Archive for the ‘Contos’ Category

É melhor o fogo

quarta-feira, março 10th, 2010

“Acerte o Sol mirando a Lua”, meu pai costumava me dizer. “Com a força que você tem, tudo o que lançar em direção a ela vai demorar centenas de milhares de anos para não atingi-la, porque ela não estará mais lá. Mas é provável, é bem provável, se você mirar direito, que o que jogar em direção ao Céu atingirá o Sol, que se esconde atrás da Lua e não sai do seu lugar.” “Uau!”, eu respondia. E então não era preciso meu pai dizer mais nada.

O que eu poderia jogar em direção ao Sol não joguei nunca. Eu não acreditava mais no meu pai quando fiz oito anos, e isso tornou ainda mais longa a distância até o Sol. E maior a força necessária para fazer algo viajar até lá.  E aos oito anos é provável que todos, como aconteceu comigo, percam a esperança de fazer algo grande um dia, porque dão um jeito de tirá-la de nós. O mundo e as possibilidades que havia além da órbita da Terra se fecharam para mim entre um soco e outro nos intervalos da aula, entre a primeira e última crise histérica de minha mãe, religiosamente presentes em todos os dias, e a cada ausência semanal do meu pai. Ele viajou mais aos meus oito anos que meus próprios pensamentos. Ou talvez não. Há uma chance de que eles o tenham acompanhado sempre, e ele os tenha perdido em algum lugar, aí não conseguiram voltar.

Hoje eu não sou tão mais velho do que era naquela época, mas sou mais esperto. Aprendi que a distância até o Sol é longa até mesmo para a luz, o que já me levou a pensar que, quem sabe, no escuro os milhões de quilômetros se encurtam, e que é por isso que à noite vemos as estrelas, e ao dia não, porque elas ficam mais próximas da Terra. Já cheguei a acreditar que havia uma chance de meu pai não estar errado, que os milhões de quilômetros se transformariam em milhares de centímetros nas doze horas mais escuras do dia, e que esticando um galho muito longo eu poderia tocar o Sol. E assar marshmallows nele. E talvez morrer incendiado. A gente se incendeia ou só se queima?

Uma vez me queimei de febre e fiquei de cama por três dias. Outra vez queimei uma das mãos em um ferro quente. Nunca me incendiei, mas todas as vezes em que estive queimado não pude brincar. Um dia, na escola, fui queimado na queimada. Eu era muito ruim. Nunca mais me escolheram pra jogar. Acho que há uma relação entre fogo e felicidade: quanto mais chamuscados estamos, mais infelizes ficamos. Não consigo entender como algo como o Sol queima a si mesmo. Quando eu era menor, uma das coisas que queria atirar nele era um balde d’água, pra ver se o apagava. Meu pai dizia que a água iria evaporar-se quando chegasse perto, e lembro que na época fiz uma experiência que provava que ele estava errado. Peguei uma brasa do tamanho do Sol e mergulhei-a na água. Não evaporou muita coisa. Só mais tarde fui entender que o Sol era maior que a brasa, era maior que o mundo, mas tive medo de juntar brasas do seu tamanho e incendiar a Terra. Porque a Terra, ao contrário dos homens, se incendeia.

Desisti de apagar fogos tão distantes e me concentrei nos que assolavam as florestas. Depois me desinteressei desses também, e só fogos de artifício despertavam minha curiosidade. Disparei alguns secretamente, porque minha mãe havia me proibido de brincar com essas coisas. Tinha medo deles. Tinha medo do que era proibido, medo e admiração. Nunca me proibiram algo que depois eu não tenha feito. Acho que só proibem coisas que não podemos evitar fazer, para depois termos que confessar nossos pecados e nos arrependermos e nos emendarmos. Seja lá o que “emendar-se” quiser dizer. Eu nunca estive quebrado.

De um modo ou de outro, o tempo passou sem que eu tivesse certeza de nada. Olhando para trás vejo que não havia muito a saber, e isso não faz diferença. Ninguém nunca sabe de nada. Meu pai era um mentiroso. Um menino da minha sala fingia saber fazer mágica. Uma garota uma vez disse que gostava de mim. Um cachorro me mordeu. Melhores amigos do homem uma ova! Ninguém nunca sabe de nada! Eu, no entanto, sabia de tudo. Mas disse também que não tinha nenhuma certeza. É verdade. Eu sabia o que não existia e o que era real, quem me amava, quem roubaria meu lanche no recreio, minha cor favorita, que eu não gostava de futebol. Eu sabia, mas tinha certeza? Certamente não. Meus pais – Bruno, o menino da série acima da minha – azul – não suportava nem mesmo a Copa. Mas sempre achei que minha mãe me amava menos, que Bruno só queria ser meu amigo, que branco era, na verdade, mais bonito, e que futebol só podia ser bom, já que todos gostavam. A questão é que nunca temos certeza alguma se nos acertamos segundo os outros.

Se somos todos infelizes eu também não sei. Se sou infeliz não quero saber. É muito cedo. Esse tipo de coisa não deve nos preocupar antes de morrermos, e só pode preocupar-nos depois porque aí já não importa mais. Se sabemos se somos felizes ou não cedo demais nos damos conta de se estamos ou não em chamas. Se somos umas espécie de Sol, ou algo assim. Não quero saber, porque toda vez que me molhasse teria medo de me apagar. Talvez, se fogo for mesmo igual a tristeza, isso seria até bom. Mas até quando? Se o Sol se apagasse, por exemplo, se eu tivesse conseguido jogar água nele, tudo seria escuro, tudo estaria ainda menos distante de tudo, e eu estaria mais próximo de quem não quero estar. É melhor o fogo, que conforta e machuca e ilumina, que faz molhar a cama onde dormimos se brincamos com ele. É melhor o fogo.

Mas as coisas são sempre como acertar o Sol mirando a Lua: vamos ainda mais longe quando não queremos ir, nos apagamos tentando acender-nos e nos acendemos quando estamos apagados. Bem, o que eu queria dizer mesmo era que meu pai estava muito errado, e que cresci acreditando em inacreditáveis, que ainda me assombram. Mas talvez – talvez… – ele estivesse certo. Quem sabe nunca acertamos a Lua porque ela sempre abre passagem para tudo seguir o seu caminho, porque não quer ser alcançada, ou porque não precisa ser? Ou talvez meu pai só tenha errado os cálculos, os quilômetros, o tempo, a velocidade, e nenhum astro seja realmente alcançável por nós. Quem vai saber?

Não sei dizer ao certo, e, como não sei, não digo. Mas um dia também terei um filho e irei falar algo a ele. Não há como prever o que falarei à época, mas se essa época fosse hoje seria “Se incendeie”. Quando perguntasse por que eu responderia: “Se você está em chamas é porque tem algo a queimar”. Me parece bom. Não é preciso atingir Sol algum, nem fazer esssas grandes coisas que parecem ao mesmo tempo tão fáceis e difíceis quando somos pequenos. Nunca, eu sei, fazemos nada melhor que aquilo que fazemos a nós mesmos, e até isso já é muito ruim. Precisamos é organizar (ou não…) o caos dentro de nós para queimarmos todo ele, assim como queimam a si mesmas as estrelas. Algo como finalmente nos acertarmos enquanto miramos a parte escura que há em nós, e que devemos incendiar. Porque é melhor o fogo.

Uma conversa na noite

segunda-feira, março 8th, 2010

Deus é o narrador. Única informação necessária.

Andava acabrunhado e nada parecia poder me divertir. Se antes viagens e jogos bastavam, agora nem mesmo serviam para me tirar do estado nauseabundo de marasmo e inquietude de corpo (que de modo algum significava inquietude de alma) em que vivia.

Por um longo tempo deixei-me ficar quieto e imóvel entre anéis de gelo que rodeavam planetas distantes dos pedaços conhecidos do Universo, aqueles próximos de onde há vida. Se fosse possível falar disso, diria que a idade havia se abatido sobre mim, me derrubado e largado esquecido onde não saberiam nunca que eu estava. Me cansara de tudo o que há e, por isso mesmo, evitava outras formas e espíritos, que só carregam consigo mais cansaço, embora  neles ele sempre estivesse contido e concentrado em partes bastantes específicas de seus corpos: as pernas e braços, em quem tem carne, e no mais exterior dos espíritos, em quem não a tem.

Cheguei à conclusão de que a época em que tudo seria um fardo insuportável de se carregar havia chegado, ao menos para mim, mesmo não conseguindo explicar como ela poderia me atingir. Mas o fato que quero narrar não é o da minha imobilidade, mas o do meu retorno para perto de onde pulsa a existência e acontecem os ocorridos. Pois, estando o planeta em cujos anéis eu descasava alinhando-se com a Terra mortal, me sobreveio a vontade de voltar os olhos a ela, e assim fiz. Eles pousaram sobre um povoado, onde já era noite.

(mais…)

Um traço de claridade

segunda-feira, fevereiro 8th, 2010

“Alguém já machucou você?”, ele me perguntou. Eu disse: “Estranho… tenho que te contar uma história”.

Então estávamos, de súbito, de volta à março de 1983, quando eu era jovem, bem jovem. Era início de primavera e todo o Universo estava laranja como tangerina. As ruas brotavam de entre pétalas de flores, e o ar da cidade carregava o cheiro que tem o ar de março, que é igual ao cheiro do ar de setembro. O ar não tem cheiro, não sei de onde surgiu essa bobagem.

Eu era pessimista, como todo adulto deve ser, mas também intransigente, como os adolescentes são. Dali a alguns meses faria 21 anos, completando o rito de passagem que me levaria rumo ao mundo sênior dos colarinhos brancos, ações na bolsa e esposas traídas. E baseball com os filhos nos domingos à tarde. Eu estava inegável e irrevogavelmente crescendo, e nisso residia um grande problema; porque Peter Pan não precisou crescer, mas eu sim, e isso eu não podia perdoar: terem vendido ao menino que eu era aos 8 ou 9 anos o sonho de viver em uma ilha distante, voando pelos céus e combatendo piratas, sonho esse que nunca se realizou. Por que Peter Pan pôde, e eu não?

(mais…)

Nada realmente importa

segunda-feira, janeiro 11th, 2010

Sim, ela costumava ser uma pessoa triste. Costumava pensar, como os que pensam, que futuro se faz de passado e presente, nunca (ou nem sempre) do que vem sem que se espere que venha, das novidades que arremessam-se contra a cotidianidade das coisas e a sua ordem e mudam também o que temos por nosso, ainda que isso seja, bem… aquilo que costuma fazer de nós as pessoas tristes que somos. Tanto era assim que, certo dia, o café coado por ela saiu com borra, o que pouca importância tinha para os poderes que regem o Universo, é claro, mas significava tudo, significava um universo inteiro de mudanças, para quem ela era. Surtou nesse dia e em todos os outros também, como acontece com aqueles que se desfazem quando a calmaria é interrompida pelas atribulações das pequenas coisas, e de novo, de novo, e de novo tomam contato com uma parte de si que se mantém à espreita do eu que são, aguardando a menor demonstração de fraqueza, de descontinuidade, para atacar, para (sem que nem mesmo haja esperança alguma de sucesso) tomar conta de um todo humano que não faz sentido para si mesmo, que não é sentido por si mesmo, que não está nem aí para o que dizem de si, não por ser magnânimo, nem por ser surdo, mas por ter o café saído com borra e as certezas da Existência se misturado com pó, enquanto deveriam ser líquidas e cristalinas, não turvas e empoeiradas como todo o resto que é e não é humano, que é e não é certeza, que é de novo, e de novo, e de novo o costume ao qual se acostumam as pessoas tristes que nos acostumamos ser.

O último texto que escrevi no ano passado, no dia 31/12. Só cheguei a terminá-lo esse ano. Era para ser um conto longo, mas escrevi um mini-conto em vez disso. Achei melhor.

O título foi retirado da letra de Bohemian Rhapsody, do Queen.

Entre encaixes

domingo, dezembro 6th, 2009

Brillo: sim

O que eu fazia melhor naquela época era empacotar. De uma forma ou outra, empacotar. Assim em caixas, ou algo do tipo, guardar as coisas. (Tirá-las da superfície e mantê-las ocultas.) Fazemos muito isso. Fazemos muito isso o tempo todo. Meu avô me dizia que o que não se guarda se perde. Talvez ele também tenha querido dizer com isso que tudo o que não se perde está guardado, eu acho, mas não acredito. É o porquê.

Guardar tem dois sentidos, eu já disse: esconder e preservar. Esconder de quem e preservar do quê não sei dizer, mas é assim que a gente faz. E é melhor que seja mesmo, caso contrário sempre agi errado. Se guardar fosse pôr para fora e compartilhar, qual seria a lógica no empacotamento que me persegue? Não faria sentido, eu não faria sentido, logo nada faria. E assim chegamos ao como.

(mais…)

A guerra se viu

sábado, novembro 14th, 2009

Balas, corvos, areia e névoa

Eu estou aqui, de volta, para escrever o mais ambicioso texto de toda a minha vida. Pausa dramática. Não até agora, não comparado aos muitos que já tenho, mas até aos que ainda vou ter. Pausa pretensiosa. O que vocês vão ler, se lerem, é meu maior vôo, e um dos que mais valerão a pena, saldadas as dívidas, fechadas as contas e somados os sonhos e pesadelos.

Em poucos parágrafos (eu não quero que meus momentos literários durem muito, mas o suficiente, assim como tudo na vida, né?) eu terei de assumir o papel de texto (minha única forma conhecida de imortalidade) e passar a viver para a eternidade como palavras impressas numa tela, numa folha, no relâmpago de memória que trouxer qualquer um de volta a esse momento, à essa hora da noite, 19h30m, simbólica ou não, quando decidi escrever o mais ambicioso texto de toda a minha vida. E ele fala dela com uma propriedade que nem mesmo ela (a minha) possui.

Agora, me odeie.

Corra como o vento, cale-se, é esse o momento, o tempo não importa para os que correm na noite roçando, rolando, caindo, um deslize só, pela grama seca, no despenhadeiro, no desespero, invadindo terrenos alheios, Você grita e eles te ouvem?, eles vêm com forcados, que eu sei, todos, na verdade, desejam nos ver enforcados, nós sabemos, mas não falamos, porque dói demais falar que nos odeiam, que nós odiamos, que passamos, que não seremos, quem não teremos, porque cremos, no fundo, nunca na superfície, que estamos fadados a um incompreensível e vazio destino dado, de nós esvaziado, que não estaremos nele como estamos hoje aqui, e incompreensível diante daquilo que ignoramos conhecer. E então os passos interrompem-se, a queda se vai, os nervos se rompem, calcanhares se partem. Você é Aquiles jamais banhado, pela mãe largado às margens do rio, menino, fugindo da água como qualquer pequeno, não passa de criança, por não querer se tornar puro, por ver no que é mais obscuro a única mão capaz de guiar-te rumo a um desconhecido que inflama a mente e o ventre, mas liberta as asas que nenhum de nós carrega às costas. E você acha que sabe voar, e tenta fazer o que sabe, não é?, porque te ensinaram como saber, disseram o que é que se usa para preencher a vida, os momentos, as alegrias, o que se adquire, as esperanças, e você acredita nisso, e recomeça seus passos correndo atrás do rabo da serpente que deixou traços prateados ziguezagueantes a te mostrarem o rumo de um suposto infinito, e você tem de acreditar no infinito, porque o que não acaba só poder ser bom, porque nunca foi visto, nem dito, e, se é um mito, não pode ser ruim. Que mente criaria um mito assim?, talvez se pergunte, talvez queira parar de correr e escutar os que vêm na direção contrária, esbarrando, roçando, rolando, caindo, de novo, sobre você quando não os vê, mas por que veria, afinal?, se estão contra a corrente que te leva, estão contra o que te empurra, e você urra, é que aqui a vida está acabando, bem onde começa, porque seu parto chegou ao fim e você pariu no mundo uma menina. E a ela repassou sua sina, mulher que vê maravilhas na vida. Agora que a tem nos braços, e não antes disso, é essa a hora em que deveria ter começado a gritar.

(mais…)

Por que, Cabral

quinta-feira, outubro 8th, 2009

Rá, a graça que há nissoVocê vê brotar a fonte dos desejos mais íntimos dentro de si, que se abre como aguaceiro de chuva e gelo degelando, inundando o chão dos músculos do corpo? Sabe, é tão mais fácil quando conseguimos dar nome às coisas, a isso o que é devido, àquilo o que lhe é de direito. O substantivo da dor é o advérbio preferido do amor. Não sei se me faço compreensível, quisera eu não ser, mas sento-me aqui, Cabral, peço esses três copos de coisa azeda e de gosto obscuro e me ponho a falar, a tombar os ombros, socar a mesa. Queres gritar comigo, Cabral, ou em mim, pergunto, Menino, o quê, questionas, Não sei, Cabral, a noite se abre a mim como as pernas de uma mulher, mas não estou de fora, estou lá dentro, ela quer me fazer sair, Cabral, e não quero sair, Chega de bebidas para você, Mas entenda-me, por favor, responda, entendes, pergunto, Estás bêbado e insone, vá para casa dormir, você diz. Cabral, antes costumavas ser mais luxuriante, que houve contigo? Há poças ali, vê só, poças que alumiam o chão refletindo a luz fresca da lua. Viu, Vi o quê, A luz fresca da lua, achei que tinha pensado nela em altas vozes, mas, Ei, o que vai fazer, você me interpela, Estou parando, De, outra questão, Não sei, mas se é melhor assim, se sinto-me mais solto e bom, é que devo parar, Mas não seria figurativamente apenas, Não sei, a rua é fria, tudo é frio, tudo é lindo, calmo, sereno, bom, ei, Cabral, apague a luz, está muito forte e bate nos olhos. Sei lá eu por quantas horas dormi, nem quem me trouxe aqui (provavelmente você, Cabral, velho), e só posso conjeturar os motivos de meu sangue estar mais doce. À beira da cama há uma janela que me dá para os jardins, donde sereníssimas borboletas e pássaros com piolhos entre as penas (têm mesmo) me observam e parecem cantar Oy, oy, se perdeu. São pássaros judeus, penso eu. Há bar mitzvá para os pássaros? Ou não é dado às aves o direito de viver seus treze anos e um dia nas graças do bom deus? Oy, que dor nas costelas, tem coisa aqui, me meteram ataduras pelo corpo, o que diabos deixaram acontecer comigo? E tem gente ali, olha, na cadeira frente à cama, e parece, senhor, não, Que foi, Mas que tipo de surrealidade é essa, pergunto, Não sei do que falas, Ei, quem é você, Não sei de quem falas, Onde está o Cabral, Ficou lá, Lá onde, Ficou lá. Ai. Ai, dormi de novo. Há morfina correndo aqui, eu sei que tem, só pode haver, nunca me dei bem com as farmacêuticas da vida, os remédios sociais, as drogas que metem-nos mente adentro para suportarmos os outros, a morfinice da sociedade, que parece dizer Tudo está bem quando seu corpo parece agradar aos olhos de quem pode ver e não há dor intermitente entre as quartas e quintas vértebras, nem suas pernas estão cansadas. O quê? Estou delirando e queria saber por que, hein, Cabral? O velho desgraçado que eu não conhecia e sentava-se à beira de minha cama disse que Cabral ficou lá, lá é a rua? Por que ele me traria até aqui e depois voltaria para a zona boêmio-fantasma do rio (mar pequeno e corrido de prédios, vá saber, não cidade)? Cabral, seu, você está tomando aquelas coisas amargas sem mim, tá com o álcool te inflamando, ei, Cabral, volta e me traz amargura pra vida, preciso beber, que será de mim? Tem pirilampos rodeando minha cabeça agora, coisas pipocando, senhor, será o fim? Oy. Mas quem deixou alguém colocar coisas metálicas na minha veia? Nossa, os pirilampos têm asas maiores e estão cuspindo fogo, não tenho tesouro enterrado, saibam, se forem dragões, e não pirilampos, não adianta me assarem, porque gastei tudo naquele bar ontem à noite. Ontem, o quê? Já é outro dia? Quem está me cutucando? Ei, você, pára com isso, não é direito, digo, mas não me escuto dizendo, Não dá mais, Não dá mais, pergunto, Hora da morte, O quê, exclamo, Nove horas e cinquenta e um, Oy. Na sarjeta do mundano-profano-estúpido-sujo, da pureza e do perigo, do círculo da vida, que é quadrado e não circular, graça, me pus a correr. Cabral, onde quer que estejas, tome uma última bebida comigo antes que ao que esteja morto não seja mais permitido viver com os vivos. Mas ainda é? Será que tenho chances de reaver o que não tive em vida tendo partido? Ou já acabou-se tudo e perdi, como jamais desejei perder? Não sei responder, não sei o que é certo, não sei onde estou, se estou, por que vim, como vim, nem tenho certeza de se havia pássaros judeus, velho e os pirilampos, ou se alucinava eu na casa de cura depois de um quase-morrer após aquela noitada, mas pergunto-me, e perguntando-me pergunto a ti, o gêmeo negro da alma branca que fraquejou e partiu-se, Cabral, que coisa de vida é essa que a gente não entende, que nos faz estar longe e, a cada vez que nos aproximamos, nos arremessa rumo ao nada e ao que é real e inútil e dispensável, quando não mais precisa de nós? Tem mistério a saber aí? Por que, Cabral?

Pastiche do Saramago. Sem mais.

As muitas formas do amor (pt. I)

segunda-feira, outubro 5th, 2009

The Don Juan RoseNunca lhe disseram como viver sua vida, o que teria sido de grande ajuda se ele realmente tivesse uma. Em relação ao que fazia os outros permaneciam em um estado perpétuo de falsa contemplação e fingido interesse, apoiando-o sem saberem o que de fato é apoio, instigando-o a buscar o que queria, quando nem ele nem eles sabiam o que era. Prosseguiu assim (trancosa e barrancosamente, digamos) por uma meia-existência, até chegar aos seus trinta mal calculados anos. Quando então parou, tombou para trás e caiu inerte no chão. Se estava morto, não saberia dizer, mesmo porque ainda respirava, e costumam associar, muito enganosamente, respiração à vida.

Porém, tombou. Suposições sobre o fato são: que caiu porque sentiu-se tonto, que a pressão lhe havia baixado, que feriu a cabeça ao cair, provavelmente também os cotovelos, que as costas lhe doíam, etc. Suporia corretamente a alma sábia e iluminada que dissesse: caiu porque se deu conta de uma mentira. Pois é fato concreto, não desmentido e tão oculto quanto certo, que nosso sr. Juan, do qual falamos, deslizou graciosamente pelo arco de cento e oitenta graus que lhe separava do chão porque percebeu finalmente o engano terrível que lhe haviam metido cérebro adentro. E desse engano, do qual não podia fugir e sem o qual não podia dar sentido ao que lhe rodeava, o sr. Juan não queria saber mais nada. Daí o estado letárgico em que permitiu-se entrar.

(mais…)

O que sinto ao tocá-la

sexta-feira, setembro 25th, 2009

Sentir é tocarO que sinto ao tocá-la qualquer homem pode te dizer muito bem, ou pelo menos qualquer homem que já teve meia dúzia de mulheres na vida e soube viver delas e com elas, que soube alongar os momentos bons para além dos limites das horas, que soube dar a elas o que elas quiseram sem esperar nada em troca, porque a mágica não é recíproca, é preciso fechar os olhos e embarcar no jogo sem esperar receber nada a não ser a certeza de que você soube jogar muito bem, amigo. Os prêmios são todos delas, e não importa se você concorda ou não, é assim que é certo, é assim que as coisas devem acontecer. Se te sobrar algo, então muito bom. Se não, entre no jogo outra vez.

Mas, mesmo assim, eu sinto uma vontade louca de te dizer como é, só pra ver se consigo pôr dentro de você algo que não seja essa poeira e o recalque que todos carregam. Escuta bem, amigo, porque não vou repetir o que disser, e se você perder o fio não dou a mínima. Agora escuta, porque tudo começa nos olhos. Quando um encontra o outro o resto do mundo pode desabar que você ainda se manterá inteiro, porque tem um lugar para onde olhar. Você abre, olha, vê, enxerga, penetra, entra e fica lá pelo tempo que for preciso, porque os olhos vão te levar à mente, e é lá que você deve estar antes de tudo. Não importa o que dizem suas cabeças, os olhos sempre guiam ao caminho mais certo.

Então, se você estiver na mente, se estiver lá todo o resto se resolve sozinho. E se ela desvia o olhar não é porque não te quer, é porque não suporta o que você está fazendo com ela. A graça está aí: quando a defesa se quebra e ela olha pro lado e você continua encarando-a e sorri, e ela te olha pelo rabo de olho e sorri também. Você a convida para ir a algum lugar, não convida? Se não, se foda, porque eu convidei e deu certo. Eu chamei e deu certo. Eu me levantei, andei até ela, me apresentei, perguntei seu nome, peguei em sua mão, sussurrei qualquer coisa no seu ouvido e lembro de ter dito: Mais tarde. Mais tarde, sim, aí a gente se vê. Se vê por inteiro, se correr tudo certo.

(mais…)

Luminus Obscuri: N’Anki vistu A’Harli

terça-feira, setembro 22nd, 2009

Faca de partir raios de Lua em Abril

Esta é uma lenda dos primórdios do planeta Obscuri. Ela encerra o primeiro dos Jogos Textuais. Divirtam-se!

Mwali era o deus criador, ele fornicava com as estrelas, e os astros da constelação da Loba logo geraram seus filhos, Nanki e Ikatki, que desceram à terra em meio a colunas de fogo e fumaça. Quando nasceram o mundo se incendiou com o fogo vindo dos céus e se queimou por inteiro. Mwali, vendo a destruição causada pela chegada das duas crianças, enfureceu-se e desceu de seu trono no monte Harli, a Tenda do Trovão, tomando os filhos pelas mãos e os atirando de volta aos céus.

Quando Nanki e Ikatki chegaram à morada das estrelas deitaram-se com algumas delas e tiveram seus próprios filhos e filhas. Os filhos dos dois vagaram por todo o universo, indo habitar cantos distantes, povoando a escuridão com luzes e cores.

Em Harli, Mwali se sentia só, e tomou para si uma grande vara de madeira e com ela bateu nas montanhas, achatando-as até que virassem superfícies planas, e assim viu pela primeira vez o Sol, que antes se enscondia por detrás dos montes e não vertia sua luz no mundo. Pois Mwali criara tudo o que se vê e o que não se vê, mas o sumo da macaxeira, do qual se fazia o álcool que ele tomava, lhe afetara os nervos e muito do que foi feito ele esqueceu.

(mais…)

Get Adobe Flash playerPlugin by wpburn.com wordpress themes