Na noite fria em que a escuridão tomou
o nó da terceira rua do bar eu vi,
sem que pudesse jamais esquecer,
o vulto que se ergueu do nada, de
entre os muros, de entre as outras ruas,
subir as escadas do último hotel (da rua),
onde, a esperar, a suspeitar de tudo,
eu aguardava com armas em punho, pólvora
mascada a arenar meus bolsos e fumo e
cigarros e cachimbos espalhados pelo corpo.
Eu tragava, eu desaparecia em fumaça, eu
não era nada que se pudesse ver e, entretanto,
somente eu, naquele quarto, poderia fazer algo
que interrompesse o vulto, que com ele acabasse,
algo como o que não fiz. Porque os que esperam na noite
pelas formas que nela se arrastam,
pelas sombras que as formam,
pela escuridão que desprega os dias dos céus,
são aqueles que vivem no oscuro,
no crepúsculo da sanidade,
encimados no pináculo do medo,
sussurrando, sem saber que ninguém os escuta,
que há um vulto lá fora a entrar no quarto do hotel
e que quer matá-lo, ou tentar, somente.
Esse era eu, o que aguardava. E aquele era ele,
o que vinha até mim para me consumir a vida.
E então foi que percebi, como nunca havia
percebido antes, que nada do que eu dizia,
ou pensava, ou acreditava,
era de todo uma verdade.
Eu só estava bêbado. E só.
E, sabendo disso,
guardei as armas que carregava,
apaguei os fumos, limpei os cachimbos
e tombei na cama fedida do hotel, sem esperar
que alguém viesse tirar satisfações dos crimes
que um dia havia cometido.
Porque o que os bêbados não temem
os sãos não farão em vão.