Sem saber

fevereiro 3rd, 2010

Tão confusos andamos, sem saber quem somos;
no campo da mente caminhamos,
achando encontrar a rua nos sonhos,
sonhando ter caminho a achar, enquanto,
e de tal forma sem sabermos como,
nos pomos (e somos) aquilo que
queremos crer não ser. E só.
Nenhuma esperança existe para
quem espera vê-la esperando
à beira da grama do rio da mente,
enquanto, descrente, aguarda,
sem saber que em si guarda
toda a certeza latente, tudo
o que só existe no momento iminente
de uma verdade (ou apenas crença)
que se compartilha com mais de um ouvido
e mais de uma mão, sem que nem se toquem,
sem que se levantem no espaço
para riscar o ar e arriscar falar:
que a confusão de andarmos sem sabermos ser
é só uma contusão na alma, quando ela não sabe
amar.

Texto de 28/11/09. Essa foi a primeira poesia que escrevi em muito tempo; a primeira que fiz depois que conheci a Clara. À época eu havia me dado conta de que estava começando a amar de novo, o que fez com que eu abandonasse boa parte das confusões e dúvidas que sempre haviam me acompanhado. Não há mais contusões em mim. True story.

:)

janeiro 22nd, 2010

Méh.

Nada realmente importa

janeiro 11th, 2010

Sim, ela costumava ser uma pessoa triste. Costumava pensar, como os que pensam, que futuro se faz de passado e presente, nunca (ou nem sempre) do que vem sem que se espere que venha, das novidades que arremessam-se contra a cotidianidade das coisas e a sua ordem e mudam também o que temos por nosso, ainda que isso seja, bem… aquilo que costuma fazer de nós as pessoas tristes que somos. Tanto era assim que, certo dia, o café coado por ela saiu com borra, o que pouca importância tinha para os poderes que regem o Universo, é claro, mas significava tudo, significava um universo inteiro de mudanças, para quem ela era. Surtou nesse dia e em todos os outros também, como acontece com aqueles que se desfazem quando a calmaria é interrompida pelas atribulações das pequenas coisas, e de novo, de novo, e de novo tomam contato com uma parte de si que se mantém à espreita do eu que são, aguardando a menor demonstração de fraqueza, de descontinuidade, para atacar, para (sem que nem mesmo haja esperança alguma de sucesso) tomar conta de um todo humano que não faz sentido para si mesmo, que não é sentido por si mesmo, que não está nem aí para o que dizem de si, não por ser magnânimo, nem por ser surdo, mas por ter o café saído com borra e as certezas da Existência se misturado com pó, enquanto deveriam ser líquidas e cristalinas, não turvas e empoeiradas como todo o resto que é e não é humano, que é e não é certeza, que é de novo, e de novo, e de novo o costume ao qual se acostumam as pessoas tristes que nos acostumamos ser.

O último texto que escrevi no ano passado, no dia 31/12. Só cheguei a terminá-lo esse ano. Era para ser um conto longo, mas escrevi um mini-conto em vez disso. Achei melhor.

O título foi retirado da letra de Bohemian Rhapsody, do Queen.

Apoteose & Epifania

janeiro 11th, 2010
um milhão de sóis e barulhos
se misturam na mente,
conforme as estrelas passam,
o céu se apaga
e as estrelas caem
e o mundo se move
e a estrelas…
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Mover

dezembro 30th, 2009

Mova-se. Não há nada pior do que parar, deixar de fazer o que se quer, se esquecer, não crer, crer desacreditando, não ter o que se quer, nem querer o que se tem, veja bem, porque tudo na vida é um não-terminável período entre períodos, parênteses que se abrem bem no meio de outros parênteses, onde deveria haver pontos finais, mas não há, e só há vírgulas, ou nem isso, ou, talvez, uma outra forma de pontuar a desigualdade dos dias e a não-linearidade da nossa existência, o consumo desenfreado de ar pelos nossos pulmões que (inflando-se e desinflando-se) nos mantêm vivos, mas às custas da nossa própria morte, do esforço, porque se morre por esforço, falta de força, de vontade, de importância, pelo dissenso da continuidade, medo, perdas, morremos quando temos o que desejamos e desejamos o que temos, mas, não sabendo ter, sonhamos um dia termos ter de não querer ter o que não sabemos manter dentro do nosso próprio eu, assim como com o nosso próprio fim, e quem sabe isso também seja como uma esperança de continuidade diante da imobilidade de nós, das nossas fraquezas, e o problema que reside em pararmos é que não sabemos mover-nos em direção a nós mesmos, o que nos leva a pensar que, se sem rumo, mais vale prosseguir até que o “se” se torne “ser” que deixar de ir por não saber partir. Mova-se, apenas.

Entre encaixes

dezembro 6th, 2009

Brillo: sim

O que eu fazia melhor naquela época era empacotar. De uma forma ou outra, empacotar. Assim em caixas, ou algo do tipo, guardar as coisas. (Tirá-las da superfície e mantê-las ocultas.) Fazemos muito isso. Fazemos muito isso o tempo todo. Meu avô me dizia que o que não se guarda se perde. Talvez ele também tenha querido dizer com isso que tudo o que não se perde está guardado, eu acho, mas não acredito. É o porquê.

Guardar tem dois sentidos, eu já disse: esconder e preservar. Esconder de quem e preservar do quê não sei dizer, mas é assim que a gente faz. E é melhor que seja mesmo, caso contrário sempre agi errado. Se guardar fosse pôr para fora e compartilhar, qual seria a lógica no empacotamento que me persegue? Não faria sentido, eu não faria sentido, logo nada faria. E assim chegamos ao como.

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É claro, eu sei

novembro 28th, 2009

Um dia eu escrevi

então é isso,
uma palavra apenas
e some
toda a certeza,
mas reaparece
toda a vontade
de ser alguém
que não se ame apenas,
mas seja para os outros
amarem.
para um deles só,
por favor.
não se pede favores demais
a nenhum tipo de amor.

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Protegido: Capítulo sem nome

novembro 24th, 2009

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A guerra se viu

novembro 14th, 2009

Balas, corvos, areia e névoa

Eu estou aqui, de volta, para escrever o mais ambicioso texto de toda a minha vida. Pausa dramática. Não até agora, não comparado aos muitos que já tenho, mas até aos que ainda vou ter. Pausa pretensiosa. O que vocês vão ler, se lerem, é meu maior vôo, e um dos que mais valerão a pena, saldadas as dívidas, fechadas as contas e somados os sonhos e pesadelos.

Em poucos parágrafos (eu não quero que meus momentos literários durem muito, mas o suficiente, assim como tudo na vida, né?) eu terei de assumir o papel de texto (minha única forma conhecida de imortalidade) e passar a viver para a eternidade como palavras impressas numa tela, numa folha, no relâmpago de memória que trouxer qualquer um de volta a esse momento, à essa hora da noite, 19h30m, simbólica ou não, quando decidi escrever o mais ambicioso texto de toda a minha vida. E ele fala dela com uma propriedade que nem mesmo ela (a minha) possui.

Agora, me odeie.

Corra como o vento, cale-se, é esse o momento, o tempo não importa para os que correm na noite roçando, rolando, caindo, um deslize só, pela grama seca, no despenhadeiro, no desespero, invadindo terrenos alheios, Você grita e eles te ouvem?, eles vêm com forcados, que eu sei, todos, na verdade, desejam nos ver enforcados, nós sabemos, mas não falamos, porque dói demais falar que nos odeiam, que nós odiamos, que passamos, que não seremos, quem não teremos, porque cremos, no fundo, nunca na superfície, que estamos fadados a um incompreensível e vazio destino dado, de nós esvaziado, que não estaremos nele como estamos hoje aqui, e incompreensível diante daquilo que ignoramos conhecer. E então os passos interrompem-se, a queda se vai, os nervos se rompem, calcanhares se partem. Você é Aquiles jamais banhado, pela mãe largado às margens do rio, menino, fugindo da água como qualquer pequeno, não passa de criança, por não querer se tornar puro, por ver no que é mais obscuro a única mão capaz de guiar-te rumo a um desconhecido que inflama a mente e o ventre, mas liberta as asas que nenhum de nós carrega às costas. E você acha que sabe voar, e tenta fazer o que sabe, não é?, porque te ensinaram como saber, disseram o que é que se usa para preencher a vida, os momentos, as alegrias, o que se adquire, as esperanças, e você acredita nisso, e recomeça seus passos correndo atrás do rabo da serpente que deixou traços prateados ziguezagueantes a te mostrarem o rumo de um suposto infinito, e você tem de acreditar no infinito, porque o que não acaba só poder ser bom, porque nunca foi visto, nem dito, e, se é um mito, não pode ser ruim. Que mente criaria um mito assim?, talvez se pergunte, talvez queira parar de correr e escutar os que vêm na direção contrária, esbarrando, roçando, rolando, caindo, de novo, sobre você quando não os vê, mas por que veria, afinal?, se estão contra a corrente que te leva, estão contra o que te empurra, e você urra, é que aqui a vida está acabando, bem onde começa, porque seu parto chegou ao fim e você pariu no mundo uma menina. E a ela repassou sua sina, mulher que vê maravilhas na vida. Agora que a tem nos braços, e não antes disso, é essa a hora em que deveria ter começado a gritar.

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Por céus

novembro 14th, 2009

Floresta de símbolos

“por céus”, você diz,
“você não lutou”.
eu te responderia assim,
ou não diria nada, talvez,
mas, de certo modo,
falaria a mim mesmo:
“que são céus? diabos!”.
e, desse modo, tornaria
a calar e consentir.
e, consentindo,
eu seria assim mesmo,
como fui com os anos,
com o passar do tempo
e dos muitos céus.
ora, diabos, eu só não lutei!
sou um homem quieto,
consumido por larvas
de uma passado insosso.

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