
Eu estou aqui, de volta, para escrever o mais ambicioso texto de toda a minha vida. Pausa dramática. Não até agora, não comparado aos muitos que já tenho, mas até aos que ainda vou ter. Pausa pretensiosa. O que vocês vão ler, se lerem, é meu maior vôo, e um dos que mais valerão a pena, saldadas as dívidas, fechadas as contas e somados os sonhos e pesadelos.
Em poucos parágrafos (eu não quero que meus momentos literários durem muito, mas o suficiente, assim como tudo na vida, né?) eu terei de assumir o papel de texto (minha única forma conhecida de imortalidade) e passar a viver para a eternidade como palavras impressas numa tela, numa folha, no relâmpago de memória que trouxer qualquer um de volta a esse momento, à essa hora da noite, 19h30m, simbólica ou não, quando decidi escrever o mais ambicioso texto de toda a minha vida. E ele fala dela com uma propriedade que nem mesmo ela (a minha) possui.
Agora, me odeie.
Corra como o vento, cale-se, é esse o momento, o tempo não importa para os que correm na noite roçando, rolando, caindo, um deslize só, pela grama seca, no despenhadeiro, no desespero, invadindo terrenos alheios, Você grita e eles te ouvem?, eles vêm com forcados, que eu sei, todos, na verdade, desejam nos ver enforcados, nós sabemos, mas não falamos, porque dói demais falar que nos odeiam, que nós odiamos, que passamos, que não seremos, quem não teremos, porque cremos, no fundo, nunca na superfície, que estamos fadados a um incompreensível e vazio destino dado, de nós esvaziado, que não estaremos nele como estamos hoje aqui, e incompreensível diante daquilo que ignoramos conhecer. E então os passos interrompem-se, a queda se vai, os nervos se rompem, calcanhares se partem. Você é Aquiles jamais banhado, pela mãe largado às margens do rio, menino, fugindo da água como qualquer pequeno, não passa de criança, por não querer se tornar puro, por ver no que é mais obscuro a única mão capaz de guiar-te rumo a um desconhecido que inflama a mente e o ventre, mas liberta as asas que nenhum de nós carrega às costas. E você acha que sabe voar, e tenta fazer o que sabe, não é?, porque te ensinaram como saber, disseram o que é que se usa para preencher a vida, os momentos, as alegrias, o que se adquire, as esperanças, e você acredita nisso, e recomeça seus passos correndo atrás do rabo da serpente que deixou traços prateados ziguezagueantes a te mostrarem o rumo de um suposto infinito, e você tem de acreditar no infinito, porque o que não acaba só poder ser bom, porque nunca foi visto, nem dito, e, se é um mito, não pode ser ruim. Que mente criaria um mito assim?, talvez se pergunte, talvez queira parar de correr e escutar os que vêm na direção contrária, esbarrando, roçando, rolando, caindo, de novo, sobre você quando não os vê, mas por que veria, afinal?, se estão contra a corrente que te leva, estão contra o que te empurra, e você urra, é que aqui a vida está acabando, bem onde começa, porque seu parto chegou ao fim e você pariu no mundo uma menina. E a ela repassou sua sina, mulher que vê maravilhas na vida. Agora que a tem nos braços, e não antes disso, é essa a hora em que deveria ter começado a gritar.
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