Just disarming
domingo, fevereiro 28th, 2010Eu poderia fazer direito as coisas, quero dizer, tratar de tudo como se espera que seja tratado (normalmente, como os outros homens fazem), mas não é assim que ajo. De maneiras diferentes… A gente prossegue melhor quando somos nós mesmos, quando mostramos o que não esperam que mostremos. Surpresas.
Ela foi uma mudança de humor, daquelas bem repentinas, chegada em uma tarde de verão com cara de primavera, ou o contrário. Tudo o que mudou foi o que ela trouxe consigo. Ela me acompanhava, ela me sorria, eu sorria, nós sorríamos, ela para mim, eu para ela. Infinito. O ócio não era para nós, não 24 horas vezes sete dias por semana, caso contrário viveríamos para sempre no escuro de um não-acontecimento (também) infinito. Pelo contrário, havia a ação: chovia constantemente em nossa vida à dois, o que molhava não só nossos corpos e o tempo que passávamos juntos, como também nossos abraços, saias (as dela; não as uso), meias coloridas (essas são minhas também) e o resto. Mas não era tempestade, nem tampouco garoa. O que não consigo entender é a associação que fazem entre chuva, melancolia — também desespero — e catástrofe. Isso não existe, exceto se você não souber direito como se molhar.
Na primavera-verão chuvosa nós continuamente nos recostávamos contra lareiras para nos secarmos, esperando que o calor também desanuviasse os dias molhados, frios, nublados, que antes havia (e agora finalmente sumiam de) dentro de nós. Nesse ínterim de aquecer-se-e-molhar-se encontrávamos tempo para contar segredos um ao outro, que soavam como música para nossos interiores cambiantemente desconfiados. Nem mesmo um espelho permitiria que nos víssemos tão por inteiro como éramos capazes de nos enxergar um no outro. E assim era porque não havia nada entre nós que não fosse mútuo, nem mesmo aquilo que não partilhávamos. É que os segredos que evitávamos contar são, constitucionalmente, o que nos faz querer saber mais do outro.
Constitucionalmente e esteticamente, é claro. Há um certo charme nos mistérios, apesar de eles serem como programas de índio em que nos metemos sem querer, dos quais não conseguimos sair e sem os quais, bem, não saberíamos viver. O programa pode ser ruim, mas ainda assim existe. Como pão de queijo recheado com tomate seco caseiro. Quer coisa pior no mundo? Mas, por mais ruim que eu ache isso ser, seria ainda pior se eu não pudesse achar. As coisas ganham contornos de coisas porque têm liberdade para tê-los. García Márquez uma vez me disse diretamente (por intermédio de um livro) que: “A vida não é mais do que uma contínua sucessão de oportunidades para sobreviver”. Ele estava certo.
E sobreviver é, irrevogavelmente, dentre outras coisas sentar-se numa praça e deixar-se abater por pequenos prazeres, mas pequenos mesmo, aqueles que nos sobrevêm sem motivo algum, inflando nossos corpos e nos fazendo sentir bem. Chá gelado. Café. Lápis de cor. São os meus, quais os seus? Os dela eram viagens, colheitas lunares (levaria muito tempo para explicar o que é), brechós, dormir em redes (comigo, de quando em vez), e mais. Tudo isso aquece mais que lareiras, e nos faz sentir melhor do que realmente somos, embora essa medida de quem somos seja algo surrealmente inexato e empiricamente mentiroso. É só pensar em canecas se quebrando que dá para ter idéia do que estou falando: os cacos que restam no chão, apesar de serem todos a caneca, não têm mais importância alguma para nós. Ser é se manter, mais do que realmente estar.
Apesar de meu humor ter melhorado por causa dela, ainda guardo em mim resquícios de dias passados, ecos dos Smashing Pumpkins e sua Where boys fear to tread tocando, rompendo meus sonhos, como só boa literatura (isso inclui você, Saramago), más mulheres e rinites alérgicas conseguem fazer. Passado, eu sei, que não revisito, mas que é um quesito constante na minha vida. Sempre me questionam: quem você era? A resposta mais certa seria algo como “0.5mm de papel rabiscado com minha própria letra, e própria tinta”, afinal, é de palavras que sempre me fiz. Mas a resposta que esperam de mim é a que tenha o efeito incômodo de 0.66mm perfurando o nostril (ou de uma boa dose de Differin, quando necessário), de uma carta de amor apaziguante ou a de uma pizza de pepperoni servida em um canto qualquer da cidade (recomendo muito fortemente qualquer pizzaria na região da Savassi, onde Belo Horizonte respira). Não sei ser assim, mas vive em mim a vontade de tentar.
Na falta desse efeito-pepperoni, me torno algo entre bom sorvete e sessão ruim de cinema: insuficientemente completo, sem ser completamente insuficiente, sem me tornar o que ela espera (talvez não mais) que eu fatidicamente me torne. Minha constância é de se admirar. Chutes circulares não são capazes de me derrubar, nem mesmo qualquer som que venha de um Amarante ou Morrissey (já de Smashing, sempre sim). É que, depois de muito estudar e por vezes e vezes reprovar, aprendi quem sou, sei quem não sou e evito ser quem querem que eu seja. Nisso, me tornei verdadeiro. É o único caminho que conheço que leva da total anomia até a verdade sobre si mesmo. Tomá-lo foi mais difícil que aprender a dançar qualquer coisa (tango, samba, flamenco), e olhe que tenho sérios problemas com danças, mas foi também melhor, a mesma sensação que se tem quando se chega ao topo de um monte verde, esperando ver o pôr-do-sol, e já é noite. A Lua compensa a viagem.
Imaginariamente eu poderia dizer que o fato de eu ser um homem melhor foi apenas devido a ela, mas não foi. É todo um processo histórico, diria Marx. Ela apenas coroou o momento, chegou em uma época muito estranha da minha vida e consertou as coisas. Trouxe consigo seu cheiro (que tem número, 212, e seu próprio acorde), mais músicas para mim, kickboxing (já me ameaçaram um dia; acho que cumprir a ameaça nunca irão precisar), mais masmorras e mais dragões. É disso que é feita a vida, a minha e a dela, ao menos, porque é disso que gostamos, é o que amamos em nós, e sempre queremos mais (amar, isso e nós). Se procurássemos bem fundo em nossas almas encontraríamos exatamente a mesma coisa: vontade de fazer o momento durar para sempre, tal qual fotos, para que não precisássemos sair dele jamais.
(É que os momentos em que estamos juntos fazem valer todos os outros.)
Em resumo, não acredito ser engano nem metáfora exagerada alguma dizer que a chuva que se abatia sobre nós não era feita de gotas, mas de papéis picados (ou origamis bem trabalhados); que os montes que subimos foram aterrados em pelúcia; que só vemos Lua no céu quando nossas lentes escapam dos olhos, e que o que há lá de verdade é um espaço vazio, sem estrelas, sem sóis, sem satélites: é amplitude, é possibilidade, é um canto onde podemos construir o que queremos. Quero no nosso céu um busto de Tolkien… ou melhor, de Guimarães Rosa, a flutuar — falante, de preferência, para que nos lembre sempre que “Esperar é reconhecer-se incompleto”. Para logo depois eu o completar-lhe a frase, dizendo: “Não, eu não espero mais”.
Se saudade for mesmo ser depois de ter, temo que acabei tendo, e depois sendo, e agora posso prosseguir em paz. Porque finalmente existo.
De resto, basta lustrar o corpo, estar de unhas feitas (nós dois), brincos colocados (um só), estar de desjejum — morango com laranja, café californiano e coisas mais — tomado (ambos) e caneta e papel na mão (um de nós), para que possamos prosseguir nossa viagem juntos. No caso de não estarmos no mesmo lugar todas as vezes, sempre nos permearão as mensagens enviadas de lá pra cá, e cá pra lá; ou, na dúvida do que escrever, há ainda a chance de tomarmos uma condução sobre rodas (2104; agora sei onde é que se pega algo assim) que nos empurre um em direção ao outro. De um modo ou de outro sempre sabemos nos encontrar.
Sempre.
E assim vai terminando a primavera e entrando o verão, trazendo consigo dias laranjas, árvores desfolhadas, calor táctil, como se Deus (ou Richard Dawkins) ligasse uma versão macro-existencial de Corel X4 e brincasse de mudar o que é o mundo. Por favor, o que quer que faça, Deus, deixe intactos o orgulho de quem é esquisito (e as coisas das quais eles gostam), meu vizinho, Totoro, tudo o que vier da Alemanha (exceto coisas de 1928 à 1945; dê preferência aos pubs), livrarias e culturas, e a finlandesa-não-japonesa Nokia. Não sei exatamente por que, mas faça. Apenas faça.
Enquanto isso, daqui continuarei observando. Daqui continuarei crendo. Daqui continuo sendo (o que ela deve ter e eu sei ser, sendo dela).
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