Um traço de claridade
“Alguém já machucou você?”, ele me perguntou. Eu disse: “Estranho… tenho que te contar uma história”.
Então estávamos, de súbito, de volta à março de 1983, quando eu era jovem, bem jovem. Era início de primavera e todo o Universo estava laranja como tangerina. As ruas brotavam de entre pétalas de flores, e o ar da cidade carregava o cheiro que tem o ar de março, que é igual ao cheiro do ar de setembro. O ar não tem cheiro, não sei de onde surgiu essa bobagem.
Eu era pessimista, como todo adulto deve ser, mas também intransigente, como os adolescentes são. Dali a alguns meses faria 21 anos, completando o rito de passagem que me levaria rumo ao mundo sênior dos colarinhos brancos, ações na bolsa e esposas traídas. E baseball com os filhos nos domingos à tarde. Eu estava inegável e irrevogavelmente crescendo, e nisso residia um grande problema; porque Peter Pan não precisou crescer, mas eu sim, e isso eu não podia perdoar: terem vendido ao menino que eu era aos 8 ou 9 anos o sonho de viver em uma ilha distante, voando pelos céus e combatendo piratas, sonho esse que nunca se realizou. Por que Peter Pan pôde, e eu não?
Não era nessas histórias infantis que eu pensava enquanto andava pelas ruas da cidade nova, de cabeça baixa, admirando as cores da calçada e os sapatos dos passantes. Não os olhava nos olhos. Naquela época, se bem me lembro, evitava olhar para o rosto de quem quer que fosse, com medo de reconhecer alguém, ou de conhecer alguém. Contato humano… é difícil dizer como essas duas palavras podem ser inumanas. Todos os meus problemas na vida foram por causa delas.
Contato humano. Lembro uma vez em que tomava Cherry Coke em uma lanchonete perto do centro, quando uma garçonete randômica sorriu para mim. Isso é o contato. Esperei-a até o fim do expediente naquele dia e a acompanhei até em casa. Tomamos café, conversamos, comentamos o último show do Marvin Gaye (o cara era um deus) e a levei para cama. Fizemos sexo a noite toda. Isso é o humano. Então, no dia seguinte acordei e ela estava ao meu lado, ainda dormindo. Saí de casa, comprei pães frescos e essas frescuras todas que compramos quando queremos fazer um café-da-manhã decente para alguém que pensamos ser decente. Não era o caso dela. Quando voltei para casa, nem ela nem meu velho relógio de ouro estavam onde deixei. Cheguei a ir à lanchonete onde a encontrei mais algumas vezes, mas nem sinal dela. Na verdade, ninguém ali sabia quem ela era. Muito menos eu. Isso me ensinou a não levar garotas que conheço há uma noite apenas para cama. Ao menos não para a minha cama.
Se foi aí que parti meu coração, é o que você quer saber? Não, não foi dessa vez. Embora essa história seja importante para que você entenda tudo, porque, na verdade, ela foi o estopim de tudo. A uma hora dessas você deve estar se perguntando, se tiver um pouco de bom senso: “O que você fez, o que você fez?”. Bem, sem saber quem era aquela com quem dormi, e sem ter como encontrá-la, passei noites acordado, pensando na minha sorte, em como havia perdido um significativo relógio de ouro para um sirigaita (também chamada de outros nomes mais ordinários) qualquer. Certa tarde, enquanto lia o jornal e ouvia falar pela primeira vez no surto de AIDS e em como a maldita doença era transmitida, pensei: “Meu senhor Deus, será que agora sou vítima dessa tal AIDS?”.
Eu gostaria de esclarecer aqui um ponto muito importante: à época não era costume nosso nos prevenir, como vocês fazem hoje. Quero dizer, como fazem hoje em algumas das vezes, afinal, se toda essa alardeada prevenção funcionasse de verdade você não estaria aí, e não estaríamos nós travando essa conversa. E não me venha com o velho discurso do “fui uma gravidez planejada”. Planos uma ova! Ninguém pensa nessas horas, e ninguém está nem aí para os planos.
Mas atenha-se à história. Me recuperei da mulher que conheci na lanchonete onde certa vez tomei Cherry Coke apenas um par de semanas depois de ela desaparecer da minha vida. Quero dizer, nesse meio tempo é claro que continuei a trabalhar e a fazer tudo o que se esperava que eu fizesse, afinal, dali a algum tempo faria 21 anos, e essa era uma idade muito respeitável, que exigia de mim uma aura de respeitabilidade que eu nunca tive. Deveria conquistá-la! Pois bem, esse pensamento, o da conquista, me manteve ativo durante as semanas que passei me lamentando pela garçonete-fantasma. À época eu me lamentava muito, infelizmente. Era uma mocinha. Tive que aprender a ser homem da maneira mais difícil de todas: com as mulheres me ensinando.
Isso nos leva à dezembro de 1983 e ao Natal mais caótico de todos. Sopas Campbell’s. Quem, em nome de Deus, passa um Natal comendo apenas sopas Campbell’s na ceia? Tudo bem que há ferro ali, e sódio, e tomates (o sabor da sopa era de tomate, se bem me lembro), mas não havia peru, empadões, macarrão, bacon… nada que deveria haver em uma ceia que se preze. Mas foi assim meu Natal naquele fatídico ano, e foi por causa dessa situação angustiante, dessa solidão que me derrubava as paredes da sanidade – e também por causa das sopas Campbell’s -, que vesti meu casaco e saí para a rua, andando à esmo, com neve caindo sobre a minha cabeça.
Então foi que a vi. Era 24 de dezembro de 1983, a noite que precede o nascimento de Cristo, Nosso Senhor, e a vi. (À época eu não era um homem temente a Deus, como sou hoje. Isso é importante de se saber para entender os próximos eventos.) Ela tinha os mesmos cabelos ruivos de antes, sem sardas, olhos verdes, pele rosa como as nuvens poluídas da cidade ao fim da tarde, e o que eu mais gostava em uma mulher: a saber, belas pernas e seios fartos. Seu nome era Caroline, acho eu. Nunca vou me lembrar. Você já a conhece como a garçonete, assim como eu também a conhecia até aquela noite. Se fui para cama com ela, é isso que está me perguntando com esses olhos arregalados? Que homem em sã consciência não iria, santo Deus! Pois bem…
Esqueci de contar o que havia acontecido com meu relógio: ela o pegara para saldar algumas dívidas, mas não chegou a fazê-lo. Se arrependeu profundamente e tentou me reencontrar para devolvê-lo, mas sempre teve medo de qual seria minha reação. Certo dia roubaram-no, sem que nada pudesse ser feito… às vezes acontece. Retornando ao que eu contava…
Passei duas belas noites com aquela mulher. Não nos víamos durante o dia, ela desaparecia e nunca me dizia aonde estava indo. Quando o dia se aproximava das 19h ela aparecia à minha porta, tão bela quanto antes, vestindo as mesmas roupas e com renovado perfume e vigor. Não havia nenhuma cerimônia entre nós. Coraline passava pela porta, desabotoava o sobretudo, jogava-o no chão do meu quarto, estirava-se na cama, deslizava para baixo o zíper da blusa e acenava para mim. E eu ia. E tudo acontecia ali, sem cerimônia alguma, como eu disse. Existe uma parte da vida que nos pede para vivermos, e essa parte da minha vida foi Christine. Mas, como eu também disse, por apenas duas noites foi que a tive em meus braços. Assim foi não porque ela desapareceu como antes, mas porque Caroline morreu. Como? Até hoje não sei ao certo. Lembro-me de ter ido ao seu enterro, de ter chorado, jogado flores sobre seu caixão, de ter não visto nenhum desconhecido olhando para mim sem entender o que eu fazia ali, sem saber quem eu era. Mas o que mais me lembro é do que estava escrito em sua lápide: “Fulana com tal Sobrenome, ano X-ano Y, mãe amorosa”. Acho que tive um pouco de nojo de mim naquela tarde do funeral. Quanto nojo não sei, porque não consigo me lembrar dele, e isso só pode significar duas coisas: ou foi muito, ou foi nenhum.
Mas que culpa eu tinha? Corinne não me disse quem era, nem que tinha filhos. Eu era jovem! 21 anos recém completados. Isso não é o suficiente para decifrar uma mulher. Hoje, aos 48, ainda não consigo decifrá-las, e o Senhor sabe como tenho tentado… mas não foi aquela Christine, ao contrário do que você possa pensar, quem me machucou, apesar de essa história ser também de fundamental importância para a compreensão da próxima.
Quando saí do velório daquela que havia sido minha mulher por duas noites me deparei com uma velha que recolhia latas de sopa Cambpell’s caídas na calçada. Circundando a mão que pegava as latas estava um fino, sujo e riscado relógio de ouro. Um fino, sujo e riscado relógio de ouro que muito se parecia com o meu. Me aproximei e lhe perguntei: “Quantas horas são?”
“Querido”, ela me respondeu, “as horas eu não sei olhar”.
“Qual o porquê do relógio, então?”, perguntei outra vez.
“Seu brilho! Ele me encanta.”
“Ninguém no mundo usa um relógio só porque ele brilha, senhora.”
“Mas deveriam…”, ela retrucou.
“Por quê?”
“Bem… como somos todos parte dessa mesma escuridão, precisamos enxergar luz onde não há nem mesmo um traço de claridade.”
Quando me afastei da velha naquela tarde percebi algo de que não havia me dado conta antes: eu estava completo. Não importava mais quem era a garçonete que havia sido enterrada há pouco ali perto, nem qual o seu nome correto. Tudo de que eu precisava era me resignar. Resignação. Resignação acordada. Essa era a chave da felicidade, eu pensava. A velha catadora de sopas e seu relógio sem horas, mas com brilho, haviam me mostrado o sentido da vida. É claro que não haviam mostrado coisa alguma, mas eu tinha 21 anos e era estúpido, e as coisas que pareciam fazer sentido para mim à época, quando enxergadas com meus olhos de hoje, não passam de um borrão grosseiro a manchar o fino véu de certeza que nos encobre os olhos.
Me resignei. Não procuraria mais mulheres, não as aceitaria em minha cama, não as chamaria pelo nome. Porque tudo isso era contato humano, e, para mim, esse tal contato era a raíz do mal que me assolava. E assim foi. Passei anos sem me preocupar com quem, além de mim, dormiria em meus lençóis. Eventualmente uma ou outra fulana eu deixava passar a noite ali, mas me arrependia mortalmente depois. Cogitei ir para um mosteiro, me isolar de todos os outros da minha espécie, entrar em contato com um Deus que eu havia começado a conhecer… mas nunca fiz isso. O simples pensamento de que não seria mais livre para não ser livre era o suficiente para que eu me acovardasse de todos os sonhos que cultivava.
Então chegamos ao ano de 1989 e à última parte do que tenho para contar. Junho passou depressa e logo veio julho. O meio do ano. Fiz um balanço das coisas que desejara conseguir naquele 1989 e das que realmente havia conseguido em seu primeiro semestre. Havia sido promovido, comprara um carro e uma casa. Muito bom. E o que mais? Mais nada. Era apenas isso o que eu havia planejado, e tudo o que queria para aqueles 365 já era meu, assim como tudo o que queria para os outros 365 ou 366 dias que comporiam os outros anos da minha vida. E aqui minha história termina.
“Como é?”
“‘E aqui minha história termina.’”
“Então posso concluir do seu lenga-lenga que foi essa garçonete-desconhecida-mãe a mulher que mais machucou o senhor?”
“Sim, pode, se quiser.”
“E toda essa conversa sobre resignação? Se você estivesse mesmo resignado com a vida que decidiu levar não haveria como a garçonete ter ferido-o tanto naquela época.”
“E ela não feriu.”
“Então quando foi isso?”
“Precisamente hoje, há alguns minutos atrás.”
Isso porque há algo que não contei a você, algo que não há mais por que esconder.
“Logo hoje?”
“E qual outro dia mais poderia ser?”
“Só porque estamos no casamento de Elizabeth? O senhor acha que deveria ter se casado?”
Foi isso o que não contei: estávamos na festa de casamento de Elizabeth Bovary, para a qual eu não havia sido convidado.
“Não por isso, acredito sinceramente que me resignei quanto às mulheres e que foi uma boa opção não ter nunca me casado…”
“Então como a garçonete poderia ter ferido hoje o senhor?”
“Bem… há coisas na vida que não entendemos quando somos jovens demais. Por exemplo: por que uma mulher some por nove meses, ou um pouco mais, e depois misteriosamente volta até nós? E por que haveria na lápide dela uma inscrição com os dizeres ‘mãe amorosa’, mas nenhuma contendo ‘esposa devotada’?”
“Mas por que diabos isso o preocupa tanto logo hoje?”
“Porque em minha lápide não haverá inscrições de ‘pai amoroso’, nem de ‘avô bondoso’. Porque minha filha não carrega meu nome. Porque meus netos também não carregarão. E, aos 48 anos, sentado aqui, vendo tudo acontecer, aquilo que consigo dizer o digo a um estranho, e não a ela, quem deveria ouvir. Isso me preocupa tanto hoje porque me resignei a não ter na vida mulher alguma a ocupar um lugar maior do que ocupo eu mesmo, e é isso o que faz de Elizabeth uma Bovary, e não uma Dickens.”
E, a propósito, muito prazer. Albert Dickens.
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fevereiro 10th, 2010 at 11:18
Seus textos possuem uma característica interessante: começam meio mornos, meio sem pretensão alguma, e então finalizam com uma bombástica revelação!
Isso é interessante e digno, mas pode ser perigoso para escritores iniciantes, nesta era de pressa e falta de paciência, em que todos querem resultados imediatos.
Mesmo assim, é belo e sincero.
Atente para repetição de palavras. E não despreze a própria poética – o ar tem cheiro sim! LoL
INVISTA em mais construções como esta: “Bem… como somos todos parte dessa mesma escuridão, precisamos enxergar luz onde não há nem um traço de claridade.”
Isso é muito bonito – necessário. Escritores devem ter a pretensão de inserir frases como essa a cada um ou dos parágrafos. Não tenha medo de poetizar, o ofício pede!
Só por enquanto, abs!
post interessante no blog do(a) kabral: Gritos da Escuridão