Ain’t no mountain high enough
fevereiro 18th, 2010Apenas queria um minuto de perfeição que pudesse memorizar, do qual lembraria a vida inteira. Antes pedia ainda mais minutos, horas múltiplas, dias consecutivos de um estado de realidade em que desejava viver eternamente. Não mais. Ao exigir demais da vida percebe-se que ela não está pronta para satisfazer ninguém que não seja ela mesma; aí debanda-se da batalha e esquece-se do que realmente se quer. Porque é assim que tudo fica mais fácil e a perfeição do minuto é de uma vez alcançada: quando se compreende que ela não pode ser contida, nem jamais poderá ser mensurada. Porque não existe.
De nier ce qui est, et d’expliquer ce qui n’est pas
fevereiro 11th, 2010Sim, é rimado. Não, eu não gosto de rimas. Sim, é rimado.
Uma parte de mim rasga o meu eu inteiro, uma parte de mim devora, sem receio, aquilo que sou e cospe os pedaços para que eu os junte e me refaça. Sim, há um monstro crescendo dentro de mim, mas há também um vácuo absoluto e um infinito maior que tudo aquilo que não tem fim. E eu sou assim, eu sou assim.
Não há poesia, canto ou dança que mude quem sei que sou, nem tanto tempo disponível no mundo para que eu saiba se as escolhas que fiz são apenas outro tormento, ou outro alento, por não conseguir enxergar para onde vou. Mas não me importo. Hoje perdi todas as coisas que os homens consideram importantes, mas nenhuma delas é assim tão faltante, nem provoca desespero por eu não saber seu paradeiro. Eu apenas confio no instante, apenas me movo sem rompante. E eu sou assim, eu sou assim.
Uma parte de mim é feita de dúvida, a outra de absoluta certeza. Uma parte é escuro, a outra é clareza. E não há nada em mim que difira dos outros, não há roupa, modo ou idéia só minha, nada que antes não tinha, nada quem um dia vou ter. Quando olho para dentro de mim é apenas um fio de vontade o que encontro. E eu sou assim, eu sou assim.
Escada lateral
fevereiro 10th, 2010Na noite fria em que a escuridão tomou
o nó da terceira rua do bar eu vi,
sem que pudesse jamais esquecer,
o vulto que se ergueu do nada, de
entre os muros, de entre as outras ruas,
subir as escadas do último hotel (da rua),
onde, a esperar, a suspeitar de tudo,
eu aguardava com armas em punho, pólvora
mascada a arenar meus bolsos e fumo e
cigarros e cachimbos espalhados pelo corpo.
Eu tragava, eu desaparecia em fumaça, eu
não era nada que se pudesse ver e, entretanto,
somente eu, naquele quarto, poderia fazer algo
que interrompesse o vulto, que com ele acabasse,
algo como o que não fiz. Porque os que esperam na noite
pelas formas que nela se arrastam,
pelas sombras que as formam,
pela escuridão que desprega os dias dos céus,
são aqueles que vivem no oscuro,
no crepúsculo da sanidade,
encimados no pináculo do medo,
sussurrando, sem saber que ninguém os escuta,
que há um vulto lá fora a entrar no quarto do hotel
e que quer matá-lo, ou tentar, somente.
Esse era eu, o que aguardava. E aquele era ele,
o que vinha até mim para me consumir a vida.
E então foi que percebi, como nunca havia
percebido antes, que nada do que eu dizia,
ou pensava, ou acreditava,
era de todo uma verdade.
Eu só estava bêbado. E só.
E, sabendo disso,
guardei as armas que carregava,
apaguei os fumos, limpei os cachimbos
e tombei na cama fedida do hotel, sem esperar
que alguém viesse tirar satisfações dos crimes
que um dia havia cometido.
Porque o que os bêbados não temem
os sãos não farão em vão.
Um traço de claridade
fevereiro 8th, 2010“Alguém já machucou você?”, ele me perguntou. Eu disse: “Estranho… tenho que te contar uma história”.
Então estávamos, de súbito, de volta à março de 1983, quando eu era jovem, bem jovem. Era início de primavera e todo o Universo estava laranja como tangerina. As ruas brotavam de entre pétalas de flores, e o ar da cidade carregava o cheiro que tem o ar de março, que é igual ao cheiro do ar de setembro. O ar não tem cheiro, não sei de onde surgiu essa bobagem.
Eu era pessimista, como todo adulto deve ser, mas também intransigente, como os adolescentes são. Dali a alguns meses faria 21 anos, completando o rito de passagem que me levaria rumo ao mundo sênior dos colarinhos brancos, ações na bolsa e esposas traídas. E baseball com os filhos nos domingos à tarde. Eu estava inegável e irrevogavelmente crescendo, e nisso residia um grande problema; porque Peter Pan não precisou crescer, mas eu sim, e isso eu não podia perdoar: terem vendido ao menino que eu era aos 8 ou 9 anos o sonho de viver em uma ilha distante, voando pelos céus e combatendo piratas, sonho esse que nunca se realizou. Por que Peter Pan pôde, e eu não?
Sem saber
fevereiro 3rd, 2010Tão confusos andamos, sem saber quem somos;
no campo da mente caminhamos,
achando encontrar a rua nos sonhos,
sonhando ter caminho a achar, enquanto,
e de tal forma sem sabermos como,
nos pomos (e somos) aquilo que
queremos crer não ser. E só.
Nenhuma esperança existe para
quem espera vê-la esperando
à beira da grama do rio da mente,
enquanto, descrente, aguarda,
sem saber que em si guarda
toda a certeza latente, tudo
o que só existe no momento iminente
de uma verdade (ou apenas crença)
que se compartilha com mais de um ouvido
e mais de uma mão, sem que nem se toquem,
sem que se levantem no espaço
para riscar o ar e arriscar falar:
que a confusão de andarmos sem sabermos ser
é só uma contusão na alma, quando ela não sabe
amar.
Texto de 28/11/09. Essa foi a primeira poesia que escrevi em muito tempo; a primeira que fiz depois que conheci a Clara. À época eu havia me dado conta de que estava começando a amar de novo, o que fez com que eu abandonasse boa parte das confusões e dúvidas que sempre haviam me acompanhado. Não há mais contusões em mim. True story.
:)
janeiro 22nd, 2010
Méh.
Nada realmente importa
janeiro 11th, 2010Sim, ela costumava ser uma pessoa triste. Costumava pensar, como os que pensam, que futuro se faz de passado e presente, nunca (ou nem sempre) do que vem sem que se espere que venha, das novidades que arremessam-se contra a cotidianidade das coisas e a sua ordem e mudam também o que temos por nosso, ainda que isso seja, bem… aquilo que costuma fazer de nós as pessoas tristes que somos. Tanto era assim que, certo dia, o café coado por ela saiu com borra, o que pouca importância tinha para os poderes que regem o Universo, é claro, mas significava tudo, significava um universo inteiro de mudanças, para quem ela era. Surtou nesse dia e em todos os outros também, como acontece com aqueles que se desfazem quando a calmaria é interrompida pelas atribulações das pequenas coisas, e de novo, de novo, e de novo tomam contato com uma parte de si que se mantém à espreita do eu que são, aguardando a menor demonstração de fraqueza, de descontinuidade, para atacar, para (sem que nem mesmo haja esperança alguma de sucesso) tomar conta de um todo humano que não faz sentido para si mesmo, que não é sentido por si mesmo, que não está nem aí para o que dizem de si, não por ser magnânimo, nem por ser surdo, mas por ter o café saído com borra e as certezas da Existência se misturado com pó, enquanto deveriam ser líquidas e cristalinas, não turvas e empoeiradas como todo o resto que é e não é humano, que é e não é certeza, que é de novo, e de novo, e de novo o costume ao qual se acostumam as pessoas tristes que nos acostumamos ser.
O último texto que escrevi no ano passado, no dia 31/12. Só cheguei a terminá-lo esse ano. Era para ser um conto longo, mas escrevi um mini-conto em vez disso. Achei melhor.
O título foi retirado da letra de Bohemian Rhapsody, do Queen.
Apoteose & Epifania
janeiro 11th, 2010Mover
dezembro 30th, 2009Mova-se. Não há nada pior do que parar, deixar de fazer o que se quer, se esquecer, não crer, crer desacreditando, não ter o que se quer, nem querer o que se tem, veja bem, porque tudo na vida é um não-terminável período entre períodos, parênteses que se abrem bem no meio de outros parênteses, onde deveria haver pontos finais, mas não há, e só há vírgulas, ou nem isso, ou, talvez, uma outra forma de pontuar a desigualdade dos dias e a não-linearidade da nossa existência, o consumo desenfreado de ar pelos nossos pulmões que (inflando-se e desinflando-se) nos mantêm vivos, mas às custas da nossa própria morte, do esforço, porque se morre por esforço, falta de força, de vontade, de importância, pelo dissenso da continuidade, medo, perdas, morremos quando temos o que desejamos e desejamos o que temos, mas, não sabendo ter, sonhamos um dia termos ter de não querer ter o que não sabemos manter dentro do nosso próprio eu, assim como com o nosso próprio fim, e quem sabe isso também seja como uma esperança de continuidade diante da imobilidade de nós, das nossas fraquezas, e o problema que reside em pararmos é que não sabemos mover-nos em direção a nós mesmos, o que nos leva a pensar que, se sem rumo, mais vale prosseguir até que o “se” se torne “ser” que deixar de ir por não saber partir. Mova-se, apenas.






