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A alma arde em fogo

quinta-feira, outubro 8th, 2009

O rioA alma arde em fogo num brilho impossível de verdades desiguais que a consomem e riscam e penetram até seu fim o núcleo final a verdade única que se lhe é possível o poder máximo do espírito a parte dura do ser: não saber. As vírgulas se perderam, pequenos sinais feitos para parar o fluxo da plenitude do texto, meu, não faz sentido parar. Não faz sentido limitar. A obra acompanha o homem, é o homem, o acorrentado faz jorrar correntes das mãos, o livre, vazio, dado vazio ser liberdade, dado o vazio ser pleno por não ter forma. A plenitude é ausência.

Sabe, dá-me a mão, querida, e senta-te comigo à beira do córrego, donde veremos peixes pequenos e feitos de ouro nadarem em torno ao redemoinho. Dá-me agora o braço. Dá-me o tronco. Pois, a cabeça. Quero tudo. Seja tudo. Abandone o que é e venha estar comigo à beira do caminho. Por favor. Mas não, ser não é poder, não se pode ser, meu bem, minha cara, matei um homem ontem à noite, podes ainda me amar? Se não, bem bom assim ser, poderei continuar sem saber se a não-morte, o apego à essa vida imberbe, traria-me você. Não me faça pensar nisso, amor, porque matei um homem e o sangue ainda é fresco na moleira da noite. Ela conhece, ela viu, dizer quem foi diria, se lhe perguntassem.

Mas quem pergunta?

Vê os peixes nadarem? Sim. Nadam porque têm esperança de chegar a um fim seguindo a corrente, mas deságuam no mar, e o que há lá senão mais espaço a preencher, jamais preenchido, que jamais pleno será? Sem que isso signifique, por favor, que o peixe não encontrará seu caminho. Jamais irá achá-lo, mas não por isso. A água guia-te, sei que sabes, mas jamais encontras fim porque não estás preparada para ele, jamais assossega teu coração porque não quer sossegá-lo. Se não é de tua vontade, porque desejar parar?

Querida, oiça, quando cantam os pássaros sabem as gentes avisadas que é chegado o momento de despedir-se. Vieste até aqui comigo, à beira, mas não contigo mais quero estar nessas margens se não puder mergulhar no abismo profundo e mareado do ser. Tornas-te importante por ser uma ausência que sinto. Tornas-te ausência por eu ausentar-me de mim e, com a alma em fogos, ir visitar-te para que não se sintas só. Pois não sabes, mas tão mais és importante a mim tu que eu que não me parece necessário estar aqui para viver. Antes eu aí e contigo, antes eu abraçando-te, mesmo pondo-me a abraçar o vazio, que sozinho estar e não poder tocar-te nem mesmo em meus mais esperançosos sonhos.

Joga-te no rio e desce a nadar com os seres do mar. Jamais contigo vou, pois minha alma está quente demais. Não quero a água secar, não quero a alma apagar. Adeus, querida, e obrigado por todos os peixes.

Luminus Obscuri (Jogos Textuais – Parte VI)

quinta-feira, abril 16th, 2009

Brilhe

Acompanhe as partes anteriores deste Jogo Textual postadas no Blackbird e no Expressionando. Boa leitura, e obrigado por todos os peixes!

Ikatki era um deus ou algo assim. Sinceramente não sei dizer o que ele era, jamais dei importância a esse tipo de coisa antes, mas…

A lenda sobre Ikatki dizia que ele havia apagado o globo incandescente (no momento não me recordo muito bem, mas há poucas chances de ter sido um retângulo) que iluminava nosso planeta. Por quê? Porque ele se sentia só. Como é? Também não compreendo. Alguém que se sinta só jamais irá querer ver extinguida a luz, certo? Parece que não para ele.

Talvez Ikatki tenha sido o primeiro dos lumini a andar por aqui; e talvez ele tenha escolhido enegrecer-se e confundir-se com a escuridão para jamais ser notado, para que pudesse continuar sozinho pelo resto de seus infinitos dias, pois assim lhe seria mais prazeroso, seria mais… como posso dizer? Talvez você saiba: quando está sozinho, você tem sede de quê?

Tenho sede de água. Em minha solidão espontânea, desejo apenas água. Sorvo alguns goles do lago que me rodeia. Curioso, não me dei conta, mas estou no meio dele, cercado por águas que tocam minha pele e me fazem sentir imerso numa profusão de mares interiores, ou outras coisas molhadas assim, dos quais não tenho ciência. As estrelas refletem-se na superfície do lago. Chamo estrelas aquilo que não tem nome, os pontos brilhantes acima de mim que nenhum de minha espécie jamais enxergou. Sou privilegiado, sou condenado, sou agraciado, sou podado. Eu sou.

Ikatki me vem à mente mais uma vez. Ele tinha um irmão, não lembro qual o seu nome… talvez Nanki ou Akin, realmente não sei. Nas lendas, Akin tomou para si uma última porção do fogo do grande astro, antes que seu irmão o apagasse, e incendiou-se a si mesmo, tornando-se a única luz desse planeta. Se Ikatki foi, em corpo, o primeiro dos lumini, Nanki foi nossa primeira alma.

Gostaria de saber se as lendas são verdadeiras. Será que as estrelas presenciaram todos esses feitos? Elas sabem? Mas, se não for verdade, o que aconteceu conosco e com o mundo em que vivemos, onde se refugiou o fogo que consumia o vazio escuro que está além do que vemos?

A água escorre pelo meu corpo, as estrelas ainda brilham sobre mim. Eu fecho meus olhos. Ainda posso vê-las.

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