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Nada realmente importa

segunda-feira, janeiro 11th, 2010

Sim, ela costumava ser uma pessoa triste. Costumava pensar, como os que pensam, que futuro se faz de passado e presente, nunca (ou nem sempre) do que vem sem que se espere que venha, das novidades que arremessam-se contra a cotidianidade das coisas e a sua ordem e mudam também o que temos por nosso, ainda que isso seja, bem… aquilo que costuma fazer de nós as pessoas tristes que somos. Tanto era assim que, certo dia, o café coado por ela saiu com borra, o que pouca importância tinha para os poderes que regem o Universo, é claro, mas significava tudo, significava um universo inteiro de mudanças, para quem ela era. Surtou nesse dia e em todos os outros também, como acontece com aqueles que se desfazem quando a calmaria é interrompida pelas atribulações das pequenas coisas, e de novo, de novo, e de novo tomam contato com uma parte de si que se mantém à espreita do eu que são, aguardando a menor demonstração de fraqueza, de descontinuidade, para atacar, para (sem que nem mesmo haja esperança alguma de sucesso) tomar conta de um todo humano que não faz sentido para si mesmo, que não é sentido por si mesmo, que não está nem aí para o que dizem de si, não por ser magnânimo, nem por ser surdo, mas por ter o café saído com borra e as certezas da Existência se misturado com pó, enquanto deveriam ser líquidas e cristalinas, não turvas e empoeiradas como todo o resto que é e não é humano, que é e não é certeza, que é de novo, e de novo, e de novo o costume ao qual se acostumam as pessoas tristes que nos acostumamos ser.

O último texto que escrevi no ano passado, no dia 31/12. Só cheguei a terminá-lo esse ano. Era para ser um conto longo, mas escrevi um mini-conto em vez disso. Achei melhor.

O título foi retirado da letra de Bohemian Rhapsody, do Queen.

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