Posts Tagged ‘Escuridão’

Luminus Obscuri: N’Anki vistu A’Harli

terça-feira, setembro 22nd, 2009

Faca de partir raios de Lua em Abril

Esta é uma lenda dos primórdios do planeta Obscuri. Ela encerra o primeiro dos Jogos Textuais. Divirtam-se!

Mwali era o deus criador, ele fornicava com as estrelas, e os astros da constelação da Loba logo geraram seus filhos, Nanki e Ikatki, que desceram à terra em meio a colunas de fogo e fumaça. Quando nasceram o mundo se incendiou com o fogo vindo dos céus e se queimou por inteiro. Mwali, vendo a destruição causada pela chegada das duas crianças, enfureceu-se e desceu de seu trono no monte Harli, a Tenda do Trovão, tomando os filhos pelas mãos e os atirando de volta aos céus.

Quando Nanki e Ikatki chegaram à morada das estrelas deitaram-se com algumas delas e tiveram seus próprios filhos e filhas. Os filhos dos dois vagaram por todo o universo, indo habitar cantos distantes, povoando a escuridão com luzes e cores.

Em Harli, Mwali se sentia só, e tomou para si uma grande vara de madeira e com ela bateu nas montanhas, achatando-as até que virassem superfícies planas, e assim viu pela primeira vez o Sol, que antes se enscondia por detrás dos montes e não vertia sua luz no mundo. Pois Mwali criara tudo o que se vê e o que não se vê, mas o sumo da macaxeira, do qual se fazia o álcool que ele tomava, lhe afetara os nervos e muito do que foi feito ele esqueceu.

(mais…)

Luminus Obscuri (Jogos Textuais – Parte VIII)

domingo, abril 26th, 2009

No topo da montanha mais negra, às voltas com os mais escuros assuntos

Este texto foi escrito com a ajuda inestimável de Bohemian Rhapsody, do Queen.

Invertemos a ordem de postagem dos Jogos Textuais. Agora, meus textos saem aos domingos, e os do Smaily, às quartas.

Acompanhe as partes anteriores deste Jogo Textual postadas no Blackbird e no Expressionando.

Boa leitura, e pode beijar a noiva!

Quando parei de correr meus pés doeram, pontadas agudas que indicavam que meus limites haviam ficado para trás. Havia me excedido. Do topo do monte olhei para baixo, uma selva verde (verde?) de cipós enovelados e folhas reluzentes me cercava por todos os lados. Passara por ela naturalmente, sem me dar conta de para onde estava indo.

É à minha frente, no cume da pequena montanha, que ele está. Seus poros exalam o gás incandescente dos lumini, fios de vapor se condensam ao seu redor e o fazem brilhar. Mas é um brilho distinto de todos os outros, mais fraco, mais gasto, como se o tempo ou o que quer que fosse o tivesse tornado pálido, mas nem assim menos poderoso, menos vívido.

Ele estende a mão e me toca a face. “Frio”, diz. Não compreendo. “Como foi?”, ele pergunta. Meu silêncio e minha dúvida parecem irritá-lo. Sua mão pousa em meu ombro. Algo arde em mim, como se roçasse minha pele, adentrasse os músculos, penetrasse os ossos e chegasse ao espírito. Sinto cócegas na alma.

“Não entendo”, digo a ele. “Sei que não. Talvez a queda o tenha alterado, talvez, quem sabe, jamais possa se lembrar das coisas que fez…”. Não entendo, agora penso apenas comigo. Akin, esse era o nome? Talvez tenha escutado errado. Pergunto-lhe quem é. “Nanki”, diz. Tanto faz, não importa… deuses que há na terra e no céu, sou um perdido. Sou escuro, sujo, fétido, pútrido, e à minha frente há um elo com o passado, um elo com o indizível, que parece saber de mim mais do que eu mesmo sei; e não há como escapar daqui, fui eu mesmo que o segui, dei os passos rumo à sua direção… deuses do céu e da terra, o que é isso? Exclamo.

Ele parece ouvir tudo, perscrutar a minha mente. Ri algumas vezes, outras apenas abre um sorriso e observa meus olhos se moverem, leitosos, da esquerda para a direita. “Ikatki”, me diz, “esse é o nome com o qual nasceu”. “Um deus?”, pergunto. Ele ri gostosamente; suas mãos tocam as minhas e as apertam. “Continua chamuscado, pode-se só olhando para você”, fala. “Mas não foi sempre assim”, eu digo, relembrando a época em que era como os outros. Ele, pacientemente, diz: “Sempre foi”.

“Não”, reajo. Ele me cala com um olhar e fala mais uma vez: “Só porque você brilha por fora, não quer dizer que toda essa luz esteja dentro de você”.

Luminus Obscuri (Jogos Textuais – Parte VI)

quinta-feira, abril 16th, 2009

Brilhe

Acompanhe as partes anteriores deste Jogo Textual postadas no Blackbird e no Expressionando. Boa leitura, e obrigado por todos os peixes!

Ikatki era um deus ou algo assim. Sinceramente não sei dizer o que ele era, jamais dei importância a esse tipo de coisa antes, mas…

A lenda sobre Ikatki dizia que ele havia apagado o globo incandescente (no momento não me recordo muito bem, mas há poucas chances de ter sido um retângulo) que iluminava nosso planeta. Por quê? Porque ele se sentia só. Como é? Também não compreendo. Alguém que se sinta só jamais irá querer ver extinguida a luz, certo? Parece que não para ele.

Talvez Ikatki tenha sido o primeiro dos lumini a andar por aqui; e talvez ele tenha escolhido enegrecer-se e confundir-se com a escuridão para jamais ser notado, para que pudesse continuar sozinho pelo resto de seus infinitos dias, pois assim lhe seria mais prazeroso, seria mais… como posso dizer? Talvez você saiba: quando está sozinho, você tem sede de quê?

Tenho sede de água. Em minha solidão espontânea, desejo apenas água. Sorvo alguns goles do lago que me rodeia. Curioso, não me dei conta, mas estou no meio dele, cercado por águas que tocam minha pele e me fazem sentir imerso numa profusão de mares interiores, ou outras coisas molhadas assim, dos quais não tenho ciência. As estrelas refletem-se na superfície do lago. Chamo estrelas aquilo que não tem nome, os pontos brilhantes acima de mim que nenhum de minha espécie jamais enxergou. Sou privilegiado, sou condenado, sou agraciado, sou podado. Eu sou.

Ikatki me vem à mente mais uma vez. Ele tinha um irmão, não lembro qual o seu nome… talvez Nanki ou Akin, realmente não sei. Nas lendas, Akin tomou para si uma última porção do fogo do grande astro, antes que seu irmão o apagasse, e incendiou-se a si mesmo, tornando-se a única luz desse planeta. Se Ikatki foi, em corpo, o primeiro dos lumini, Nanki foi nossa primeira alma.

Gostaria de saber se as lendas são verdadeiras. Será que as estrelas presenciaram todos esses feitos? Elas sabem? Mas, se não for verdade, o que aconteceu conosco e com o mundo em que vivemos, onde se refugiou o fogo que consumia o vazio escuro que está além do que vemos?

A água escorre pelo meu corpo, as estrelas ainda brilham sobre mim. Eu fecho meus olhos. Ainda posso vê-las.

Luminus Obscuri (Jogos Textuais – Parte II)

quarta-feira, abril 1st, 2009

Luzes, iluminem!

Você pode ler a primeira parte deste conto no Expressionando.

Eu andei pela rua, a chuva caindo sobre o meu rosto. Eu não via. Eu não via. O que pode ser sentido, mas não visto? O toque que eriça meus pelos e queima minha pele é um mero gesto na escuridão, que não é preenchida por nada. Estamos todos apagados, obscurecemos no exato momento em que nos perdemos de nós mesmos.

Eu alterno passos, penso e falo, mas ninguém me ouve, não porque não querem — talvez até seja, mas, mais do que isso, é porque não podem ouvir. O que um homem poderia dizer no escuro para que fosse entendido pelos outros, para que fosse acolhido por eles dentro de si? Aquilo que dizemos sai de nós para habitar ouvidos alheios, para nos fazer vivos e presentes na mente e no corpo das outras pessoas. Quando nos emudecemos, quando sumimos, também desaparecemos dos outros, rumando aos poucos pela estrada da desexistência, sem nenhum destino concreto pelo qual ansiar.

A chuva para. O cheio que paira no ar é de grama molhada recém-cortada. A grama é um conceito, saiba disso. Tudo o que conheço são categorias vazias agrupadas pelo pensamento dentro do crânio. Por que eu digo isso? Porque jamais vi coisa alguma que existisse refulgindo, esmaecendo, tremeluzindo ou fluorescendo por aí sem que, para que fosse revelada, necessitasse da luz pálida, persistentemente pálida, que brota das entranhas dos homens. É deprimente o fato de tudo depender de nós para existir a olhos vistos.

Alguém esbarra em mim enquanto ando. Dá para ver em seu rosto luminoso uma expressão de surpresa surgir, mas ele não se detém por muito tempo e logo continua a caminhar. A mesma cena se repete umas duas ou três vezes. Quanto mais perto estou dos que me rodeiam, mais distante me faço deles. Sou uma lâmpada que deixou de brilhar, uma sombra que se aconchega nas trevas e permanece oculta aos olhares alheios. Não importo… o que me faz concluir que nenhum homem tem importância, apenas as luzes que emanam dele.

O que perdi quando deixei de ser igual aos outros de minha espécie foi mais que a luminescência natural dos lumini: eu me separei dos meus, me afastei da manada, me distanciei de tudo o que conhecia para viver em um lugar que apenas eu compreendo, pois lá apenas eu estou. Vivo enfurnado no meu mundo particular,  às voltas com os assuntos, dúvidas e medos que ainda me restam, já que tudo aquilo que não posso ser está apagado para mim, e aquele que um dia fui se extinguiu dentro deles.

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