Too old, too far

“Nossas vidas foram consumidas há muito tempo atrás”, ele disse. “Na época, eu ainda era jovem e havia qualquer coisa de saudável em mim; as coisas eram fáceis, não havia feitos impossíveis para quem acreditasse ser capaz de tudo e o futuro ainda existia como um sonho dourado distante, mas existente para todos nós, ao qual inevitavelmente chegaríamos ao final da jornada. No momento em que conheci Kari, ela não passou para mim de uma forma nebulosa e apagada, perdida em algum ponto sem importância da Terra, distante demais, alheia demais ao meu mundo para que o fato de a ter conhecido despertasse surpresa ou admiração excessiva.
“Ela usava um vestido creme, provavelmente, ou talvez camiseta e jeans, ou mesmo não usava nada, vai saber… eu não a vi para poder dizer como ela era, não escutei sua voz para compará-la à de alguma estrela de cinema, não senti seu cheiro para que exclamasse ‘Deus, como cheira a jasmim!”. Sei lá se cheirava a alguma coisa. Meu nariz, assim como meus olhos, ouvidos e mente, estava tapado para tudo o que não era eu — ou não era meu. E se ela trabalhava, se estudava, se não existia, para mim não faria diferença alguma naquela hora. E, de fato, não fez. Foi só tempos depois, muito tempo depois, que eu passei a me perguntar quem ela era, como era seu rosto, como se vestia, como andava, como falava; e também do que falava, do que gostava. Foi só anos depois que eu me senti incomodado por não saber o que, dentre tudo o que há no mundo, ela mais amava.
“E, nesse momento, quando me dei conta de que Kari se tornara insubstituível, foi só nesse momento que me dei conta de que, na verdade, eu a havia amado desde quando a conheci, mas nunca me permitira saber disso. Pois bem, foi tudo em vão. Não há nada mais a ser feito a respeito, apenas posso contar a história, passá-la adiante, sem saber exatamente porque o faço. Agora que meu câncer foi diagnosticado e eu sei o que me espera, assim como também sei aquilo que irei levar desse mundo, entendo que Kari — talvez nem mesmo a lembrança de Kari — irá comigo.”
“Não vejo como suas vidas foram consumidas”, eu disse. “Ah, isso foi quando a vi pela primeira vez, atrás do balcão da loja de botões. Na época, eu ainda era jovem e havia qualquer coisa de saudável em mim; as coisas eram fáceis, não havia feitos impossíveis para quem acreditasse ser capaz de tudo e o futuro ainda existia como um sonho dourado distante, mas existente para todos nós, ao qual inevitavelmente chegaríamos ao final da jornada.” “Você já disse isso”, interrompi. “Sim, eu sei, mas é aí que está a coisa toda, você vê?” Mas eu não via. Ele riu. “Não há mais futuro para nós dois, somos criaturas que existem apenas no passado, uma viva, a outra morta”, ele disse com paciência. “Nosso único futuro era o presente que poderíamos ter vivido juntos, mas que jamais veio.”
“Está errado”, eu disse. Ele me perguntou porquê. Respondi: “Quando se ama de verdade, velho amigo, não existe tempo perdido que não possa ser trazido de volta. O ontem, o amanhã e o hoje se tornam uma única coisa: são apenas outro momento em que sempre poderemos nos amar mais uma vez.”
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junho 10th, 2009 at 16:35
Eu já estava sentindo uma falta danada de seus textos… Como sempre gostei… Gostei do ponto de vista de quem ouve a história e acha que tudo é possível, mesmo sendo mais propícia a acreditar no contador do fato… Eu num sou adepta ao “tudo volta”… Mas é um texto ótimo.. Espero realmente que dê continuidade.
Amo-te guri!
junho 23rd, 2009 at 15:51
Já havia lido esse, mas quis comentar novamente e dizer que adoro. O significado é o que prefiro destacar. É um texto cheio de sentimento, e nada contido, você o demonstra, totalmente real como sei que é. Não deixe as pessoas irem para que virem lembrança, ainda que o drama do texto seja emocionante.
julho 26th, 2009 at 14:50
Sabe, acredito que o tempo tem suas diferentes marcações. Passamos anos longe de amigos de infância e quando os revemos é como se voltássemos àquilo que fomos há anos atrás, como se o tempo não tivesse passado. Como um velho quarto guardado dentro da gente, que por mais que fique fechado por décadas continua lá, aguardando.
Gostei muito do texto, passarinho.
Beijos e não suma.
Carmim´s last blog ...Vinte Anos.
julho 30th, 2009 at 17:22
Que lindo, Edu.
Sua visão romântica da vida é bonita. Ainda que você negue, e diga que tudo acaba do mesmo jeito para todos, “são apenas outro momento em que sempre poderemos nos amar mais uma vez.”
Lindo. Adorei.
E se você não comenta, eu comento!! =P
Beijos
Maira´s last blog ..Joe Kidd
novembro 2nd, 2009 at 19:11
[...] dos meus trabalhos têm traços das obras dele. Lembro de um em particular, a versão original de Velho demais, longe demais, microconto em 12 parágrafos de até 140 caracteres escritos para o projeto storify, da Bird, [...]