Posts Tagged ‘Calor’

O eu contratado (pt. I)

domingo, setembro 20th, 2009

Às armas!

Em apenas poucas partes de conto (ele está sendo escrito ao mesmo tempo em que postado aqui) vocês vão saber o que merece viver e o que merece morrer. Boa leitura :)

Hoje eu acordei benevolente, mas nem tanto, então não crie expectativas pelo fato de eu estar melhor hoje do que estava ontem. É só que minhas vontades (quase todas; não todas) passaram e agora fico aqui sentado em estado de alfa, parado, alheio, relapso em relação ao tempo e às coisas que tenho de fazer. Porque minhas vontades passaram, já disse.  Então, bem, eu não quero fazer mais as coisas que me mandam fazer para viver, mesmo que esteja fora de questão questionar isso, e argumentar com quem quer que seja sobre o que eu deveria ou não estar fazendo da vida (e com a vida) também não é uma opção.

Ouça bem e você vai entender, porque sei que não captou nada e, como sei disso, tenho que me fazer explicar. Se você tivesse entendido desde cedo eu não precisaria perder meu tempo falando mais, mas, não, vocês têm que ser absurdamente inúteis quando o assunto é a compreensão. O que estou dizendo agora é que tenho um trabalho que não quero fazer. Não para sempre, suponho que queira voltar a trabalhar algum dia (na verdade, daqui a alguns dias), mas não agora, porque minhas vontades passaram. E é óbvio que eu sei que já disse isso, mas enfia essa merda de repetição que você tá criticando onde sentir que ela vai se encaixar melhor e me deixa falar.

(mais…)

Luminus Obscuri (Jogos Textuais – Parte IV)

quarta-feira, abril 8th, 2009
Me desculpe, mas você não está preparado para ser quem é

Você pode ler a primeira e a terceira parte deste conto no Expressionando.

Um borrão atravessou a rua, alcançou a calçada do outro lado. Estava frio. Que engraçado, faz frio aqui. Sempre fez?

Trombava com as pessoas, resvalava seus braços, nossas pernas se tocavam, éramos corpos móveis que se cruzavam no espaço infinito do vazio de uma ausência não notada. Divago. Seguia devagar, sem pressa, apenas pensando, o dedo tocando o nariz, remexendo-o. Estranho, eu posso fazer minhas próprias coisas, não mais sigo o que os olhos dos outros apontam, nem seus olhares apontam para mim.

Topei com uma senhora esperando um táxi. Seu curpo nu e brilhante à minha frente me despertou desejos. Quis acariciá-la, podia fazê-lo, ninguém jamais saberia que fui eu, nenhuma forma era distinguível em mim, apenas os contornos da escuridão… e nada mais. Desejei seus seios. Senti um perfume quente vaporizando-se no ar ao redor dela. Sua boca era pálida. Ela carregava uma bolsa, aberta, como se não houvesse perigo algum. Mas não havia, não é?

Desisti de fazer algo. Roubei um cigarro de dentro da bolsa e o acendi com o corpo da mulher. Fagulhas de luz e calor deram vida ao cilindro de papel que me apressava a vida e nicotinava o meu interior. O brilho vermelho da ponta do cigarro iluminava minha face. Deparei-me comigo mesmo na vitrine espelhada de uma loja. Era como um espírito ruim de nossas antigas crenças, um vjibuk que almoçava crianças ou um tratki que abusava das senhoras desprevenidas. Eu…

Joguei o cigarro na calçada, não o queria mais. Continuei andando até chegar ao meu destino, até avistar as portas entreabertas da clínica. Entrei e anunciei meu nome — as recepcionistas tiveram medo da voz do invisível. Ri e expliquei minha situação. O medo aumentou. Estúpidas, pensei. Quis sumir, adentrar uma floresta e me perder em meio a árvores, lama, animais e riachos. Quis ser selvagem, porque não faria diferença ser ou não: não posso escolher o que querem que eu seja.

Me encaminharam à uma sala de espera escura. Tudo é escuro, a propósito, não sei porque pontuo essas observações. Aguardei minha hora e me chamaram para o consultório. Sentei-me no divã, esperei por instruções, comecei a falar sobre minha trajetória do hospital até aqui. É só isso, não há mais nada.

E agora, o que vem depois?

“A sessão terminou.”

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