Entre encaixes

Brillo: sim

O que eu fazia melhor naquela época era empacotar. De uma forma ou outra, empacotar. Assim em caixas, ou algo do tipo, guardar as coisas. (Tirá-las da superfície e mantê-las ocultas.) Fazemos muito isso. Fazemos muito isso o tempo todo. Meu avô me dizia que o que não se guarda se perde. Talvez ele também tenha querido dizer com isso que tudo o que não se perde está guardado, eu acho, mas não acredito. É o porquê.

Guardar tem dois sentidos, eu já disse: esconder e preservar. Esconder de quem e preservar do quê não sei dizer, mas é assim que a gente faz. E é melhor que seja mesmo, caso contrário sempre agi errado. Se guardar fosse pôr para fora e compartilhar, qual seria a lógica no empacotamento que me persegue? Não faria sentido, eu não faria sentido, logo nada faria. E assim chegamos ao como.

De um modo bem particular sempre gostei de manter a inocência em tudo em que ela está. Flores. Flores não são órgãos sexuais, por favor, não! Flores são belas. E os órgãos não são? Não sei. Mas não podem ser flores, que sejam outra coisa, como martelos, pregos ou cubos de gelo derretendo. Ou chifres de marfim. Não me importo, contanto que a inocência prossiga. Não é dessa maneira que gostaria que viesse, mas é dessa maneira que vem a deficiência.

Me apresento daqui até o fim como o Garoto das Caixas, isso é tudo o que é preciso guardar sobre mim (quem quiser).

Minha história é fragmentada como o espaço que divide a linha onde digo quem sou e essa…

E essa outra. Seguiremos em pedaços, aqui e em todo e qualquer outro lugar onde estivermos. Não darei explicações. Não ensinarei como se fecha uma caixa. Não falarei mais em caixas (exceto quando e se tocar no nome que me dei), porque, a despeito do que possa parecer, empacotar (a regra de não se falar mais nisso fica valendo a partir de agora) não fará diferença alguma para mim no final. Não se esqueça que sempre cumpro o que prometo.

No fim, a propósito, sou morto em uma cadeira elétrica, onde os choques são vanguardas de mim que não se adiantam a mim, mas retrocedem meu eu.

Na verdade, não. Foi só um dos muitos fins que pensei para quem sou (mas que nunca se concretizaram). Fato é que nós definimos nosso próprio ponto final em algum ponto da vida. Minha amiga Michelle (ela era atendente de caixa no mercadinho da rua atrás do supermercado multinacional) certa vez me disse que tudo o que mais queria na vida era viver um grande amor, consequentemente uma grande aventura. Não sei se viveu, mas está morta agora e acho mesmo muito difícil que viva mais alguma coisa algum dia.

Que relação há entre isso e a escolha lúcida do nosso próprio fim?

Nenhuma, mas nunca gostei da Michelle.

Falei que era minha amiga apenas para criar uma falta expectativa de relacionamentos, passividades e calores humanos. Como essas coisas não existem para além da tela de uma tevê, não sei como continuar mentindo (logo, digo a verdade para não soar desumano demais; ou melhor, digo porque me canso de tentar desdizer qualquer coisa que realmente exista — e transformá-la em algo meu; digo a verdade porque estou exausto de ser quem tento ser. Há mais algo a fazer?). Pois bem, a coisa se dá assim para as atendentes de caixa…

(Quando chega perto de seu caixa um supermercado multinacional, é claro. Seu emprego se vai, conhece a história? Assim como suas economias e o chefe que te assediava entre os turnos da manhã e da tarde. Não porque o prendem. Não porque você o denuncia. É que “você” não está mais lá: foi despedido (na maior parte das vezes, ida) por causa do corte de pessoal. Te cortam, e a tudo o mais. Acontece.)

Não se dá dessa maneira para lavadores de carro, nem confeiteiros. Conheci um confeiteiro uma vez. Gordo, italiano, de bigodes, cabelos pretos. Não é via de regra serem assim, mas esse era. Como foi o único confeiteiro que alguma vez já conheci, será para sempre o Confeiteiro dos meus sonhos (na verdade, de todas as vezes em que eu precisar me lembrar de um). Ao contrário de Michelle ele não queria nada da vida além de doces. Era bem resolvido consigo, com o mundo, com seus parentes sicilianos (que eram de Nápoles, mas, convenhamos, só há coisas boas na Sicília), com as mulheres (era eunuco, eu acho, ou uma máquina de sexo). Era eunuco, decidi, puro e inocente. Digno de confidência.

(Os eunucos são historicamente dignos de confidência porque não podem dedurar: nem dedo, nem duro, nem nada durar, a propósito.)

Lembro de achar que estava apaixonado pelo Confeiteiro, porque me lembrava muito meu pai (nunca tive um; o confeiteiro não sabia da minha existência; assim era). Quis matá-lo quando o vi jogando fora um muffin de chocolate com cobertura de morango. Ensaiei o que dizer a ele: “Senhor, tal coisa é certa diante da miséria do mundo?” Bobagem. “Senhor, tal coisa é certa diante de minha miséria?” Será? “Senhor, tal coisa pode haver sem que eu jamais tenha provado dela?”

Eu não sei dizer do que não sei provar, do que não sei ter, não sei viver. De certo modo, tudo em mim é mentira porque minhas posses se resumem a mim. E inexisto em todos os planos da existência, exceto naquele (efêmero, restrito, embora, mais que tudo, deseje ser ilimitado) que há entre uma palavra e a outra. Sou o que me falo ser, mais do que me faço sendo.

Talvez isso explique muita coisa.

(A inconstância, a…)

(…falta de sentido. De continuidade.)

Mas não me diz nada a respeito de nada. É o que sei aquilo que me faz crer, provar, ter, saber viver, mas não é o que tenho o que me torna capaz de fazer tudo isso. É exatamente aquilo que os outros desconsideram ser deles, exatamente tudo o que vejo não sendo meu e, portanto, de outros. Portanto, para outros. Nunca em minhas mãos nem em parte alguma de outra parte minha; coração, jamais, senão eu sentiria (assim como falam sentir) que há algo além do que vejo, mas desvejo em mim.

Não digo que o Confeiteiro fosse uma boa pessoa; melhor que as demais, talvez, mas isso não é lá muita coisa. O que somos: somos diante do que é menos que nós, nunca mais. É a regra da vida, caso contrário nos superaríamos em vez de desaparecermos e nos aprisionarmos em pensamentos e categorias de pensamentos que vão além de nós, mas não nos levam junto.

Se eu disse que sou o Garoto das Caixas é exatamente porque sou jovem e contido. Só que não tão jovem, não tão impedido de prosseguir por forças minhas ou de qualquer outro alguém. Apenas gosto do que o nome me diz: você é algo mais que um único ser, é três palavras. Elas talvez tragam consigo o sentido do estar-junto, estar em mais de um, estar em três, juntar-se em mais (de grupo, de clã, de família, de força, de apoio). Elas são, ou aparentam ser, maiores que meu único eu quebrado.

É essa a razão da existência dos nomes compostos:

Eles estão aí para me lembrar, ou a todos nós, que não há sentido na solidão, e que, portanto, o significado de um homem só se perde porque inexiste. Saiba que as coisas inexistentes estão todas perdidas, desaparecidas antes mesmo de se tornarem possíveis.

A certeza que temos é a de que não podemos ser apenas nós mesmos, porque isso não faria sentido algum. Não seria bom para ninguém. Essa certeza é alimentada por: nossa vontade de estarmos certos; nosso desejo de não precisarmos ser esquecidos. Uma certeza que é crença. Um sonho.

Antes estarmos guardados e preservados!

A irrelevância de uma Michelle balconista eu guardei em mim. A bonachice de um confeiteiro, que se tornou o Confeiteiro, também. São dois único nomes, uma para cada, que não dão a eles a completude de ser dois ou mais substantivos. Estão em mim como um retrato de um tempo passado, como um ponto apenas na existência (o ponto final; o ponto em que escolhemos nosso fim; o ponto que é nosso por direito). É, para ser sincero, quando fechamos na mente um momento qualquer e o eternizamos, aos trancos e barrancos, dentro de nós, que escolhemos nosso momento de morte:

Ele será para sempre (e para sempre é igual à “outra vez”) o ponto de retorno a todas as lembranças que nos fizeram mais e mais completos ao se guardarem em nós.

É daí que vem, bem provável, aqueles relatos miraculosos de passados que se passam novamente diante dos olhos instantes antes de partirmos daqui (desse mundo).

É daí que vem, também, a certeza de meu avô de que guardar é preservar. Mas essa certeza é apenas dele.

Nenhuma verdade universal.

Eu não poderia dizer, se quisesse, que o que vale para ele vale para mim. Quem sabe às vezes, mas não sempre. Por isso é que, embora concorde com ele que guardar é conservar, não estou muito certo de que conservamos o que guardamos, isso porque:

Perdi mais tempo pondo momentos, vontades, sonhos e tudo dentro de mim do que realmente os vivendo.

Daqui de onde estou, quando penso em quem era só me lembro de Michelle e do Confeiteiro. Por mais que me esforce é apenas isso que me vem à mente. Nessa hora sei, embora não quisesse saber, que estou decididamente perdido, porque não fui preservado, nem, como consequência, guardado.

Embora tenhamos em nós o que queremos, haverá alguém que nos tenha em si para que também continuemos a ser o que quisemos ter? É essa a pergunta que me assombra, e deveria a todos assombrar.

Eu não sei muito sobre a vida, apenas o que acabei de dizer, mas há algo no ar a me garantir que não poderei nunca mais tornar a ser quem eu era, voltar à época em que considerava (ainda considero em parte) toda sexualidade um asco, uma mancha no modo humano de viver; à época em que eu empacotava coisas; etc.

Sigo sendo o que me lembro vivendo. Sigo às voltas com Michelles e Confeiteiros.

Não se pode exigir de mim. Não muito.

Não se pode pedir da vida pontos que ela não esteja preparada para dar. Agora, no final, sei que devo concluir tudo e dar um sentido ao que, quem sabe, ainda seja obscuro em mim. Mas não posso.

Tudo o que sei é que caixas se abrem (por nós) nas ocasiões em que precisamos do que há nelas (ou do que, muito pelo contrário, não está lá) para continuarmos bem como queremos.

E aqui acabo de quebrar minha promessa.

Nunca quis que este conto fizesse mais sentido em palavras que nos seus próprios significados (muitos dispersos, outros sintetizados ao final). Relevem qualquer falta de coesão. Relevem qualquer coisa.

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2 Responses to “Entre encaixes”

  1. Indily Says:

    Eduzis, eu tenho que te dizer que certas partes desse texto são completamente alucinadas… vc usa dorgas.
    Mas outras são tão… reais que me doeram. Na verdade ele é mto real, mas acho q vc ta certo, tem coisas que assombram… Fazem pensar e nem sempre é tão bom analisar as coisas como vc as escreveu.

    Maravilhoso… eu realmente amei!

    ** Mas ainda quero ser um neurônio fumado seu em momento de criação! Deve ser fascinante!

    Amo tá! <3
    post interessante no blog do(a) Indily: Caixa de Pandora My ComLuv Profile

  2. Mamá Says:

    É, Edu, ainda bem que você deixou o PS ao final do texto.

    A ideia é muito boa, mas eu não sei se eu gostei…simplesmente porque ele não faz sentido algum, é prolixo e um pouco cansativo.
    Isso não quer dizer que não contenha excelentes ideias, ou que não esteja muito bem escrito [quem escreve bem, não consegue escrever mal...se é que vc me entende].

    E estou começando a achar que você usa muitos “ou algo do tipo”, “sei lá”, “algo assim”, e também muitos parênteses.

    Talvez, se você não quebrasse tanto o texto com pausas, ele ficasse mais fluido.

    Não sei, é a minha opinião.
    Releve o que você quiser, absorva o que te der vontade

    ^^
    post interessante no blog do(a) Mamá: Paris My ComLuv Profile

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