Posts Tagged ‘homens’

Luminus Obscuri (Jogos Textuais – Parte VIII)

domingo, abril 26th, 2009

No topo da montanha mais negra, às voltas com os mais escuros assuntos

Este texto foi escrito com a ajuda inestimável de Bohemian Rhapsody, do Queen.

Invertemos a ordem de postagem dos Jogos Textuais. Agora, meus textos saem aos domingos, e os do Smaily, às quartas.

Acompanhe as partes anteriores deste Jogo Textual postadas no Blackbird e no Expressionando.

Boa leitura, e pode beijar a noiva!

Quando parei de correr meus pés doeram, pontadas agudas que indicavam que meus limites haviam ficado para trás. Havia me excedido. Do topo do monte olhei para baixo, uma selva verde (verde?) de cipós enovelados e folhas reluzentes me cercava por todos os lados. Passara por ela naturalmente, sem me dar conta de para onde estava indo.

É à minha frente, no cume da pequena montanha, que ele está. Seus poros exalam o gás incandescente dos lumini, fios de vapor se condensam ao seu redor e o fazem brilhar. Mas é um brilho distinto de todos os outros, mais fraco, mais gasto, como se o tempo ou o que quer que fosse o tivesse tornado pálido, mas nem assim menos poderoso, menos vívido.

Ele estende a mão e me toca a face. “Frio”, diz. Não compreendo. “Como foi?”, ele pergunta. Meu silêncio e minha dúvida parecem irritá-lo. Sua mão pousa em meu ombro. Algo arde em mim, como se roçasse minha pele, adentrasse os músculos, penetrasse os ossos e chegasse ao espírito. Sinto cócegas na alma.

“Não entendo”, digo a ele. “Sei que não. Talvez a queda o tenha alterado, talvez, quem sabe, jamais possa se lembrar das coisas que fez…”. Não entendo, agora penso apenas comigo. Akin, esse era o nome? Talvez tenha escutado errado. Pergunto-lhe quem é. “Nanki”, diz. Tanto faz, não importa… deuses que há na terra e no céu, sou um perdido. Sou escuro, sujo, fétido, pútrido, e à minha frente há um elo com o passado, um elo com o indizível, que parece saber de mim mais do que eu mesmo sei; e não há como escapar daqui, fui eu mesmo que o segui, dei os passos rumo à sua direção… deuses do céu e da terra, o que é isso? Exclamo.

Ele parece ouvir tudo, perscrutar a minha mente. Ri algumas vezes, outras apenas abre um sorriso e observa meus olhos se moverem, leitosos, da esquerda para a direita. “Ikatki”, me diz, “esse é o nome com o qual nasceu”. “Um deus?”, pergunto. Ele ri gostosamente; suas mãos tocam as minhas e as apertam. “Continua chamuscado, pode-se só olhando para você”, fala. “Mas não foi sempre assim”, eu digo, relembrando a época em que era como os outros. Ele, pacientemente, diz: “Sempre foi”.

“Não”, reajo. Ele me cala com um olhar e fala mais uma vez: “Só porque você brilha por fora, não quer dizer que toda essa luz esteja dentro de você”.

O vestido entre dois mundos

segunda-feira, fevereiro 2nd, 2009

A Bela e a Fera, mas a Fera não era fera, era bela aos olhos de quem era feroz“Não é sobre o vestido!”, gritou a fera, cuspindo um misto de saliva salpicada de sangue enquanto tentava ocultar suas garras. Não queria assustá-la desnecessariamente, mas era um tanto impossível não fazê-lo, convenhamos.

“Quando eu estou com ele você não me olha direito, parece me ignorar, ou… temer alguma coisa”, a mulher argumentou. “Não é sobre o vestido!”, bradou novamente a fera, no mais alto tom. A jovenzinha contorceu-se de medo e receio. “Você não entende, não sabe como é… se soubesse, se ao menos sonhasse sobre como eles te olham, nas coisas que pensam…”, disse o monstro, ocultando a face com as mãos.

“Do que você está falando?”, a jovem lhe perguntou. “Sobre nada. Enquanto estiver comigo, não vai precisar se preocupar com isso”. “Sim, mas do que raios você está falando?”, ela questionou outra vez, enraivecidamente curiosa. “Quieta!”, gritou a fera. O monstro bufava. “Eu não entendo você…”, disse a mulher. “Não precisa me entender, mas sim à parte de mim que te deseja”. “Ai… qual o problema nisso?”. “Tudo! Você não vê? Não percebe como sou? Olhe para mim… eu não posso dar a você aquilo que deseja”, respondeu a fera. “Isso é uma bobagem. Você é exatamente como eu quero”. “Não!”, rugiu o monstro, “você não pode me querer assim! Precisa de alguém melhor, mais… humano”. “Você é perfeitamente humano, não te entendo!”.

(mais…)

Bruteburgo

terça-feira, janeiro 13th, 2009

Apenas a ponta do iceberg

Voltamos à programação normal, queridos ouvintes do Blackbird!

O que estou postando hoje é um poema que faria parte de “A Grande Viagem Atômica“, uma coletânea que estava preparando junto do Jun. Ela iria reunir uma série de poesias que falavam dos aspectos mais triviais da vida de uma maneira diferente. “A Chaleira Divina” e “O Escarro de Deus” são exemplos do que eu estou dizendo.

Eu escrevo coisas simples também, bem simples, extremamente simples (e visivelmente bobas). Esse poeminha aí é a prova:

Bruteburgo
s.m.: a cidade dos idiotas*

O Sol nasceu de uma vez,
sem respeitar a sua hora,
sem pedir permissão àquele
que faz brotar todas as manhãs.

Na cidade entre as montanhas
a grande bola de fogo dourado
acordou todas as pessoas
que ainda insistiam em viver ali.

Em Bruteburgo, ao pé do mundo,
além de todas as coisas,
onde o tempo não ousa passar,
cada habitante amanheceu.

O Sol rejuvenescia a alma
dos homens que ali moravam,
e sempre foi assim,
desde que Bruteburgo é Bruteburgo.

Mas, mesmo se não houvesse Sol,
os homens continuariam a acordar,
a sentirem-se fortes novamente
depois de uma boa noite de sono,

pois não está ligado ao fogo
ou à ciência da astronomia divina
o despertar dos seres de Bruteburgo,
nem de lugar algum.

A questão de como amanhecer
todas as manhãs, uma após a outra,
não tem a ver com o giro dos astros
ou a vontade de quem os faz girar:

a questão é acreditar no mundo que está
além do raiar das grandes estrelas.

_________________

*Brute quer dizer idiota, burgo significa cidade, então o título fica algo como “cidade dos idiotas”.

Cinco Dedicatórias (Parte II)

terça-feira, janeiro 6th, 2009
O Caçador se ElevaCinco Dedicatórias
Segunda Dedicação

____________

Todas as perguntas rodeiam cada um de nós: sobre o fim, sobre o começo, sobre o que há de vir quando nada mais estiver para chegar.

Antes de tudo, abra os olhos. Vai precisar ver dessa vez, e só quando enxergar encontrará suas próprias perguntas. E quem pode responder a todas as nossas questões são aqueles que as partilham conosco, que dia após dia se condenam à morte enquanto tentam o impossível, que buscam o que não conhecem e cada vez mais se perdem ao redor de si mesmos.

Mas, será que eles sabem de algo? Os homens podem encontrar a verdade, conseguem enxergar que tudo é sobre esperança e nada mais? Devemos acreditar nisso, mas, ah… não há fé alguma em aguardar que os próprios homens guiem sua existência rumo ao desfecho de tudo, se houver um. É mais uma questão de crença cega, mas facilmente abalável. A crença substitui a certeza; a certeza nunca é acreditável. Não, não pode ser. O que é certo não é crível, apenas sensível ao toque dos nossos corações.

Um coração. Quanta cura e razão há em suas mãos, e quanta destruição e dor? Ele sabe como encontrar todas as verdades, mas a que custo? Enquanto bate ininterrupto, alimenta a vida dos homens e, por isso, é também responsável pelo caos, pela desordem natural daqueles que vivem. O custo da busca pelas certezas perdidas é a continuação da existência humana. Poderíamos encarar esse fato como um pecado abominável, mas é mais um mal necessário. Enquanto tosquiamos nosso mundo, recolhemos sua lã e a queimamos para conseguirmos fumaça suficiente para respirarmos, nossos corações saltitantes tentam compreender, amar e sentir tudo, nos dando motivos a mais para prosseguirmos com a busca e acreditarmos nela. Se não fosse assim, como poderia ser?

Abrigamos o conhecedor das respostas dentro de nós, e ele nos paga com nossa própria vida a chance que o damos de cumprir sua jornada. Quem, então, viria nos dar certezas nos dias de hoje senão nós mesmos, aqueles que se condenam à morte quando, mesquinhamente, deixam que seus corações parem de bater, encerrando, assim, sua insaciável busca pelas respostas da vida?

Pois a vida só é eterna para aquele que procura algo em que não se pode acreditar, porquê a eternidade é inacreditável, e apenas isso basta para que também nós possamos ser. Com que intensidade seu coração bateu hoje?

_____________________________________

Essa segunda dedicatória foi toda reescrita. Apenas o primeiro parágrafo é parcialmente original. Enquanto eu tentava encontrar a música ideal para refazer algumas partes dela hoje à noite (fiquei entre algumas do Coldplay e outras do Pink Floyd), muitas coisas simplesmente foram surgindo  na minha cabeça e eu incluí tudo no texto sem parar pra pensar no que fazia. Putz, realmente não faço idéia de se ficou bom ou não, mas gostei (e muito) do resultado! O único outro texto em que senti essa espécie de frenesí enquanto escrevia foi “A Casa e o Mar“, mas, nesse caso, foi intencional. Com essa segunda dedicatória tudo simplesmente foi indo, indo e, quando me dei conta, já estava lá a última interrogação. Eu simplesmente adoro fazer o que faço, e igualmente amo quando tenho motivos para gostar disso :)

Get Adobe Flash playerPlugin by wpburn.com wordpress themes