Posts Tagged ‘conto’

Até o chão

terça-feira, agosto 4th, 2009

Muros... simEu estou com medo de ser chamado de louco, mas se sou ou não não faz diferença. Eu não ligo. Não tanto. Não todas às vezes. Não importa o que digam, eu sempre saberei quem sou. É isso o que importa, não é? É o que todos esperam uns dos outros, porque se não, queridos, se a gente não souber quem é, então estaremos perdidos. Do contrário, quem vai saber? Quem vai se dar conta? Ninguém conhece os outros, ninguém para pra prestar atenção nos outros, e mesmo quando acham que sabem demais, bem, eles só estão sendo estúpidos.

Eu odeio quase todo o mundo. E também tenho medo de ser chamado de louco por ele. Não sei se é saudável me sentir assim, realmente não sei, mas não posso estar de outro jeito. Eu quero morrer. Eu quero. Eu quero ver cada parte de mim acabar, virar pó, se levantar como fumaça, rodopiar — umas espiraizinhas poeirentas e encardidas — e depois desaparecer. Eu quero, mas quem sabe isso de mim? Estou falando, falando e falando e tudo o que escuto é o eco abafado da minha voz esganiçada. Ninguém presta atenção de verdade: fantoches, só balançam a cabeça e parecem concordar sorridentes. Eu estou morto por dentro. Não há mais dentro, não há mais fora. Eu sei lá onde começo e onde termino, a única coisa de que tenho certeza é que estou contaminado.

Alguém jogou qualquer porcaria em mim, tenho certeza. Algum vagabundo mimado despejou merda em cima de mim. Eu sei lá se é merda, só falo essas coisas pra me chocar um pouquinho. Eu sou comportado, mas nem tanto. Nem sempre. Às vezes passo dos limites, vocês sabem? Uma vez cresci muito e me cortaram. Ou algo assim. Não sei ao certo, mas estou menor. Há algumas partes de mim faltando, vocês veem? Não, claro que não. Será que ainda tinha alguma esperança? Bem, não, mas a gente sempre acaba se apegando a qualquer coisa que vê pela frente. Um dia vi um cachorro. Eu queria ter um cachorro, eu queria amá-lo, e eu podia fazer isso. Ele mijou em mim. (mais…)

Too old, too far

quarta-feira, junho 10th, 2009

Echoes

“Nossas vidas foram consumidas há muito tempo atrás”, ele disse. “Na época, eu ainda era jovem e havia qualquer coisa de saudável em mim; as coisas eram fáceis, não havia feitos impossíveis para quem acreditasse ser capaz de tudo e o futuro ainda existia como um sonho dourado distante, mas existente para todos nós, ao qual inevitavelmente chegaríamos ao final da jornada. No momento em que conheci Kari, ela não passou para mim de uma forma nebulosa e apagada, perdida em algum ponto sem importância da Terra, distante demais, alheia demais ao meu mundo para que o fato de a ter conhecido despertasse surpresa ou admiração excessiva.

“Ela usava um vestido creme, provavelmente, ou talvez camiseta e jeans, ou mesmo não usava nada, vai saber… eu não a vi para poder dizer como ela era, não escutei sua voz para compará-la à de alguma estrela de cinema, não senti seu cheiro para que exclamasse ‘Deus, como cheira a jasmim!”. Sei lá se cheirava a alguma coisa. Meu nariz, assim como meus olhos, ouvidos e mente, estava tapado para tudo o que não era eu — ou não era meu. E se ela trabalhava, se estudava, se não existia, para mim não faria diferença alguma naquela hora. E, de fato, não fez. Foi só tempos depois, muito tempo depois, que eu passei a me perguntar quem ela era, como era seu rosto, como se vestia, como andava, como falava; e também do que falava, do que gostava. Foi só anos depois que eu me senti incomodado por não saber o que, dentre tudo o que há no mundo, ela mais amava.

“E, nesse momento, quando me dei conta de que Kari se tornara insubstituível, foi só nesse momento que me dei conta de que, na verdade, eu a havia amado desde quando a conheci, mas nunca me permitira saber disso. Pois bem, foi tudo em vão. Não há nada mais a ser feito a respeito, apenas posso contar a história, passá-la adiante, sem saber exatamente porque o faço. Agora que meu câncer foi diagnosticado e eu sei o que me espera, assim como também sei aquilo que irei levar desse mundo, entendo que Kari — talvez nem mesmo a lembrança de Kari — irá comigo.”

“Não vejo como suas vidas foram consumidas”, eu disse. “Ah, isso foi quando a vi pela primeira vez, atrás do balcão da loja de botões. Na época, eu ainda era jovem e havia qualquer coisa de saudável em mim; as coisas eram fáceis, não havia feitos impossíveis para quem acreditasse ser capaz de tudo e o futuro ainda existia como um sonho dourado distante, mas existente para todos nós, ao qual inevitavelmente chegaríamos ao final da jornada.” “Você já disse isso”, interrompi. “Sim, eu sei, mas é aí que está a coisa toda, você vê?” Mas eu não via. Ele riu. “Não há mais futuro para nós dois, somos criaturas que existem apenas no passado, uma viva, a outra morta”, ele disse com paciência. “Nosso único futuro era o presente que poderíamos ter vivido juntos, mas que jamais veio.”

“Está errado”, eu disse. Ele me perguntou porquê. Respondi: “Quando se ama de verdade, velho amigo, não existe tempo perdido que não possa ser trazido de volta. O ontem, o amanhã e o hoje se tornam uma única coisa: são apenas outro momento em que sempre poderemos nos amar mais uma vez.”

Uma visão e um sonho

quarta-feira, maio 6th, 2009

Sonhe e veja

Este conto foi escrito hoje. No começo só tinha a frase inicial, “Normalmente eu não saberia dizer como essas coisas aconteceream”. A história surgiu espontaneamente, conforme eu ia escrevendo. É um texto grande, o primeiro conto longo que termino desde 2004 (ou algo assim), pra falar a verdade. Isaac Bashevis Singer me motivou a escrever isso :)

Normalmente eu não saberia dizer como essas coisas aconteceram — tudo se deu demasiadamente rápido. Um ou outro algo eu consegui compreender à época, mas o passar dos anos acabou fazendo com que me esquecesse até mesmo de algumas dessas únicas lembranças. É engraçado que ainda consiga contar alguma coisa.

Trabalhava em um jornal, para o qual escrevia contos duas vezes por semana. Meu editor, Art Blintze, sempre dizia que “o mundo precisava de histórias”. Naquele tempo eu ainda escrevia sobre demônios interiores e coisas assim. Os curtos cinco meses que passei na faculdade de psicologia, até quando da morte de minha mãe, haviam me convencido de que já estava apto a vender aos outros filosofias sobre eles mesmos.

Numa terça-feira à tarde fui ao jornal resolver um problema com um dos cheques de pagamento do mês e me encontrei com Art Blintze. Sua cara redonda, rodeada de tufos de cabelo amarelo, estava apreensiva e angustiada. Quando entrei em sua sala ele me deu um longo abraço e foi logo dizendo:

“Você… olha, acho que fiz uma bobagem, uma grande bobagem!”

(mais…)

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