Por que, Cabral
quinta-feira, outubro 8th, 2009Você vê brotar a fonte dos desejos mais íntimos dentro de si, que se abre como aguaceiro de chuva e gelo degelando, inundando o chão dos músculos do corpo? Sabe, é tão mais fácil quando conseguimos dar nome às coisas, a isso o que é devido, àquilo o que lhe é de direito. O substantivo da dor é o advérbio preferido do amor. Não sei se me faço compreensível, quisera eu não ser, mas sento-me aqui, Cabral, peço esses três copos de coisa azeda e de gosto obscuro e me ponho a falar, a tombar os ombros, socar a mesa. Queres gritar comigo, Cabral, ou em mim, pergunto, Menino, o quê, questionas, Não sei, Cabral, a noite se abre a mim como as pernas de uma mulher, mas não estou de fora, estou lá dentro, ela quer me fazer sair, Cabral, e não quero sair, Chega de bebidas para você, Mas entenda-me, por favor, responda, entendes, pergunto, Estás bêbado e insone, vá para casa dormir, você diz. Cabral, antes costumavas ser mais luxuriante, que houve contigo? Há poças ali, vê só, poças que alumiam o chão refletindo a luz fresca da lua. Viu, Vi o quê, A luz fresca da lua, achei que tinha pensado nela em altas vozes, mas, Ei, o que vai fazer, você me interpela, Estou parando, De, outra questão, Não sei, mas se é melhor assim, se sinto-me mais solto e bom, é que devo parar, Mas não seria figurativamente apenas, Não sei, a rua é fria, tudo é frio, tudo é lindo, calmo, sereno, bom, ei, Cabral, apague a luz, está muito forte e bate nos olhos. Sei lá eu por quantas horas dormi, nem quem me trouxe aqui (provavelmente você, Cabral, velho), e só posso conjeturar os motivos de meu sangue estar mais doce. À beira da cama há uma janela que me dá para os jardins, donde sereníssimas borboletas e pássaros com piolhos entre as penas (têm mesmo) me observam e parecem cantar Oy, oy, se perdeu. São pássaros judeus, penso eu. Há bar mitzvá para os pássaros? Ou não é dado às aves o direito de viver seus treze anos e um dia nas graças do bom deus? Oy, que dor nas costelas, tem coisa aqui, me meteram ataduras pelo corpo, o que diabos deixaram acontecer comigo? E tem gente ali, olha, na cadeira frente à cama, e parece, senhor, não, Que foi, Mas que tipo de surrealidade é essa, pergunto, Não sei do que falas, Ei, quem é você, Não sei de quem falas, Onde está o Cabral, Ficou lá, Lá onde, Ficou lá. Ai. Ai, dormi de novo. Há morfina correndo aqui, eu sei que tem, só pode haver, nunca me dei bem com as farmacêuticas da vida, os remédios sociais, as drogas que metem-nos mente adentro para suportarmos os outros, a morfinice da sociedade, que parece dizer Tudo está bem quando seu corpo parece agradar aos olhos de quem pode ver e não há dor intermitente entre as quartas e quintas vértebras, nem suas pernas estão cansadas. O quê? Estou delirando e queria saber por que, hein, Cabral? O velho desgraçado que eu não conhecia e sentava-se à beira de minha cama disse que Cabral ficou lá, lá é a rua? Por que ele me traria até aqui e depois voltaria para a zona boêmio-fantasma do rio (mar pequeno e corrido de prédios, vá saber, não cidade)? Cabral, seu, você está tomando aquelas coisas amargas sem mim, tá com o álcool te inflamando, ei, Cabral, volta e me traz amargura pra vida, preciso beber, que será de mim? Tem pirilampos rodeando minha cabeça agora, coisas pipocando, senhor, será o fim? Oy. Mas quem deixou alguém colocar coisas metálicas na minha veia? Nossa, os pirilampos têm asas maiores e estão cuspindo fogo, não tenho tesouro enterrado, saibam, se forem dragões, e não pirilampos, não adianta me assarem, porque gastei tudo naquele bar ontem à noite. Ontem, o quê? Já é outro dia? Quem está me cutucando? Ei, você, pára com isso, não é direito, digo, mas não me escuto dizendo, Não dá mais, Não dá mais, pergunto, Hora da morte, O quê, exclamo, Nove horas e cinquenta e um, Oy. Na sarjeta do mundano-profano-estúpido-sujo, da pureza e do perigo, do círculo da vida, que é quadrado e não circular, graça, me pus a correr. Cabral, onde quer que estejas, tome uma última bebida comigo antes que ao que esteja morto não seja mais permitido viver com os vivos. Mas ainda é? Será que tenho chances de reaver o que não tive em vida tendo partido? Ou já acabou-se tudo e perdi, como jamais desejei perder? Não sei responder, não sei o que é certo, não sei onde estou, se estou, por que vim, como vim, nem tenho certeza de se havia pássaros judeus, velho e os pirilampos, ou se alucinava eu na casa de cura depois de um quase-morrer após aquela noitada, mas pergunto-me, e perguntando-me pergunto a ti, o gêmeo negro da alma branca que fraquejou e partiu-se, Cabral, que coisa de vida é essa que a gente não entende, que nos faz estar longe e, a cada vez que nos aproximamos, nos arremessa rumo ao nada e ao que é real e inútil e dispensável, quando não mais precisa de nós? Tem mistério a saber aí? Por que, Cabral?
Pastiche do Saramago. Sem mais.




