Posts Tagged ‘almas’

Uma conversa na noite

segunda-feira, março 8th, 2010

Deus é o narrador. Única informação necessária.

Andava acabrunhado e nada parecia poder me divertir. Se antes viagens e jogos bastavam, agora nem mesmo serviam para me tirar do estado nauseabundo de marasmo e inquietude de corpo (que de modo algum significava inquietude de alma) em que vivia.

Por um longo tempo deixei-me ficar quieto e imóvel entre anéis de gelo que rodeavam planetas distantes dos pedaços conhecidos do Universo, aqueles próximos de onde há vida. Se fosse possível falar disso, diria que a idade havia se abatido sobre mim, me derrubado e largado esquecido onde não saberiam nunca que eu estava. Me cansara de tudo o que há e, por isso mesmo, evitava outras formas e espíritos, que só carregam consigo mais cansaço, embora  neles ele sempre estivesse contido e concentrado em partes bastantes específicas de seus corpos: as pernas e braços, em quem tem carne, e no mais exterior dos espíritos, em quem não a tem.

Cheguei à conclusão de que a época em que tudo seria um fardo insuportável de se carregar havia chegado, ao menos para mim, mesmo não conseguindo explicar como ela poderia me atingir. Mas o fato que quero narrar não é o da minha imobilidade, mas o do meu retorno para perto de onde pulsa a existência e acontecem os ocorridos. Pois, estando o planeta em cujos anéis eu descasava alinhando-se com a Terra mortal, me sobreveio a vontade de voltar os olhos a ela, e assim fiz. Eles pousaram sobre um povoado, onde já era noite.

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Sangue no muro das almas divididas

terça-feira, abril 28th, 2009

How do you mind a broken soul?Pare com os gritos,
as guerras, os mitos,
abra seus olhos, veja
o mundo restrito,
escondido atrás do muro
dos sonhos infinitos.

Você consegue ouvir
os sons do passado?
Eles contam a glória
de homens sepultados,
bom seria se hoje
estivessem ao seu lado.

Há sangue no muro
das almas divididas,
escorrendo das falanges
dos espíritos abatidos.
Quanto mais poderá
uma alma sangrar?

Mãos recolhidas,
palavras contidas,
por que esconder
o que se deve ver?
Abra os olhos,
não há nada a temer.

O que é real, é real,
o que é fé, é fé,
não há nada no mundo
que não seja o que é,
nenhuma coisa especial
além do que é real.

Aquilo em que acredita
faz o que você é por dentro:
uma esperança, uma lenda,
um homem que não se renda.
Quem saberá dizer
o que você vai se deixar ser?

Sangue no muro, palavras escritas
com letras vermelhas
que jamais serão ditas.
Para que falar, se é melhor fazer?
O futuro é escarlate
para eu e você.

Terminam as almas
como tijolos no muro,
argamassa que tampa os furos,
esconde a luz, conjura o escuro.
No horizonte perdido o sol ilumina
a muralha vermelha, nossa mútua sina.

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