tampo da mesa, tentando reproduzir uma canção. Minha cabeça pendia meio para baixo, meio para o lado, inclinada como se algo a estivesse puxando em direção ao chão. Não podia ser a gravidade, pensei, afinal de contas, ela toda estava dentro do corpo do velho sr. Gutiérrez, ali à minha frente. É assim que sempre o imaginei, desde quando era menino e meu pai costumava recebê-lo em nossa casa.

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E se Deus fosse um de nós…

domingo, abril 12th, 2009

Humpf

… apenas tentando voltar pra casa?

“Quando se vive solitariamente para sempre, quando se tem controle sobre toda a existência alheia, quando nada pode ferir-nos, ainda assim não somos completos, e só nos encontramos de verdade quando compreendemos que todas as nossas dúvidas e receios nada são além da vontade de sermos amados um dia.”

É uma história real.

O último fio a ser cortado

terça-feira, fevereiro 17th, 2009

Linha do destino

Tenho estado bem ocupado terminando alguns textos ultimamente, e por isso não sobrou tempo para atualizar o blog durante essas duas semanas. A partir de agora, vou tentar postar pelo menos uns textos curtos ou poemas, só pra manter o Blackbird funcionando. E vamos ter também, em breve, o começo de uma parceria com o Expressionando, fiquem atentos :)

Moshe Yacoovson não acreditava em nada. Que governo, que guerra, que paz, que Deus? O único diabo que conhecera em vida fora sua sogra, que Deus não a tenha. E coitado se a tivesse. Mas não existia Deus! Então, que nada — nada é de ninguém, todos são nada, substâncias vazias e disformes que flutuam em um mundo oco. Moshe via as coisas assim. Moshe vivia assim. Se era feliz? O que é felicidade? Ela existe, de se pegar? Como não, então, também não, ele não era feliz, apenas estava e sobrevivia, e assim seguia. O que mais se pode pedir da existência?

Se Moshe não pudesse tocar-se todas as manhãs, logo após acordar, duvidaria até mesmo que estivesse ali. Ou talvez não. É engraçado como os homens desacreditam em tudo, exceto em si mesmos; se creem que algo não é o que aparenta ser, só a crença já basta para criar uma certeza decrépita que defenderão até a morte.

Moshe Yacoovson não acreditava em nada, e eu não acreditava nele. Queria matá-lo desde que o conheci, essa era minha maior vontade, mas não podia. Inferno! Ai, blasfemei… tenho de me punir mais tarde. Ultimamente tenho ficado descontrolado, tendo alguns tiques, falando em voz alta certas palavras ruins. Preciso de uísque, um conhaque, charutos, mulheres… ah, droga, olha eu de novo! Anseio por uma vida humana agora, mas que grande merda! Desculpe, tenho que me controlar, me recompor. Mas como? Maldito Yacoovson, ele me deixa assim! Quando tenho que observá-lo mais de perto, prestar atenção em seus hábitos opacos e feitos até mesmo humanamente indignos, fico como estou agora, desejoso de experimentar outra vez mais e mais o cotidiano dos homens, suas paixões e desilusões, tudo o que lhes é permitido.

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Steve Jobs

quinta-feira, janeiro 15th, 2009

Bite the Apple

Sei que o objetivo do Blackbird não é ser um blog pessoal, mas não pude deixar de postar isso aqui, porquê, de certo modo, o próprio blog só existe graças a toda a influência da qual falo nesse post.

Quando cheguei ao trabalho hoje (atrasado, por causa de alguns contratempos) uma das primeiras coisas que a Nathália me disse foi “Você viu a notícia de que o Steve Jobs tá com uns problemas de saúde”; e eu: “Quê? Onde tá isso?”; e ela me falou onde eu poderia ler o artigo. E então li.

Steve se afastou da Apple. Temporariamente, tá certo (ele ficará fora até junho), mas se afastou. Qual o problema nisso? Pra mim, há muitos. Steve Jobs é o único ídolo que tenho. Nunca me identifiquei com cantores, pintores ou jogadores de futebol, mas quando li sobre o cara sabia que estava alí alguém que eu admiraria para sempre. E ele estar fora da Apple significa que não estará produzindo tanto quanto antes, e deixará de preencher o mundo com boa parte de suas idéias.

Pra quem não sabe, Steve Jobs não apenas revolucionou o modo como nós interagimos com a tecnologia: ele criou um estilo de vida que nos persegue até hoje. Pra mim, o cara é um gênio. O modo como administra a Apple, as idéias que saem da sua cabeça, sua inventividade, sua criatividade… tudo isso me causa admiração. O “modus operandi” de Steve Jobs é aquele que eu também adotei como meu: nunca copie, sempre crie, sempre ouse.

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A morte

quarta-feira, janeiro 14th, 2009

Roda da Vida e da Morte (ou Criança no Infinito)

Estejam sossegados, “A morte” não é um texto pessimista, nem desesperado ou psicótico-sentimental. É só uma reflexãozinha. Foi algo que escrevi há algum tempo atrás, quando do aniversário de falecimento do meu avô por parte de mãe, que eu nunca conheci. O nome dele também era Eduardo, e além de um nome, uma vida e uma família, ele me deu, mesmo tendo indo antes de eu chegar, um motivo para continuar andando até encontrar o fim. É estranho falar dele. Eu o sinto, muitas vezes, próximo de mim, e o encontro vivendo dentro da minha mente quando penso em quem eu sou de verdade. Não dá pra explicar, são apenas memórias que não são minhas, mas foram trazidas até mim pelo acaso ou pela necessidade de serem recordadas por alguém mais uma vez.

Da morte não sabemos nada, como não sabemos, também, sobre muitas outras coisas; mas, talvez, “não saber” seja a faculdade humana melhor conhecida, e mais acreditada, porque são mais numerosos os nossos mistérios que as nossas certezas, e mais terríveis nossas dúvidas que a nossa ignorância completa do desconhecido.

Nos é estranho o sentimento de perda porquê também nos é alheia a certeza de posse. Quando perdemos, pensamos: “eu tive?” Nada é possuível, assim como nada é perdível: o sentimento máximo de retenção ou recordação é, inexoravelmente, uma lembrança, nunca uma certeza. Descobrir nossa vida e se preparar para a morte é, então, abandonar a memória viva e encarar o ignorado que está além da nossa limitada compreensão – redescobrir o próprio fim; rememorar não as alegrias ou as tristezas, mas a fina linha que sempre as dividiu durante toda a vida.

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O Menino no Oceano

segunda-feira, janeiro 12th, 2009

Aquário

Ah. Ok, vamos fazer uma pausa! Por um momento, chega de textos questionando o sentido da vida, falando sobre o que Deus faz em suas horas de folga ou contando a história de reis de países distantes. Vamos falar sobre nós mesmos, sobre aquilo que mais nos motiva, sobre aquilo que mais amamos. Faça isso comigo através de comentários, réplicas à esse post no seu próprio blog, e-mails, enfim… apenas faça. Eu começo. Esse é o meu modo de ver a vida, essa é a minha maneira de encarar o tempo, de construir hora após hora o meu próprio mundo, à minha maneira:

Levo comigo apenas o estritamente necessário para poder viver. Isso significa que eu carrego água para todo o lugar que vou. Não é necessariamente uma verdade, mas serve para o propósito da discussão. Eu poderia dizer que levo papel e canetas, porquê minha necessidade maior é escrever o que penso e mostrar aos outros, mas eu raramente carrego isso comigo. Como eu já disse, também não carrego água, mas não tem importância. Pensem que é verdade, afinal, é mais comum ter um cantil consigo do que parafernálias para escrever. É, é mais comum, é mais normal. E eu odeio. Odeio toda a normalidade, tudo o que é igual demais, massivo demais. Não, eu não odeio massas, adoro macarrão, canolli e risoli, só odeio a massividade. Isso me angustia, e angustia porquê me corrompe. Ah, é, eu sou facilmente corrompido. Uma dúvida, uma vontade, uma pergunta sem resposta e pronto, é o bastante para que eu fique sem rumo, dando voltas ao redor de mim mesmo na esperança de encontrar o fio da meada outra vez.

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Cinco Dedicatórias (Parte II)

terça-feira, janeiro 6th, 2009
O Caçador se ElevaCinco Dedicatórias
Segunda Dedicação

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Todas as perguntas rodeiam cada um de nós: sobre o fim, sobre o começo, sobre o que há de vir quando nada mais estiver para chegar.

Antes de tudo, abra os olhos. Vai precisar ver dessa vez, e só quando enxergar encontrará suas próprias perguntas. E quem pode responder a todas as nossas questões são aqueles que as partilham conosco, que dia após dia se condenam à morte enquanto tentam o impossível, que buscam o que não conhecem e cada vez mais se perdem ao redor de si mesmos.

Mas, será que eles sabem de algo? Os homens podem encontrar a verdade, conseguem enxergar que tudo é sobre esperança e nada mais? Devemos acreditar nisso, mas, ah… não há fé alguma em aguardar que os próprios homens guiem sua existência rumo ao desfecho de tudo, se houver um. É mais uma questão de crença cega, mas facilmente abalável. A crença substitui a certeza; a certeza nunca é acreditável. Não, não pode ser. O que é certo não é crível, apenas sensível ao toque dos nossos corações.

Um coração. Quanta cura e razão há em suas mãos, e quanta destruição e dor? Ele sabe como encontrar todas as verdades, mas a que custo? Enquanto bate ininterrupto, alimenta a vida dos homens e, por isso, é também responsável pelo caos, pela desordem natural daqueles que vivem. O custo da busca pelas certezas perdidas é a continuação da existência humana. Poderíamos encarar esse fato como um pecado abominável, mas é mais um mal necessário. Enquanto tosquiamos nosso mundo, recolhemos sua lã e a queimamos para conseguirmos fumaça suficiente para respirarmos, nossos corações saltitantes tentam compreender, amar e sentir tudo, nos dando motivos a mais para prosseguirmos com a busca e acreditarmos nela. Se não fosse assim, como poderia ser?

Abrigamos o conhecedor das respostas dentro de nós, e ele nos paga com nossa própria vida a chance que o damos de cumprir sua jornada. Quem, então, viria nos dar certezas nos dias de hoje senão nós mesmos, aqueles que se condenam à morte quando, mesquinhamente, deixam que seus corações parem de bater, encerrando, assim, sua insaciável busca pelas respostas da vida?

Pois a vida só é eterna para aquele que procura algo em que não se pode acreditar, porquê a eternidade é inacreditável, e apenas isso basta para que também nós possamos ser. Com que intensidade seu coração bateu hoje?

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Essa segunda dedicatória foi toda reescrita. Apenas o primeiro parágrafo é parcialmente original. Enquanto eu tentava encontrar a música ideal para refazer algumas partes dela hoje à noite (fiquei entre algumas do Coldplay e outras do Pink Floyd), muitas coisas simplesmente foram surgindo  na minha cabeça e eu incluí tudo no texto sem parar pra pensar no que fazia. Putz, realmente não faço idéia de se ficou bom ou não, mas gostei (e muito) do resultado! O único outro texto em que senti essa espécie de frenesí enquanto escrevia foi “A Casa e o Mar“, mas, nesse caso, foi intencional. Com essa segunda dedicatória tudo simplesmente foi indo, indo e, quando me dei conta, já estava lá a última interrogação. Eu simplesmente adoro fazer o que faço, e igualmente amo quando tenho motivos para gostar disso :)

Espelhos no Infinito

terça-feira, dezembro 30th, 2008

Middle-earth“Um homem pode tocar o Universo. Pode transformá-lo em água, transformá-lo em vinho. Um homem pode crescer para além das bordas do mundo e fazer da vida um recomeço. Sempre. Pois é isso que a existência é: um ciclo. É o fim hoje e o início amanhã.

Um homem pode criar seu próprio Universo. A partir daí, ele se torna responsável por suas explosões. Se torna seu próprio Big e faz do Bang o ponto final que não existe – para o ciclo sem fim, para a harmonia celeste; para a paz que nos sobrevoa e invade a todos nós, nos fazendo acreditar que podemos ser sempre mais, mesmo quando não somos nada.”

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