Luminus Obscuri: N’Anki vistu A’Harli

Esta é uma lenda dos primórdios do planeta Obscuri. Ela encerra o primeiro dos Jogos Textuais. Divirtam-se!
Mwali era o deus criador, ele fornicava com as estrelas, e os astros da constelação da Loba logo geraram seus filhos, Nanki e Ikatki, que desceram à terra em meio a colunas de fogo e fumaça. Quando nasceram o mundo se incendiou com o fogo vindo dos céus e se queimou por inteiro. Mwali, vendo a destruição causada pela chegada das duas crianças, enfureceu-se e desceu de seu trono no monte Harli, a Tenda do Trovão, tomando os filhos pelas mãos e os atirando de volta aos céus.
Quando Nanki e Ikatki chegaram à morada das estrelas deitaram-se com algumas delas e tiveram seus próprios filhos e filhas. Os filhos dos dois vagaram por todo o universo, indo habitar cantos distantes, povoando a escuridão com luzes e cores.
Em Harli, Mwali se sentia só, e tomou para si uma grande vara de madeira e com ela bateu nas montanhas, achatando-as até que virassem superfícies planas, e assim viu pela primeira vez o Sol, que antes se enscondia por detrás dos montes e não vertia sua luz no mundo. Pois Mwali criara tudo o que se vê e o que não se vê, mas o sumo da macaxeira, do qual se fazia o álcool que ele tomava, lhe afetara os nervos e muito do que foi feito ele esqueceu.
Mwali tomou, então, o Sol pelas mãos e tirou grandes pedaços dele, com os quais se lambuzou até que brilhasse dourado. E tanto queimava e brilhava Mwali que suava como um porco, e as gotas de seu suor caíram na terra, formando rios caudalosos e faiscantes que se enfiaram solo abaixo até chegarem ao umbigo do mundo, onde se resfriaram e endureceram; Lamko-mi anui’tot, “os rios de ouro que o Criador mijou”, foram chamados. Mas esse nome é um erro de interpretação, já que Mwali não tinha genitálias e sabe-se que usava seus dedos para fornicar.
Nanki e Ikatki desceram ao mundo habitado por seu pai muito tempo depois de terem sido lançados no Espaço. Entendiaram-se da vida entre as lácteas e supernovas e então decidiram reunir-se com Mwali para pedir abrigo em Obscuri. O retorno dos filhos foi chamado de Sui Kátchklan, “Segundo Expurgo”, porque Mwali, o pai, não queria-os vivendo no mundo e decepou a cabeça da Ikatki, jogando seu corpo para além das montanhas-janelas do Sol (a cabeça o pai a pendurou em volta do pescoço, como troféu). Nanki revoltou-se e passou a guerrear com Mwali, e da batalha dos dois surgiram os grandes sulcos que envolvem a vila dos jartan, a leste da capital de Obscuri, Mwambala-Katké.
No fim, Nanki derrotou seu pai ao lançá-lo para mais além das bordas do Universo, onde não existe vida nem forma e, portanto, só há a morte. Declarou-se senhor de Obscuri e trouxe seu irmão de volta dos domínios do Sol. Mas Nanki havia lançado a cabeça de Ikatki para o Lugar Inatingível junto a seu pai, e precisou fazer uma nova. Cavou os rios de ouro e pegou de lá os metais mais puros, subiu à Lua e recolheu sua poeira, tomou de empréstimo uma labareda do Sol e colheu o orvalho da manhã. Misturando tudo, cuspiu na tijela onde verteu a massa informe que daria origem à nova cabeça de Ikatki e a modelou até que ficasse digna de ser usada por seu irmão.
Tempos depois Nanki subiu a Harli e tomou posse absoluta do reino de seu pai. Já Ikatki jamais voltou a ser o mesmo, pois a chama do Sol consumia sua nova cabeça e fazia arder em seus pensamentos a vontade de voltar às suas origens, de fazer parte outra vez do Sol. E no fim acabou voltando, mas com ela foram as trevas do coração de Ikatki, que, solitário, menos sábio, poderoso e respeitado que o irmão Nanki, despedaçava-se em angústia e deixou que a escuridão que havia dentro de si apagasse até mesmo o brilho do Sol.
Este texto deveria ter sido postado há meses atrás, mas só o terminei hoje. Foi fácil e bom escrevê-lo, só demorei tanto porque minha vontade de escrever só voltou recentemente.
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setembro 22nd, 2009 at 15:45
Interessante, mas pode melhorar, né?
A tônica para mitos são os simbolismos, metáforas, conotações; não seja claro, seja mágico. ^^
setembro 22nd, 2009 at 21:03
Ah, vá! É um apêndice de conto, nem precisa de muita metáfora =P
Edu´s last blog ..Me joga no Google me chama de pesquisa e diz que eu sou tudo que você procurava!
setembro 23rd, 2009 at 1:34
Até que enfim! Como esperei por este texto, hein!
Já tinha desistido de vê-lo escrito!
Ainda tenho que ler mais algumas vezes para digerir as informações e ver se elas casam com o que já escrevemos.
Mas Putz! Que doido!
Smaily Prado´s last blog ..O Filme Eternográfico – Parte I…