O último fio a ser cortado
terça-feira, fevereiro 17th, 2009

Tenho estado bem ocupado terminando alguns textos ultimamente, e por isso não sobrou tempo para atualizar o blog durante essas duas semanas. A partir de agora, vou tentar postar pelo menos uns textos curtos ou poemas, só pra manter o Blackbird funcionando. E vamos ter também, em breve, o começo de uma parceria com o Expressionando, fiquem atentos :)
Moshe Yacoovson não acreditava em nada. Que governo, que guerra, que paz, que Deus? O único diabo que conhecera em vida fora sua sogra, que Deus não a tenha. E coitado se a tivesse. Mas não existia Deus! Então, que nada — nada é de ninguém, todos são nada, substâncias vazias e disformes que flutuam em um mundo oco. Moshe via as coisas assim. Moshe vivia assim. Se era feliz? O que é felicidade? Ela existe, de se pegar? Como não, então, também não, ele não era feliz, apenas estava e sobrevivia, e assim seguia. O que mais se pode pedir da existência?
Se Moshe não pudesse tocar-se todas as manhãs, logo após acordar, duvidaria até mesmo que estivesse ali. Ou talvez não. É engraçado como os homens desacreditam em tudo, exceto em si mesmos; se creem que algo não é o que aparenta ser, só a crença já basta para criar uma certeza decrépita que defenderão até a morte.
Moshe Yacoovson não acreditava em nada, e eu não acreditava nele. Queria matá-lo desde que o conheci, essa era minha maior vontade, mas não podia. Inferno! Ai, blasfemei… tenho de me punir mais tarde. Ultimamente tenho ficado descontrolado, tendo alguns tiques, falando em voz alta certas palavras ruins. Preciso de uísque, um conhaque, charutos, mulheres… ah, droga, olha eu de novo! Anseio por uma vida humana agora, mas que grande merda! Desculpe, tenho que me controlar, me recompor. Mas como? Maldito Yacoovson, ele me deixa assim! Quando tenho que observá-lo mais de perto, prestar atenção em seus hábitos opacos e feitos até mesmo humanamente indignos, fico como estou agora, desejoso de experimentar outra vez mais e mais o cotidiano dos homens, suas paixões e desilusões, tudo o que lhes é permitido.


