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A Trombeta Desafinada (Em Deus Nós Acreditamos)

terça-feira, janeiro 27th, 2009

Dia do Julgamento

A trombeta desafinada

É grande, nos Céus, a preocupação com todos os instrumentos que irão ser usados no dia do Grande Juízo. Nada pode faltar, nenhuma corda de harpa deve estar arrebentada, as cornetas precisam estar lustrosas e os couros dos tambores têm de estar bem esticados, caso contrário, que som haveriam de fazer?

Antigamente havia ensaio do Coral todos os fins-de-semana, mas desde que houve greve por parte de alguns dos anjos, que resolveram formar uma espécie de sindicato ou coisa parecida em meio à lava e  ao mármore ardente, ele só se reúne uma vez por mês. Na maior parte do tempo os coristas fazem intercâmbio para aprenderem novos sons e trejeitos musicais.

Um dia um grupo de anjos desceu disfarçado à Terra para ter aulas sobre a teoria da bossa-nova. Perdidos, foram parar por engano em um morro carioca. Voltaram aos Céus incorporando às músicas do Coral Divino batuques de samba e batidas de funk. Alguns dos arcanjos ficaram realmente irados (ou algo assim). Deus apenas riu e tomou de um dos coristas uma trombeta visivelmente desafinada, tocando Ele mesmo uma melodia cheia de ranhuras, mas ainda assim inacreditavelmente ritmada. Todos pegaram seus próprios instrumentos e acompanharam a música desafinada do Poderoso.

O Céu se encheu daquele som, e não houve lugar algum onde ele não fosse ouvido. Até mesmo os homens aqui embaixo conseguiram escutá-lo. Não o compreenderam muito bem e correram para casa para abrigarem-se, achando que um temporal se aproximava. Geralmente é assim, os homens nunca entendem… quando Deus toca algo nos Céus e a Terra se enche de seu barulho maravilhoso, e os próprios anjos desatam a chorar de emoção por poderem escutá-lo, os tolos homens acham que é só mais chuva chegando. E, pensando assim, apenas se refugiam de tudo.

Líu

terça-feira, janeiro 27th, 2009

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Até que ponto estamos dispostos a abdicar de nossas próprias verdades para aceitar as dos outros?

Havia uma menina, o nome dela era Líu. Ela gostava de Carlos Gardel, muito bem. Tinha uns sete, oito anos, eu acho. Quem tinha? A Líu, obviamente. Continuando… a música preferida dela era Por una cabeza, afinal de contas, tinha uma história e tanto com essa canção. Quando Líu deu seu primeiro beijo estava tocando Por una cabeza no alto-falante da praça; quando Líu deu a luz à seu primeiro filho estava tocando Por una cabeza no walkman do médico; quando Líu se casou tocava Por una cabeza fora da igreja. E, finalmente, quando Líu morreu tocaram Por una cabeza em sua homenagem.

Ora, que mentira! Como é? É uma grande mentira, essa história que você contou. Mentira…? Mas por quê? Porque você mesmo disse que Líu tinha apenas sete anos! Sete ou oito, foi o que eu disse. Não importa! O que quero dizer é: como uma menina de sete ou oito anos pode beijar, ter um filho, se casar e morrer? Bem, ela pode dar um beijo e morrer, e se casar também, se quiser. Mas e quanto a ter um filho? É, isso ela não pode fazer. Viu? Sua história é uma grande mentira! Mas por que, camarada? Porque essa Líu não existe! Oras, claro que existe… eu a conheço. Não, você não conhece! Certo, eu não conheço Líu, mas um amigo meu a conhece. Não, ele não conhece! Ok, ninguém sabe quem é Líu.

Ah! Então você admite que sua história é falsa? Não. Mas você disse que não conhece essa tal de Líu… Sim, eu disse. Então…? Então que isso não significa que minha história seja falsa. Por quê? Porque os anos têm mais tempo do que você pode contar. Como assim? Não entendi… Certo, vou explicar: os anos têm mais tempo do que você pode contar. Você não explicou nada, só repetiu o que havia dito! Então, isso é uma explicação. Como? Eu disse que os anos têm mais tempo do que você pode contar, logo, para mim que sei como isso pode acontecer, está explicado. Mas eu não sei como isso pode acontecer, e exijo que você me explique! Ah, você não sabe? Não, não sei. Então como pode dizer que Líu não existe se não consegue contar o tempo em oito anos de vida? Eu posso dizer que ela não existe pois você não a conhece e inventou essa história! E digo mais: oito anos de vida têm exatamente 2.924 dias, 70.176 horas e 4.210.560 segundos. Logo, esse é o tempo de vida de Líu! Não, não é. Como não é? É tudo matemático! Não estou nem aí para a matemática, meu camarada, se você não consegue enxergar para além de marcas do tempo e espaço, então não serve para compreender a mentira que criei.

Rá! Então você admite que era uma mentira! Não, não admito. Mas você disse… Sim, eu disse. Então é uma mentira! Não, não é. E por que não? Porque eu acredito nela. Mas eu não! Você não tem maturidade para crer ou não crer em nada. Ah, não tenho, é? Eu sou um doutor, tenho um consultório, atendo gente! E ainda assim acha que não tenho maturidade? Exato, você não tem. Diga-me porque chegou a essa conclusão, então! Simples: você não sabe contar. Lógico que sei! Óbvio que sei! Veja só: um, dois, três, quatro… Certo, agora conte em números geométricos. Números o quê? Geométricos. O que é isso? Viu? Você não sabe contar! Não, me explique o que são números geométricos que eu conto pra você, eu posso fazê-lo! Não, não pode. E por que não seu filho de uma… Por que você não tem maturidade.

Ai, me diga de uma vez, o que te leva a crer que não tenho maturidade? Como já disse, é simples: você não sabe contar. Meu Deus! Eu já contei pra você: um, dois… Não, quero números geométricos. Mas eu não sei o que é isso! Então, conseqüentemente, não sabe como contar. Eu vou-me embora… Para Pasárgada? Deixe de ser idiota, não sou Bandeira! Exatamente, não tem competência para sê-lo. Meu senhor, passar bem, vou-me. Au revoir! Então vá, n’oubliez pas la logique. Ah, você fala francês! Até que enfim algo em comum entre nós dois. Isso não foi francês, foi geometrês. Ah, vá se catar, meu senhor! Eu vou seguir meu caminho, e que o senhor siga o seu, adeus!

Além de Por una cabeza, Líu gostava… Ah, é só eu dar as costas que o senhor continua a história, não é? É, sim. E por quê? Você usa muito porquês. É um direito meu. Não, não é. Ah, não? O que são direitos para você então, sabichão? Direito é o que permite que eu viva em meu mundo, com Líu, números e línguas geométricas, e você no seu, com porquês, lógica e seu consultório. Ah, agora filosofou! Está querendo dizer que eu não te dou o direito de ser como é? Não, não estou. Então o que quis dizer? Quis dizer e deixar implícito que você não tem de me dar nada, pois o direito não se conquista, ele é eterno e nato. Entretanto, não é direito meu interferir no seu direito, e vice-versa, coisa que o senhor está fazendo. Isso foi o que quis dizer. Entendo… Então agora crê em Líu? Não. E no que crê? No seu direito de acreditar nela.

Disse que era médico… preciso me consultar. Quanto é? Nada, para o senhor faço de graça. Obrigado.

Quer um comentário ao fim do texto? Ele não precisa de um, mas se mesmo assim o quiser, lá vai: Um pequeno parágrafo sobre moral diria que essa é uma fábula sobre o direito do homem de ter seu direito de fazer o que quer sem ter o direito de interferir no direito (ou arbítrio) de outros homens. Eu diria que não é uma fábula, mas sim a história da vida e morte de Líu. As discussões sobre a verdade e a mentira, a crença e a não-crença, foram incluídas apenas para prolongar o relato. O fato é que uma história sobre uma criança imaginária deixa de ser uma história sobre uma criança imaginária quando passamos a querer impor aquilo que achamos certo à pessoa que conta a história – a interferir no direito do outro de contá-la como ele a vê. Entretanto, há momentos em que o que está em jogo não é o direito dos outros, mas sim a sua consciência. O contador de histórias, por exemplo, fez com que o doutor enxergasse seu erro interferindo no direito desse de errar. O que acontece é que muitas vezes esquecemos porquê diabos temos a capacidade de mudar certos aspectos na vida de outra pessoa, e acabamos usando essa capacidade unicamente para que essa pessoa concorde com nossas idéias a todo e qualquer custo. Isso é um erro, se quer saber. O meu direito termina onde o seu começa, mas o meu direito, nem o seu, não devem terminar, devem ser infinitos. Isso quer dizer uma coisa absurdamente simples e nada complexa: preservar a integridade dos homens é garantir que eles tenham o poder de pensar por si próprios. Não é dar a cada um deles um canto no mundo onde possam ficar sozinhos e refletir sobre determinados assuntos, mas sim garantir que uma pessoa sempre ajudará a outra na busca pela liberdade de pensamento, a liberdade de expressão, a liberdade de conduta. Isso seria um caos, uma vez que os direitos não teriam fim? Sim, seria, mas um caos que não é controlado por um único homem, e sim por todos. A evolução do homem não depende de fatores isolados, mas da relação de todos eles em uma comunidade talvez um pouco grande e emaranhada, porém que aos poucos vai se organizando conforme nós vamos progredindo nas relações com outros seres, a ponto de chegar um momento em que digamos “ei, quer saber, vamos abolir os direitos individuais!” sem que isso seja sinônimo de um Golpe de Estado ou uma Ditadura. Numa sociedade unida pelo propósito do crescimento mútuo essa frase significaria que o homem não precisaria mais de termos para se organizar, não necessitaria de uma definição de “direito” para que esse fosse seguido ou defendido. Nessa realidade utópica e ficcional, nós, homens, teríamos atingido tal ponto em nossa escala evolutiva que a única palavra que teríamos de respeitar seria… nada. Não o termo “nada”, mas sim nada, como em “nada de nada”. Não haveria respeito, pois respeito é apenas um termo, um nome dado a um sentimento ou pensamento. O que haveria é o senso de que, uma vez que meu próximo é também um ser-humano, não pode ser tratado apenas com palavras, ou mesmo tido como o conjunto de algumas expressões que não abrangem a totalidade do que o homem representa – ele deverá ser tratado com consciências. Na verdade, as próprias palavras dariam lugar às consciências, o que quer dizer que chegaríamos a tal ponto em nossa história evolutiva humana que seríamos capazes de conviver com outros homens sem criar guerras, sem gerar desrespeito, preconceito e outros tipos de exclusão ou mal à nossa própria espécie: deixaríamos de rotular sentimentos e pensamentos para podermos usá-los, e viveríamos em conjunto com nossos irmãos, desejando apenas existir, mas existir em conjunto.

Ou, em outras palavras mais polidas,“homem” deixaria de ser apenas uma outra palavra para “macaco”.

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