Archive for the ‘Meus textos’ Category

Ad hoc

sábado, março 13th, 2010

As almas ardem em fogo,

um brilho impossível

de verdades desiguais,

que as consome

e risca

e penetra

até seu fim,

o núcleo final,

a verdade única

que se lhe é possível,

o poder máximo

do espírito,

a parte dura do ser:

tudo ter,

nada saber.

É melhor o fogo

quarta-feira, março 10th, 2010

“Acerte o Sol mirando a Lua”, meu pai costumava me dizer. “Com a força que você tem, tudo o que lançar em direção a ela vai demorar centenas de milhares de anos para não atingi-la, porque ela não estará mais lá. Mas é provável, é bem provável, se você mirar direito, que o que jogar em direção ao Céu atingirá o Sol, que se esconde atrás da Lua e não sai do seu lugar.” “Uau!”, eu respondia. E então não era preciso meu pai dizer mais nada.

O que eu poderia jogar em direção ao Sol não joguei nunca. Eu não acreditava mais no meu pai quando fiz oito anos, e isso tornou ainda mais longa a distância até o Sol. E maior a força necessária para fazer algo viajar até lá.  E aos oito anos é provável que todos, como aconteceu comigo, percam a esperança de fazer algo grande um dia, porque dão um jeito de tirá-la de nós. O mundo e as possibilidades que havia além da órbita da Terra se fecharam para mim entre um soco e outro nos intervalos da aula, entre a primeira e última crise histérica de minha mãe, religiosamente presentes em todos os dias, e a cada ausência semanal do meu pai. Ele viajou mais aos meus oito anos que meus próprios pensamentos. Ou talvez não. Há uma chance de que eles o tenham acompanhado sempre, e ele os tenha perdido em algum lugar, aí não conseguiram voltar.

Hoje eu não sou tão mais velho do que era naquela época, mas sou mais esperto. Aprendi que a distância até o Sol é longa até mesmo para a luz, o que já me levou a pensar que, quem sabe, no escuro os milhões de quilômetros se encurtam, e que é por isso que à noite vemos as estrelas, e ao dia não, porque elas ficam mais próximas da Terra. Já cheguei a acreditar que havia uma chance de meu pai não estar errado, que os milhões de quilômetros se transformariam em milhares de centímetros nas doze horas mais escuras do dia, e que esticando um galho muito longo eu poderia tocar o Sol. E assar marshmallows nele. E talvez morrer incendiado. A gente se incendeia ou só se queima?

Uma vez me queimei de febre e fiquei de cama por três dias. Outra vez queimei uma das mãos em um ferro quente. Nunca me incendiei, mas todas as vezes em que estive queimado não pude brincar. Um dia, na escola, fui queimado na queimada. Eu era muito ruim. Nunca mais me escolheram pra jogar. Acho que há uma relação entre fogo e felicidade: quanto mais chamuscados estamos, mais infelizes ficamos. Não consigo entender como algo como o Sol queima a si mesmo. Quando eu era menor, uma das coisas que queria atirar nele era um balde d’água, pra ver se o apagava. Meu pai dizia que a água iria evaporar-se quando chegasse perto, e lembro que na época fiz uma experiência que provava que ele estava errado. Peguei uma brasa do tamanho do Sol e mergulhei-a na água. Não evaporou muita coisa. Só mais tarde fui entender que o Sol era maior que a brasa, era maior que o mundo, mas tive medo de juntar brasas do seu tamanho e incendiar a Terra. Porque a Terra, ao contrário dos homens, se incendeia.

Desisti de apagar fogos tão distantes e me concentrei nos que assolavam as florestas. Depois me desinteressei desses também, e só fogos de artifício despertavam minha curiosidade. Disparei alguns secretamente, porque minha mãe havia me proibido de brincar com essas coisas. Tinha medo deles. Tinha medo do que era proibido, medo e admiração. Nunca me proibiram algo que depois eu não tenha feito. Acho que só proibem coisas que não podemos evitar fazer, para depois termos que confessar nossos pecados e nos arrependermos e nos emendarmos. Seja lá o que “emendar-se” quiser dizer. Eu nunca estive quebrado.

De um modo ou de outro, o tempo passou sem que eu tivesse certeza de nada. Olhando para trás vejo que não havia muito a saber, e isso não faz diferença. Ninguém nunca sabe de nada. Meu pai era um mentiroso. Um menino da minha sala fingia saber fazer mágica. Uma garota uma vez disse que gostava de mim. Um cachorro me mordeu. Melhores amigos do homem uma ova! Ninguém nunca sabe de nada! Eu, no entanto, sabia de tudo. Mas disse também que não tinha nenhuma certeza. É verdade. Eu sabia o que não existia e o que era real, quem me amava, quem roubaria meu lanche no recreio, minha cor favorita, que eu não gostava de futebol. Eu sabia, mas tinha certeza? Certamente não. Meus pais – Bruno, o menino da série acima da minha – azul – não suportava nem mesmo a Copa. Mas sempre achei que minha mãe me amava menos, que Bruno só queria ser meu amigo, que branco era, na verdade, mais bonito, e que futebol só podia ser bom, já que todos gostavam. A questão é que nunca temos certeza alguma se nos acertamos segundo os outros.

Se somos todos infelizes eu também não sei. Se sou infeliz não quero saber. É muito cedo. Esse tipo de coisa não deve nos preocupar antes de morrermos, e só pode preocupar-nos depois porque aí já não importa mais. Se sabemos se somos felizes ou não cedo demais nos damos conta de se estamos ou não em chamas. Se somos umas espécie de Sol, ou algo assim. Não quero saber, porque toda vez que me molhasse teria medo de me apagar. Talvez, se fogo for mesmo igual a tristeza, isso seria até bom. Mas até quando? Se o Sol se apagasse, por exemplo, se eu tivesse conseguido jogar água nele, tudo seria escuro, tudo estaria ainda menos distante de tudo, e eu estaria mais próximo de quem não quero estar. É melhor o fogo, que conforta e machuca e ilumina, que faz molhar a cama onde dormimos se brincamos com ele. É melhor o fogo.

Mas as coisas são sempre como acertar o Sol mirando a Lua: vamos ainda mais longe quando não queremos ir, nos apagamos tentando acender-nos e nos acendemos quando estamos apagados. Bem, o que eu queria dizer mesmo era que meu pai estava muito errado, e que cresci acreditando em inacreditáveis, que ainda me assombram. Mas talvez – talvez… – ele estivesse certo. Quem sabe nunca acertamos a Lua porque ela sempre abre passagem para tudo seguir o seu caminho, porque não quer ser alcançada, ou porque não precisa ser? Ou talvez meu pai só tenha errado os cálculos, os quilômetros, o tempo, a velocidade, e nenhum astro seja realmente alcançável por nós. Quem vai saber?

Não sei dizer ao certo, e, como não sei, não digo. Mas um dia também terei um filho e irei falar algo a ele. Não há como prever o que falarei à época, mas se essa época fosse hoje seria “Se incendeie”. Quando perguntasse por que eu responderia: “Se você está em chamas é porque tem algo a queimar”. Me parece bom. Não é preciso atingir Sol algum, nem fazer esssas grandes coisas que parecem ao mesmo tempo tão fáceis e difíceis quando somos pequenos. Nunca, eu sei, fazemos nada melhor que aquilo que fazemos a nós mesmos, e até isso já é muito ruim. Precisamos é organizar (ou não…) o caos dentro de nós para queimarmos todo ele, assim como queimam a si mesmas as estrelas. Algo como finalmente nos acertarmos enquanto miramos a parte escura que há em nós, e que devemos incendiar. Porque é melhor o fogo.

Coisas que me lembram você

segunda-feira, março 8th, 2010

Uma ponta de dúvida,

uma ponta de lápis,

uma queda, um vôo,

uns pássaros a mais,

um filme que não desce

tão suave quanto o suco

de graviola que seu pai faz.

Ou será que entendi errado?

Uma saudade de ter

o que ainda não tenho,

nem posso te dar.

Uma pressa sem rumo,

um rumo sem pressa,

uma preguiça na rede,

um sol que estremece

as sombras que tínhamos

nos eus que nós éramos

quando “nós” não era nada.

Um sorriso, um sussurro,

um toque, uma certeza.

A certeza de que há

clareza nesses olhos que uso

para enxergar quem sou

bem dentro dos seus.

Uma conversa na noite

segunda-feira, março 8th, 2010

Deus é o narrador. Única informação necessária.

Andava acabrunhado e nada parecia poder me divertir. Se antes viagens e jogos bastavam, agora nem mesmo serviam para me tirar do estado nauseabundo de marasmo e inquietude de corpo (que de modo algum significava inquietude de alma) em que vivia.

Por um longo tempo deixei-me ficar quieto e imóvel entre anéis de gelo que rodeavam planetas distantes dos pedaços conhecidos do Universo, aqueles próximos de onde há vida. Se fosse possível falar disso, diria que a idade havia se abatido sobre mim, me derrubado e largado esquecido onde não saberiam nunca que eu estava. Me cansara de tudo o que há e, por isso mesmo, evitava outras formas e espíritos, que só carregam consigo mais cansaço, embora  neles ele sempre estivesse contido e concentrado em partes bastantes específicas de seus corpos: as pernas e braços, em quem tem carne, e no mais exterior dos espíritos, em quem não a tem.

Cheguei à conclusão de que a época em que tudo seria um fardo insuportável de se carregar havia chegado, ao menos para mim, mesmo não conseguindo explicar como ela poderia me atingir. Mas o fato que quero narrar não é o da minha imobilidade, mas o do meu retorno para perto de onde pulsa a existência e acontecem os ocorridos. Pois, estando o planeta em cujos anéis eu descasava alinhando-se com a Terra mortal, me sobreveio a vontade de voltar os olhos a ela, e assim fiz. Eles pousaram sobre um povoado, onde já era noite.

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Escada lateral

quarta-feira, fevereiro 10th, 2010

Na noite fria em que a escuridão tomou

o nó da terceira rua do bar eu vi,

sem que pudesse jamais esquecer,

o vulto que se ergueu do nada, de

entre os muros, de entre as outras ruas,

subir as escadas do último hotel (da rua),

onde, a esperar, a suspeitar de tudo,

eu aguardava com armas em punho, pólvora

mascada a arenar meus bolsos e fumo e

cigarros e cachimbos espalhados pelo corpo.

Eu tragava, eu desaparecia em fumaça, eu

não era nada que se pudesse ver e, entretanto,

somente eu, naquele quarto, poderia fazer algo

que interrompesse o vulto, que com ele acabasse,

algo como o que não fiz. Porque os que esperam na noite

pelas formas que nela se arrastam,

pelas sombras que as formam,

pela escuridão que desprega os dias dos céus,

são aqueles que vivem no oscuro,

no crepúsculo da sanidade,

encimados no pináculo do medo,

sussurrando, sem saber que ninguém os escuta,

que há um vulto lá fora a entrar no quarto do hotel

e que quer matá-lo, ou tentar, somente.

Esse era eu, o que aguardava. E aquele era ele,

o que vinha até mim para me consumir a vida.

E então foi que percebi, como nunca havia

percebido antes, que nada do que eu dizia,

ou pensava, ou acreditava,

era de todo uma verdade.

Eu só estava bêbado. E só.

E, sabendo disso,

guardei as armas que carregava,

apaguei os fumos, limpei os cachimbos

e tombei na cama fedida do hotel, sem esperar

que alguém viesse tirar satisfações dos crimes

que um dia havia cometido.

Porque o que os bêbados não temem

os sãos não farão em vão.

Um traço de claridade

segunda-feira, fevereiro 8th, 2010

“Alguém já machucou você?”, ele me perguntou. Eu disse: “Estranho… tenho que te contar uma história”.

Então estávamos, de súbito, de volta à março de 1983, quando eu era jovem, bem jovem. Era início de primavera e todo o Universo estava laranja como tangerina. As ruas brotavam de entre pétalas de flores, e o ar da cidade carregava o cheiro que tem o ar de março, que é igual ao cheiro do ar de setembro. O ar não tem cheiro, não sei de onde surgiu essa bobagem.

Eu era pessimista, como todo adulto deve ser, mas também intransigente, como os adolescentes são. Dali a alguns meses faria 21 anos, completando o rito de passagem que me levaria rumo ao mundo sênior dos colarinhos brancos, ações na bolsa e esposas traídas. E baseball com os filhos nos domingos à tarde. Eu estava inegável e irrevogavelmente crescendo, e nisso residia um grande problema; porque Peter Pan não precisou crescer, mas eu sim, e isso eu não podia perdoar: terem vendido ao menino que eu era aos 8 ou 9 anos o sonho de viver em uma ilha distante, voando pelos céus e combatendo piratas, sonho esse que nunca se realizou. Por que Peter Pan pôde, e eu não?

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Sem saber

quarta-feira, fevereiro 3rd, 2010

Tão confusos andamos, sem saber quem somos;
no campo da mente caminhamos,
achando encontrar a rua nos sonhos,
sonhando ter caminho a achar, enquanto,
e de tal forma sem sabermos como,
nos pomos (e somos) aquilo que
queremos crer não ser. E só.
Nenhuma esperança existe para
quem espera vê-la esperando
à beira da grama do rio da mente,
enquanto, descrente, aguarda,
sem saber que em si guarda
toda a certeza latente, tudo
o que só existe no momento iminente
de uma verdade (ou apenas crença)
que se compartilha com mais de um ouvido
e mais de uma mão, sem que nem se toquem,
sem que se levantem no espaço
para riscar o ar e arriscar falar:
que a confusão de andarmos sem sabermos ser
é só uma contusão na alma, quando ela não sabe
amar.

Texto de 28/11/09. Essa foi a primeira poesia que escrevi em muito tempo; a primeira que fiz depois que conheci a Clara. À época eu havia me dado conta de que estava começando a amar de novo, o que fez com que eu abandonasse boa parte das confusões e dúvidas que sempre haviam me acompanhado. Não há mais contusões em mim. True story.

Nada realmente importa

segunda-feira, janeiro 11th, 2010

Sim, ela costumava ser uma pessoa triste. Costumava pensar, como os que pensam, que futuro se faz de passado e presente, nunca (ou nem sempre) do que vem sem que se espere que venha, das novidades que arremessam-se contra a cotidianidade das coisas e a sua ordem e mudam também o que temos por nosso, ainda que isso seja, bem… aquilo que costuma fazer de nós as pessoas tristes que somos. Tanto era assim que, certo dia, o café coado por ela saiu com borra, o que pouca importância tinha para os poderes que regem o Universo, é claro, mas significava tudo, significava um universo inteiro de mudanças, para quem ela era. Surtou nesse dia e em todos os outros também, como acontece com aqueles que se desfazem quando a calmaria é interrompida pelas atribulações das pequenas coisas, e de novo, de novo, e de novo tomam contato com uma parte de si que se mantém à espreita do eu que são, aguardando a menor demonstração de fraqueza, de descontinuidade, para atacar, para (sem que nem mesmo haja esperança alguma de sucesso) tomar conta de um todo humano que não faz sentido para si mesmo, que não é sentido por si mesmo, que não está nem aí para o que dizem de si, não por ser magnânimo, nem por ser surdo, mas por ter o café saído com borra e as certezas da Existência se misturado com pó, enquanto deveriam ser líquidas e cristalinas, não turvas e empoeiradas como todo o resto que é e não é humano, que é e não é certeza, que é de novo, e de novo, e de novo o costume ao qual se acostumam as pessoas tristes que nos acostumamos ser.

O último texto que escrevi no ano passado, no dia 31/12. Só cheguei a terminá-lo esse ano. Era para ser um conto longo, mas escrevi um mini-conto em vez disso. Achei melhor.

O título foi retirado da letra de Bohemian Rhapsody, do Queen.

Apoteose & Epifania

segunda-feira, janeiro 11th, 2010
um milhão de sóis e barulhos
se misturam na mente,
conforme as estrelas passam,
o céu se apaga
e as estrelas caem
e o mundo se move
e a estrelas…
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Mover

quarta-feira, dezembro 30th, 2009

Mova-se. Não há nada pior do que parar, deixar de fazer o que se quer, se esquecer, não crer, crer desacreditando, não ter o que se quer, nem querer o que se tem, veja bem, porque tudo na vida é um não-terminável período entre períodos, parênteses que se abrem bem no meio de outros parênteses, onde deveria haver pontos finais, mas não há, e só há vírgulas, ou nem isso, ou, talvez, uma outra forma de pontuar a desigualdade dos dias e a não-linearidade da nossa existência, o consumo desenfreado de ar pelos nossos pulmões que (inflando-se e desinflando-se) nos mantêm vivos, mas às custas da nossa própria morte, do esforço, porque se morre por esforço, falta de força, de vontade, de importância, pelo dissenso da continuidade, medo, perdas, morremos quando temos o que desejamos e desejamos o que temos, mas, não sabendo ter, sonhamos um dia termos ter de não querer ter o que não sabemos manter dentro do nosso próprio eu, assim como com o nosso próprio fim, e quem sabe isso também seja como uma esperança de continuidade diante da imobilidade de nós, das nossas fraquezas, e o problema que reside em pararmos é que não sabemos mover-nos em direção a nós mesmos, o que nos leva a pensar que, se sem rumo, mais vale prosseguir até que o “se” se torne “ser” que deixar de ir por não saber partir. Mova-se, apenas.

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