Archive for the ‘Pensamentos’ Category

O silêncio

segunda-feira, março 15th, 2010

De todas as maneiras encontradas pelos homens para se fazerem felizes a que melhor funciona comigo é a não encontrada, aquela que, na verdade, vem de encontro a nós. Durante todo esse tempo preocupei-me excessivamente com o que havia dito, com os que haviam me ouvido, com o que pensavam esses e todos os demais a meu respeito, e com aquilo em que o pensar deles todos me transformava diante dos olhos meus e não meus. Aí me esqueci de viver.  E então  foi que não percebi que falar sem viver, calar sem saber, e viver sem calar e saber e falar, e todas essas coisas, são apenas estados intermitentes entre uma boca fechada e aberta, um semicerrar de lábios, um levantar inadvertido de covinhas ao lado da boca e o arreganhar de dentes que isso pressupõe. E deu-se disso tudo, dessa inconclusão e inaudibilidade de sons, fonemas, palavras esparsas, que jamais pude contar a ninguém que não o tenha ouvido, nem a quem não tenha sido previamente contado (mas não por mim), o que, naquele dia e hora, recordei ter sido dito antes, e com a minha própria voz eu disse: o silêncio.

Isso é um recorte de um conto, que tou guardando para a posteridade. O conto não existe mais, foi desmembrado em partes, já que o achava irrisório. Esse era meu trecho preferido dele.

Mover

quarta-feira, dezembro 30th, 2009

Mova-se. Não há nada pior do que parar, deixar de fazer o que se quer, se esquecer, não crer, crer desacreditando, não ter o que se quer, nem querer o que se tem, veja bem, porque tudo na vida é um não-terminável período entre períodos, parênteses que se abrem bem no meio de outros parênteses, onde deveria haver pontos finais, mas não há, e só há vírgulas, ou nem isso, ou, talvez, uma outra forma de pontuar a desigualdade dos dias e a não-linearidade da nossa existência, o consumo desenfreado de ar pelos nossos pulmões que (inflando-se e desinflando-se) nos mantêm vivos, mas às custas da nossa própria morte, do esforço, porque se morre por esforço, falta de força, de vontade, de importância, pelo dissenso da continuidade, medo, perdas, morremos quando temos o que desejamos e desejamos o que temos, mas, não sabendo ter, sonhamos um dia termos ter de não querer ter o que não sabemos manter dentro do nosso próprio eu, assim como com o nosso próprio fim, e quem sabe isso também seja como uma esperança de continuidade diante da imobilidade de nós, das nossas fraquezas, e o problema que reside em pararmos é que não sabemos mover-nos em direção a nós mesmos, o que nos leva a pensar que, se sem rumo, mais vale prosseguir até que o “se” se torne “ser” que deixar de ir por não saber partir. Mova-se, apenas.

Por que, Cabral

quinta-feira, outubro 8th, 2009

Rá, a graça que há nissoVocê vê brotar a fonte dos desejos mais íntimos dentro de si, que se abre como aguaceiro de chuva e gelo degelando, inundando o chão dos músculos do corpo? Sabe, é tão mais fácil quando conseguimos dar nome às coisas, a isso o que é devido, àquilo o que lhe é de direito. O substantivo da dor é o advérbio preferido do amor. Não sei se me faço compreensível, quisera eu não ser, mas sento-me aqui, Cabral, peço esses três copos de coisa azeda e de gosto obscuro e me ponho a falar, a tombar os ombros, socar a mesa. Queres gritar comigo, Cabral, ou em mim, pergunto, Menino, o quê, questionas, Não sei, Cabral, a noite se abre a mim como as pernas de uma mulher, mas não estou de fora, estou lá dentro, ela quer me fazer sair, Cabral, e não quero sair, Chega de bebidas para você, Mas entenda-me, por favor, responda, entendes, pergunto, Estás bêbado e insone, vá para casa dormir, você diz. Cabral, antes costumavas ser mais luxuriante, que houve contigo? Há poças ali, vê só, poças que alumiam o chão refletindo a luz fresca da lua. Viu, Vi o quê, A luz fresca da lua, achei que tinha pensado nela em altas vozes, mas, Ei, o que vai fazer, você me interpela, Estou parando, De, outra questão, Não sei, mas se é melhor assim, se sinto-me mais solto e bom, é que devo parar, Mas não seria figurativamente apenas, Não sei, a rua é fria, tudo é frio, tudo é lindo, calmo, sereno, bom, ei, Cabral, apague a luz, está muito forte e bate nos olhos. Sei lá eu por quantas horas dormi, nem quem me trouxe aqui (provavelmente você, Cabral, velho), e só posso conjeturar os motivos de meu sangue estar mais doce. À beira da cama há uma janela que me dá para os jardins, donde sereníssimas borboletas e pássaros com piolhos entre as penas (têm mesmo) me observam e parecem cantar Oy, oy, se perdeu. São pássaros judeus, penso eu. Há bar mitzvá para os pássaros? Ou não é dado às aves o direito de viver seus treze anos e um dia nas graças do bom deus? Oy, que dor nas costelas, tem coisa aqui, me meteram ataduras pelo corpo, o que diabos deixaram acontecer comigo? E tem gente ali, olha, na cadeira frente à cama, e parece, senhor, não, Que foi, Mas que tipo de surrealidade é essa, pergunto, Não sei do que falas, Ei, quem é você, Não sei de quem falas, Onde está o Cabral, Ficou lá, Lá onde, Ficou lá. Ai. Ai, dormi de novo. Há morfina correndo aqui, eu sei que tem, só pode haver, nunca me dei bem com as farmacêuticas da vida, os remédios sociais, as drogas que metem-nos mente adentro para suportarmos os outros, a morfinice da sociedade, que parece dizer Tudo está bem quando seu corpo parece agradar aos olhos de quem pode ver e não há dor intermitente entre as quartas e quintas vértebras, nem suas pernas estão cansadas. O quê? Estou delirando e queria saber por que, hein, Cabral? O velho desgraçado que eu não conhecia e sentava-se à beira de minha cama disse que Cabral ficou lá, lá é a rua? Por que ele me traria até aqui e depois voltaria para a zona boêmio-fantasma do rio (mar pequeno e corrido de prédios, vá saber, não cidade)? Cabral, seu, você está tomando aquelas coisas amargas sem mim, tá com o álcool te inflamando, ei, Cabral, volta e me traz amargura pra vida, preciso beber, que será de mim? Tem pirilampos rodeando minha cabeça agora, coisas pipocando, senhor, será o fim? Oy. Mas quem deixou alguém colocar coisas metálicas na minha veia? Nossa, os pirilampos têm asas maiores e estão cuspindo fogo, não tenho tesouro enterrado, saibam, se forem dragões, e não pirilampos, não adianta me assarem, porque gastei tudo naquele bar ontem à noite. Ontem, o quê? Já é outro dia? Quem está me cutucando? Ei, você, pára com isso, não é direito, digo, mas não me escuto dizendo, Não dá mais, Não dá mais, pergunto, Hora da morte, O quê, exclamo, Nove horas e cinquenta e um, Oy. Na sarjeta do mundano-profano-estúpido-sujo, da pureza e do perigo, do círculo da vida, que é quadrado e não circular, graça, me pus a correr. Cabral, onde quer que estejas, tome uma última bebida comigo antes que ao que esteja morto não seja mais permitido viver com os vivos. Mas ainda é? Será que tenho chances de reaver o que não tive em vida tendo partido? Ou já acabou-se tudo e perdi, como jamais desejei perder? Não sei responder, não sei o que é certo, não sei onde estou, se estou, por que vim, como vim, nem tenho certeza de se havia pássaros judeus, velho e os pirilampos, ou se alucinava eu na casa de cura depois de um quase-morrer após aquela noitada, mas pergunto-me, e perguntando-me pergunto a ti, o gêmeo negro da alma branca que fraquejou e partiu-se, Cabral, que coisa de vida é essa que a gente não entende, que nos faz estar longe e, a cada vez que nos aproximamos, nos arremessa rumo ao nada e ao que é real e inútil e dispensável, quando não mais precisa de nós? Tem mistério a saber aí? Por que, Cabral?

Pastiche do Saramago. Sem mais.

Vanessas havia nos lírios azuis

quinta-feira, abril 23rd, 2009

Just flyNós temos aqui o essencial para sermos felizes. Senhoras e senhores, eu lhes apresento o amanhã, e aproveito para entregar-lhes algumas pequenas pitadas da essência da vida.

Respire e sinta seu corpo arder. Que seja eterno o ar que te rodeia, que seja ilimitado. Mas tanto faz. Você vê o ar? Não, então, do mesmo modo, não precisa ver mais nada. Sua existência depende do invisível, todos nós dependemos dele. Não é aquilo que conseguimos tocar e sentir o que é mais essencial para os nossos dias, mas tudo o que se mantém oculto a nós, difuso nas sombras ou envolto em luz que cega e impede a visão. Eu sei, e você também sabe, que aquilo que mais amamos estará para sempre ausente de nós. E é exatamente isso o que nos faz amar, é isso o que suscita nossas maiores emoções: a saudade, a perda, o voo que não pressupõe retorno.

Você ama e eu amo. Estamos de acordo, então tudo está bom. Sabe, eu poderia dizer que morreríamos no exato momento em que deixássemos de amar, mas isso não faz sentido, então não seria verdade, mesmo sendo algo bonito. De um modo geral, as coisas belas não são verdadeiras. O que é certo (tanto correto quanto real) é o que não é perfeito, aquilo que não está acima de todas as outras coisas. Olha, sou cético quanto ao modo como lidamos com nossas vidas e com esse mundo, mas posso afirmar que, do alto de toda a nossa imperfeição, somos completos exatamente por não o sermos. Eu explico, se houver necessidade.

Veja bem, nós temos aqui o essencial para sermos felizes, e “aqui” é o mesmo que “dentro de nós”, no mais interiorano espaço que há em nossos corpos, no mais íntimo pedaço de nossas mentes. O que eu, particularmente, procuro e espero encontrar são alguns fragmentozinhos de mim que se perderam nas inúmeres viagens que fiz. Há quem os enxergue nas ondas do mar, nos grãos de areia das praias, nas folhas das árvores ou nas nuvens do céu. No meu caso, vejo as borboletas e lírios e sei que há ali algo especial, que, na verdade, não é exatamente uma parte minha que finalmente reencontrei — é mais algo de fora, que, ainda bem, aprendi a guardar dentro de mim. Isso é tudo o que basta.

Uma observação sensata, deixada apressadamente ao final do texto: o que você é faz dos outros o que eles são, e vice-versa, o que significa que todos somos extraordinários graças à sua própria capacidade de ser insubstituívelmente única.

Asas mais fortes

segunda-feira, abril 13th, 2009

Foi algo que você comeu?

Continuamos com a programação dos pensamentos blackbirdianos.

Liberto é o corpo de quem voa e bate as asas como a borboleta, como os grandes icebergs. Não importa se nada voa, não importa se a surdez é mórbida, se estou triste e você feliz — se fumo Marlboro e você Carlton. É sempre a grande questão do voo e do bater das asas de borboleta e criaturas afins, os furacões que provocam e todo o resto. Isso é liberdade. Isso é mudança. Isso é o vento.

Todas as outras questões são todas as outras questões, que são basicamente responsáveis por si mesmas e as dúvidas que criam. Não existem, esqueça. Não há nada de novo que voe. Só existe borboletas. Os pombos são borboletas crescidas — galinhas, borboletas que comem milho.

Inventivo é um adjetivo para o lunático que conta as horas a partir de pôres-de-sol. Cada um é uma hora, a gente sabe. Incrível, fantástico e tenebroso. 6206 horas de vida me separam do meio até a ponta do início. Algumas outras tantas do dia em que a borboleta irá esquecer-se como voar e sumir. Viveu. Desapareceu. Voou e foi feliz.

E se Deus fosse um de nós…

domingo, abril 12th, 2009

Humpf

… apenas tentando voltar pra casa?

“Quando se vive solitariamente para sempre, quando se tem controle sobre toda a existência alheia, quando nada pode ferir-nos, ainda assim não somos completos, e só nos encontramos de verdade quando compreendemos que todas as nossas dúvidas e receios nada são além da vontade de sermos amados um dia.”

É uma história real.

30 Tiranos

segunda-feira, março 16th, 2009

Who watches de Dumbmen?


Muitos tiranos nas colinas vermelhas,

rolando cabeças pelo banco de areia,

ideias lhes vazam por suas  moleiras,

que jamais irão se fechar por inteiras.

Muitos tiranos repousando na beira

do abismo donde a treva se esgueira,

tecendo uma espessa e nebulosa teia

que a todo o escuro espaço permeia.

Muitos tiranos portam suas ceifeiras,

podam as flores nascidas sorrateiras,

contaminam campos de toda maneira,

retiram as cores de paisagens inteiras.

Muitos tiranos há nas cidades alheias,

ocupando suas ruas, portas e soleiras,

detonando o medo e a fúria em cadeia,

fazendo todas as regras à sua maneira.

Mas quem dita as regras,

e quem regra o que é dito?

Quem faz todas as escolhas,

e quem por elas é escolhido?

“30 Tiranos” é um título genérico, usado para abrigar textos com a mesma temática, que provavelmente se tornarão uma proto-mini-tosca-graphic novel, mas não prometo nada.

Todo o meu ódio é dirigido à você

segunda-feira, janeiro 26th, 2009

What's hate for you?Meu nome é Otto, e com todas as forças que sustentam o meu ser, eu te odeio. Com toda a energia que impulsiona a minha vida eu alimento esse ódio dentro de mim, e dedico todo ele à você.

Todos os dias quando acordo e à noite quando durmo é você quem eu amaldiçoo. Em todos os lugares por onde ando, em todas as casas em que entro, em todos os restaurantes em que como, por toda a parte eu enxergo um pouco de você e, quando te vejo, eu apenas a desprezo.

Se eu sonho enquanto durmo, é você quem aparece irrealmente distorcida em minhas viagens, é você quem fala lá do outro mundo e no meio da noite me faz acordar suando. E eu transpiro rancor, é isso o que brota aqui dentro. E enquanto tomo banho madrugada afora, gastando água, deixando o sabão cumprir seu trabalho de limpar meu corpo cansado, é em você que penso, e quando faço isso apenas tenho mais certeza daquilo que você causa em mim. E com todo o poder do meu pensamento eu a esmigalho no interior da minha mente e me entorpeço de alegria súbita fazendo isso. E momentaneamente fico contente por te provocar dor dentro de mim.

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O Padre

quinta-feira, janeiro 15th, 2009

O dente-de-leão nunca é forte o bastante.

O título deste texto não era para ser “O Padre“, mas não pensei em nada melhor. Alguém, por favor, sugira algo (de preferência algo não muito óbvio)!

Pra mim, absolutamente nada supera a liberdade. Nem mesmo aquele que, para muitos, é o valor máximo por excelência: o amor. Acredito que tudo nasce livre, permanece livre durante a vida e que ao morrer apenas se liberta mais ainda (como se isso fosse possível…). Tudo é liberdade, pois então, e para mim ela não deve ser limitada de maneira alguma, em menor ou maior grau.

Que é a liberdade?, perguntou o jovem ao padre. E o padre perguntou a si mesmo: liberdade… o que será? Se devo falar sobre Deus, digo que liberdade é o vício do homem, o que nos é mais promíscuo, pois é por causa dela que pecamos, mas, ainda assim, nos é permitida. Mas se devo dizer da prática, que é a liberdade senão a plena soltura do ser? A vida completa e sem limites, ou melhor, limitada pela própria liberdade, pois o homem verdadeiramente livre “encontra a lei na sua própria liberdade”.

Mas como respondo eu a uma pergunta que, se ora vai pela minha fé, vai também contra o que acredito? Não sou eu, pois, livre para responder a isso – os votos me prendem. Meus compromissos com a sociedade, com a minha Igreja, não me permitem dar outra definição para liberdade que não seja “o livre arbítrio de Deus”. Mas quero pensar nela, secretamente, que seja, como o valor perfeito. Quero pensar que ela se limita a si mesma e não precisa da intervenção constante de Deus (creio que foi esse o propósito Dele ao criá-la: pôs nesse valor universal dos homens uma chama de Si mesmo, um pouco do absoluto e do eterno).

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A morte

quarta-feira, janeiro 14th, 2009

Roda da Vida e da Morte (ou Criança no Infinito)

Estejam sossegados, “A morte” não é um texto pessimista, nem desesperado ou psicótico-sentimental. É só uma reflexãozinha. Foi algo que escrevi há algum tempo atrás, quando do aniversário de falecimento do meu avô por parte de mãe, que eu nunca conheci. O nome dele também era Eduardo, e além de um nome, uma vida e uma família, ele me deu, mesmo tendo indo antes de eu chegar, um motivo para continuar andando até encontrar o fim. É estranho falar dele. Eu o sinto, muitas vezes, próximo de mim, e o encontro vivendo dentro da minha mente quando penso em quem eu sou de verdade. Não dá pra explicar, são apenas memórias que não são minhas, mas foram trazidas até mim pelo acaso ou pela necessidade de serem recordadas por alguém mais uma vez.

Da morte não sabemos nada, como não sabemos, também, sobre muitas outras coisas; mas, talvez, “não saber” seja a faculdade humana melhor conhecida, e mais acreditada, porque são mais numerosos os nossos mistérios que as nossas certezas, e mais terríveis nossas dúvidas que a nossa ignorância completa do desconhecido.

Nos é estranho o sentimento de perda porquê também nos é alheia a certeza de posse. Quando perdemos, pensamos: “eu tive?” Nada é possuível, assim como nada é perdível: o sentimento máximo de retenção ou recordação é, inexoravelmente, uma lembrança, nunca uma certeza. Descobrir nossa vida e se preparar para a morte é, então, abandonar a memória viva e encarar o ignorado que está além da nossa limitada compreensão – redescobrir o próprio fim; rememorar não as alegrias ou as tristezas, mas a fina linha que sempre as dividiu durante toda a vida.

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