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É melhor o fogo

quarta-feira, março 10th, 2010

“Acerte o Sol mirando a Lua”, meu pai costumava me dizer. “Com a força que você tem, tudo o que lançar em direção a ela vai demorar centenas de milhares de anos para não atingi-la, porque ela não estará mais lá. Mas é provável, é bem provável, se você mirar direito, que o que jogar em direção ao Céu atingirá o Sol, que se esconde atrás da Lua e não sai do seu lugar.” “Uau!”, eu respondia. E então não era preciso meu pai dizer mais nada.

O que eu poderia jogar em direção ao Sol não joguei nunca. Eu não acreditava mais no meu pai quando fiz oito anos, e isso tornou ainda mais longa a distância até o Sol. E maior a força necessária para fazer algo viajar até lá.  E aos oito anos é provável que todos, como aconteceu comigo, percam a esperança de fazer algo grande um dia, porque dão um jeito de tirá-la de nós. O mundo e as possibilidades que havia além da órbita da Terra se fecharam para mim entre um soco e outro nos intervalos da aula, entre a primeira e última crise histérica de minha mãe, religiosamente presentes em todos os dias, e a cada ausência semanal do meu pai. Ele viajou mais aos meus oito anos que meus próprios pensamentos. Ou talvez não. Há uma chance de que eles o tenham acompanhado sempre, e ele os tenha perdido em algum lugar, aí não conseguiram voltar.

Hoje eu não sou tão mais velho do que era naquela época, mas sou mais esperto. Aprendi que a distância até o Sol é longa até mesmo para a luz, o que já me levou a pensar que, quem sabe, no escuro os milhões de quilômetros se encurtam, e que é por isso que à noite vemos as estrelas, e ao dia não, porque elas ficam mais próximas da Terra. Já cheguei a acreditar que havia uma chance de meu pai não estar errado, que os milhões de quilômetros se transformariam em milhares de centímetros nas doze horas mais escuras do dia, e que esticando um galho muito longo eu poderia tocar o Sol. E assar marshmallows nele. E talvez morrer incendiado. A gente se incendeia ou só se queima?

Uma vez me queimei de febre e fiquei de cama por três dias. Outra vez queimei uma das mãos em um ferro quente. Nunca me incendiei, mas todas as vezes em que estive queimado não pude brincar. Um dia, na escola, fui queimado na queimada. Eu era muito ruim. Nunca mais me escolheram pra jogar. Acho que há uma relação entre fogo e felicidade: quanto mais chamuscados estamos, mais infelizes ficamos. Não consigo entender como algo como o Sol queima a si mesmo. Quando eu era menor, uma das coisas que queria atirar nele era um balde d’água, pra ver se o apagava. Meu pai dizia que a água iria evaporar-se quando chegasse perto, e lembro que na época fiz uma experiência que provava que ele estava errado. Peguei uma brasa do tamanho do Sol e mergulhei-a na água. Não evaporou muita coisa. Só mais tarde fui entender que o Sol era maior que a brasa, era maior que o mundo, mas tive medo de juntar brasas do seu tamanho e incendiar a Terra. Porque a Terra, ao contrário dos homens, se incendeia.

Desisti de apagar fogos tão distantes e me concentrei nos que assolavam as florestas. Depois me desinteressei desses também, e só fogos de artifício despertavam minha curiosidade. Disparei alguns secretamente, porque minha mãe havia me proibido de brincar com essas coisas. Tinha medo deles. Tinha medo do que era proibido, medo e admiração. Nunca me proibiram algo que depois eu não tenha feito. Acho que só proibem coisas que não podemos evitar fazer, para depois termos que confessar nossos pecados e nos arrependermos e nos emendarmos. Seja lá o que “emendar-se” quiser dizer. Eu nunca estive quebrado.

De um modo ou de outro, o tempo passou sem que eu tivesse certeza de nada. Olhando para trás vejo que não havia muito a saber, e isso não faz diferença. Ninguém nunca sabe de nada. Meu pai era um mentiroso. Um menino da minha sala fingia saber fazer mágica. Uma garota uma vez disse que gostava de mim. Um cachorro me mordeu. Melhores amigos do homem uma ova! Ninguém nunca sabe de nada! Eu, no entanto, sabia de tudo. Mas disse também que não tinha nenhuma certeza. É verdade. Eu sabia o que não existia e o que era real, quem me amava, quem roubaria meu lanche no recreio, minha cor favorita, que eu não gostava de futebol. Eu sabia, mas tinha certeza? Certamente não. Meus pais – Bruno, o menino da série acima da minha – azul – não suportava nem mesmo a Copa. Mas sempre achei que minha mãe me amava menos, que Bruno só queria ser meu amigo, que branco era, na verdade, mais bonito, e que futebol só podia ser bom, já que todos gostavam. A questão é que nunca temos certeza alguma se nos acertamos segundo os outros.

Se somos todos infelizes eu também não sei. Se sou infeliz não quero saber. É muito cedo. Esse tipo de coisa não deve nos preocupar antes de morrermos, e só pode preocupar-nos depois porque aí já não importa mais. Se sabemos se somos felizes ou não cedo demais nos damos conta de se estamos ou não em chamas. Se somos umas espécie de Sol, ou algo assim. Não quero saber, porque toda vez que me molhasse teria medo de me apagar. Talvez, se fogo for mesmo igual a tristeza, isso seria até bom. Mas até quando? Se o Sol se apagasse, por exemplo, se eu tivesse conseguido jogar água nele, tudo seria escuro, tudo estaria ainda menos distante de tudo, e eu estaria mais próximo de quem não quero estar. É melhor o fogo, que conforta e machuca e ilumina, que faz molhar a cama onde dormimos se brincamos com ele. É melhor o fogo.

Mas as coisas são sempre como acertar o Sol mirando a Lua: vamos ainda mais longe quando não queremos ir, nos apagamos tentando acender-nos e nos acendemos quando estamos apagados. Bem, o que eu queria dizer mesmo era que meu pai estava muito errado, e que cresci acreditando em inacreditáveis, que ainda me assombram. Mas talvez – talvez… – ele estivesse certo. Quem sabe nunca acertamos a Lua porque ela sempre abre passagem para tudo seguir o seu caminho, porque não quer ser alcançada, ou porque não precisa ser? Ou talvez meu pai só tenha errado os cálculos, os quilômetros, o tempo, a velocidade, e nenhum astro seja realmente alcançável por nós. Quem vai saber?

Não sei dizer ao certo, e, como não sei, não digo. Mas um dia também terei um filho e irei falar algo a ele. Não há como prever o que falarei à época, mas se essa época fosse hoje seria “Se incendeie”. Quando perguntasse por que eu responderia: “Se você está em chamas é porque tem algo a queimar”. Me parece bom. Não é preciso atingir Sol algum, nem fazer esssas grandes coisas que parecem ao mesmo tempo tão fáceis e difíceis quando somos pequenos. Nunca, eu sei, fazemos nada melhor que aquilo que fazemos a nós mesmos, e até isso já é muito ruim. Precisamos é organizar (ou não…) o caos dentro de nós para queimarmos todo ele, assim como queimam a si mesmas as estrelas. Algo como finalmente nos acertarmos enquanto miramos a parte escura que há em nós, e que devemos incendiar. Porque é melhor o fogo.

Apoteose & Epifania

segunda-feira, janeiro 11th, 2010
um milhão de sóis e barulhos
se misturam na mente,
conforme as estrelas passam,
o céu se apaga
e as estrelas caem
e o mundo se move
e a estrelas…
(mais…)

Luminus Obscuri (Jogos Textuais – Parte VI)

quinta-feira, abril 16th, 2009

Brilhe

Acompanhe as partes anteriores deste Jogo Textual postadas no Blackbird e no Expressionando. Boa leitura, e obrigado por todos os peixes!

Ikatki era um deus ou algo assim. Sinceramente não sei dizer o que ele era, jamais dei importância a esse tipo de coisa antes, mas…

A lenda sobre Ikatki dizia que ele havia apagado o globo incandescente (no momento não me recordo muito bem, mas há poucas chances de ter sido um retângulo) que iluminava nosso planeta. Por quê? Porque ele se sentia só. Como é? Também não compreendo. Alguém que se sinta só jamais irá querer ver extinguida a luz, certo? Parece que não para ele.

Talvez Ikatki tenha sido o primeiro dos lumini a andar por aqui; e talvez ele tenha escolhido enegrecer-se e confundir-se com a escuridão para jamais ser notado, para que pudesse continuar sozinho pelo resto de seus infinitos dias, pois assim lhe seria mais prazeroso, seria mais… como posso dizer? Talvez você saiba: quando está sozinho, você tem sede de quê?

Tenho sede de água. Em minha solidão espontânea, desejo apenas água. Sorvo alguns goles do lago que me rodeia. Curioso, não me dei conta, mas estou no meio dele, cercado por águas que tocam minha pele e me fazem sentir imerso numa profusão de mares interiores, ou outras coisas molhadas assim, dos quais não tenho ciência. As estrelas refletem-se na superfície do lago. Chamo estrelas aquilo que não tem nome, os pontos brilhantes acima de mim que nenhum de minha espécie jamais enxergou. Sou privilegiado, sou condenado, sou agraciado, sou podado. Eu sou.

Ikatki me vem à mente mais uma vez. Ele tinha um irmão, não lembro qual o seu nome… talvez Nanki ou Akin, realmente não sei. Nas lendas, Akin tomou para si uma última porção do fogo do grande astro, antes que seu irmão o apagasse, e incendiou-se a si mesmo, tornando-se a única luz desse planeta. Se Ikatki foi, em corpo, o primeiro dos lumini, Nanki foi nossa primeira alma.

Gostaria de saber se as lendas são verdadeiras. Será que as estrelas presenciaram todos esses feitos? Elas sabem? Mas, se não for verdade, o que aconteceu conosco e com o mundo em que vivemos, onde se refugiou o fogo que consumia o vazio escuro que está além do que vemos?

A água escorre pelo meu corpo, as estrelas ainda brilham sobre mim. Eu fecho meus olhos. Ainda posso vê-las.

Bruteburgo

terça-feira, janeiro 13th, 2009

Apenas a ponta do iceberg

Voltamos à programação normal, queridos ouvintes do Blackbird!

O que estou postando hoje é um poema que faria parte de “A Grande Viagem Atômica“, uma coletânea que estava preparando junto do Jun. Ela iria reunir uma série de poesias que falavam dos aspectos mais triviais da vida de uma maneira diferente. “A Chaleira Divina” e “O Escarro de Deus” são exemplos do que eu estou dizendo.

Eu escrevo coisas simples também, bem simples, extremamente simples (e visivelmente bobas). Esse poeminha aí é a prova:

Bruteburgo
s.m.: a cidade dos idiotas*

O Sol nasceu de uma vez,
sem respeitar a sua hora,
sem pedir permissão àquele
que faz brotar todas as manhãs.

Na cidade entre as montanhas
a grande bola de fogo dourado
acordou todas as pessoas
que ainda insistiam em viver ali.

Em Bruteburgo, ao pé do mundo,
além de todas as coisas,
onde o tempo não ousa passar,
cada habitante amanheceu.

O Sol rejuvenescia a alma
dos homens que ali moravam,
e sempre foi assim,
desde que Bruteburgo é Bruteburgo.

Mas, mesmo se não houvesse Sol,
os homens continuariam a acordar,
a sentirem-se fortes novamente
depois de uma boa noite de sono,

pois não está ligado ao fogo
ou à ciência da astronomia divina
o despertar dos seres de Bruteburgo,
nem de lugar algum.

A questão de como amanhecer
todas as manhãs, uma após a outra,
não tem a ver com o giro dos astros
ou a vontade de quem os faz girar:

a questão é acreditar no mundo que está
além do raiar das grandes estrelas.

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*Brute quer dizer idiota, burgo significa cidade, então o título fica algo como “cidade dos idiotas”.

O Escarro de Deus

quinta-feira, janeiro 8th, 2009

Are you a star or are you all of them?

Este é o segundo poema sobre o Todo-Poderoso que coloco aqui no blog, então, se escrever humanizando Deus for algum pecado, mando um cartão-postal do Purgatório pra todos vocês.

Essa, assim como “A Chaleira Divina“, é uma das poesias que fiz junto com o Jun. Só está aqui a minha parte do texto. Eu gosto de falar sobre cometas, estrelas, planetas e afins. Ainda tô pensando se coloco ou não “Walter Matthau” aqui (sim, isso é um título, não o nome do meu cachorro), mas acho que vou esperar um pouco. Chega de espaço por enquanto.

Enjoy!

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O Escarro de Deus

E Ele tossiu outra vez,
esparramando pelo Universo
um outro escarro celeste,

daqueles desavergonhados,
que ora brilham, ora esmaecem,
como a cauda de uma estrela cadente,

como o nascer e o pôr do Sol
no horizonte da Terra,
onde seus cometas vão pousar.

Supernova

quinta-feira, janeiro 8th, 2009

Supernova

Não procure entender. Supernova não tem absolutamente nada a ver com compreender ou seguir uma linha de raciocínio lógica enquanto se lê. É mais sobre sentir as palavras desgrudando do papel (ou da tela) e te envolvendo, e imaginar tudo aquilo que elas te dizeem; permitir-se viajar, voar para além do que é normal e certo, e acreditar no mundo além do raiar das grandes estrelas.

É tudo sobre esperança, eu já falei isso. E Supernova não foge à regra, mas acrescenta novas possibilidades (e outros horizontes) àquilo em que você acredita.

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As ovelhas berram fora de casa. Deve ser uma nova sinfonia caprina sendo ensaiada, retificada pela mãe-carneiro e orquestrada pelo pai. O som irrita, mas, com o passar do tempo, se torna familiar, e assim deixa de perturbar. É como se mil manhãs raiassem e fossem embora em um segundo apenas (e como se no outro segundo tudo começasse outra vez). E é como se parte do céu despencasse sobre o teto de madeira da casa e ressoasse pelo horizonte a voz irada de Deus, que grita: “mais barbantes! mais barbantes!”.

Quando as ovelhas cessam seus berros e tudo fica silencioso outra vez, como deveria ser, é possível ouvir o barulho de todas as crianças que nascem mundo afora naquele exato instante. Vem abafado, assim como o som do mar ouvido dentro de uma concha, mas mesmo assim vem. Não falha. Nauseia a alma escutar os berros dos pequenos homens no lugar do das velhas ovelhas, mas, da mesma maneira que o dos enovelados animais cessa, também o dos pequenos se vai, e tudo se torna nada outra vez.

(mais…)

Cinco Dedicatórias (Parte I)

segunda-feira, dezembro 29th, 2008

A Árvore da Vida

Cinco Dedicatórias
Primeira Dedicação
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Dedicar, ainda que ao nada, uma vida desprezada pelo tempo, estilhaçada pelas horas, feridas com três minutos, um amém e dois raiares de aurora?

O que seria a penitência, entregar os momentos em que se consegue respirar, em que se consegue, mesmo que seja por segundos apenas, colocar a cabeça fora do turbilhão de palavras e luzes que fazem parte disso que chamamos agora?

Quem disse que deveríamos agradecer? Subestimar, enraivecer, criar laços e esculachos com setes santos e um pastor, não seria isso o correto? Quem falou “Deus é fiel”? Quem cantou argumentos sobre uma verdade que nada é, além de surreal utopia?

Quem, pelo menos um dia, se pegou olhando as estrelas e dizendo “Deus abençôe o Big Bang!”?

Quem, um dia ou outro qualquer, rasgou sua dedicatória a quem quer que seja e escreveu em um pedaço de papel: “eu nao agradeço a ninguém, já que eu criei tudo isso”?

Será que alguém, em qualquer ponto do tempo que seja, olhou as luzes do céu e parou para pensar que estava vendo um espelho?

Será que alguém já escreveu dedicatórias, ainda que ao nada, à uma vida desprezada pelo tempo, estilhaçada pelas horas, feridas com três minutos, um amém e dois raiares de aurora?

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Como pode ser facilmente percebido, essa série é formada por cinco (duh!) dedicatórias. Há mais perguntas que respostas nelas, e a intenção é justamente fazer quem está lendo pensar no que está lendo. É uma série legal, mas é provável que não agrade a todos, porquê não são histórias que as dedicatórias contam, elas mexem com algumas questões existenciais para as quais muita gente não dá a mínima. Pena. Mas… fazer o quê?

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