Uma visão e um sonho

Sonhe e veja

Este conto foi escrito hoje. No começo só tinha a frase inicial, “Normalmente eu não saberia dizer como essas coisas aconteceream”. A história surgiu espontaneamente, conforme eu ia escrevendo. É um texto grande, o primeiro conto longo que termino desde 2004 (ou algo assim), pra falar a verdade. Isaac Bashevis Singer me motivou a escrever isso :)

Normalmente eu não saberia dizer como essas coisas aconteceram — tudo se deu demasiadamente rápido. Um ou outro algo eu consegui compreender à época, mas o passar dos anos acabou fazendo com que me esquecesse até mesmo de algumas dessas únicas lembranças. É engraçado que ainda consiga contar alguma coisa.

Trabalhava em um jornal, para o qual escrevia contos duas vezes por semana. Meu editor, Art Blintze, sempre dizia que “o mundo precisava de histórias”. Naquele tempo eu ainda escrevia sobre demônios interiores e coisas assim. Os curtos cinco meses que passei na faculdade de psicologia, até quando da morte de minha mãe, haviam me convencido de que já estava apto a vender aos outros filosofias sobre eles mesmos.

Numa terça-feira à tarde fui ao jornal resolver um problema com um dos cheques de pagamento do mês e me encontrei com Art Blintze. Sua cara redonda, rodeada de tufos de cabelo amarelo, estava apreensiva e angustiada. Quando entrei em sua sala ele me deu um longo abraço e foi logo dizendo:

“Você… olha, acho que fiz uma bobagem, uma grande bobagem!”

“Que tipo de bobagem?”, perguntei.

“Veja bem… não, entre! Sente-se ali, vou fechar a porta.”

Durante os anos em que convivi com Art Blintze ele sempre havia feito bobagens. Certa vez, na juventude, havia engravidado uma garota e se empolgara tanto com a situação, desprendendo incontável atenção e cuidados excessivos a ela, que a moça se cansou e fugiu para ter seu filho longe dele, provavelmente com algum outro homem mais sóbrio que havia conhecido. De uma maneira bem característica Art Blintze parecia provocar as reações mais contraditórias nas outras pessoas. Mas essa e outras histórias eu sempre ouvi da boca de outros. Art jamais comentava algo sobre si mesmo, nem comigo, nem com ninguém, até onde eu sabia.

“Café?”, perguntou, “há chá também, leite, alguns biscoitos… ai, pelos Céus, garoto!”

“O quê?”

“Escolha logo algo, pegue… tudo certo, então. Olha, tenho de ser rápido, preciso falar depressa, porque é algo que não consigo mais guardar só pra mim, muito menos com você aqui. Veja bem, confio em você, hein, te conheço há anos! Sei também das coisas que você escreve, sou seu editor, já li de um tudo, então acho que você pode ajudar.”

“No quê?”, perguntei.

“Não interrompa!”, Art rugiu e jogou-se na cadeira giratória. “Desculpe, me desculpe… mas, menino, graças a Deus você apareceu por aqui hoje! Estive pensando o dia todo em telefonar pra você, mas tive vergonha de chamá-lo aqui, e então, então você aparece à minha porta! Me diga a que veio, tem assuntos a tratar? Isso bem que pode ser um sinal…”

“Sim… quer dizer, não. Talvez. Olha, eu não sei, Art, se…”

“Deixa!”, ele interrompeu, “essas conversinhas podem esperar. Preciso te perguntar uma coisa, não fique constrangido, só preciso saber disso para ter certeza de que vai entender bem o que vou dizer depois. Não vou te julgar, nunca faria isso. Então… vem cá, menino, você já esteve com mulheres? Hein?”

Não entendi direito a pergunta, e mesmo se a tivesse compreendido perfeitamente bem não adiantaria muito. Se já estive com mulheres? Ri por dentro por Art Blintze estar me perguntando aquilo. Parecia uma questão um tanto retórica. Onde ele queria chegar eu não fazia ideia, mas mesmo assim respondi, sem conhecer o rumo que a conversa iria tomar.

Disse que, sim, eu estivera com mulheres. Não muitas, especialmente não muitas das que valessem a pena  e que tinha certo conhecimento sobre o assunto, caso ele desejasse perguntar-me algo. Art Blintze pareceu ofender-se, e minha provável (embora não intencional) ofensa serviu para desanuviar momentaneamente seu semblante tenso.

Acendeu um charuto e a sala inteira impregnou-se com o cheiro forte de fumo queimado. Odiava aquela coisa, ainda mais quando eu e ela estávamos no mesmo lugar. Mas suportei o charuto e deixei que Art recomeçasse a falar.

“Não é isso”, ele disse, “faça-me o favor, garoto! Enquanto você ainda engatinhava eu já fazia outros que engatinhariam como… ai!”, e aí ele soltou um grito um tanto exagerado. “Isso me persegue, está até nas brincadeiras que faço! Escute bem, lembra-se que comentei sobre Mimie, uma que engravidei há muitos anos atrás?”

“Você nunca falou sobre isso”, disse, mas eu bem sabia de Mimie e do que havia acontecido com ela, como já disse.

“Certo, não diretamente, mas espalhei a história de que ela fugiu e não deixou que me aproximasse do garoto, nosso filho. Está lembrado? Deve ter ouvido isso de alguém.”

“Sim, ouvi.”

“Pois bem, é mentira. A gente inventa essas coisas, menino, inventa e espalha por aí porque nos faz bem, faz com que os murmúrios morram. Está entendendo? Certo… mas a verdade é bem outra.”

Art parou de falar e serviu-se de uma dose de uísque, cuja garrafa escondia dentro da gaveta da mesa. Eu já estava um tanto impaciente com tudo aquilo. Ainda conservava-se em mim algo da inquietação da juventude, “algo” porque, ao contrário do que Art Blintze podia pensar ao me chamar de garoto ou menino, eu já tinha lá meus quase trinta anos. E era ele, o editor de um pequeno mas respeitado jornal, quem parecia criança dessa vez, aparvalhado, inconstante e perdido. Pousou o copo à mesa e retomou a fala.

“Em 1931 eu era jovem e tolo. Melhorei um pouco de lá pra cá, mas não muito, estou percebendo agora. Acontece que conheci Mimie na matinê do cinema e me apaixonei por ela naquele exato instante. Isso às vezes acontece. Eu era um tanto devasso, devo confessar, e levei a coitada para a cama numa das primeiras oportunidades. Deu que ela engravidou, estava esperando um filho meu. Quis casar, é claro, mas eu não. Acabou que brigamos feio e meu caso com Mimie terminou bastante conturbado.

“Um dia estava no trabalho, na loja de tecidos do sr. Boyle, ali na esquina da 3ª com a 4ª avenida, quando recebi uma carta trazida por um mensageiro. Era de Mimie, dizia que ela havia abortado a criança e se mudado da cidade; nunca mais queria me ver em vida, escrevera. O que eu poderia fazer? Tentei contatá-la, mas não consegui. Então tive que acabar me conformando com a sorte e seguir vivendo.

“Bem, tempos depois tive uma espécie de sonho. Foi a primeira vez que sonhei desse jeito, mas não a última. Nunca há uma última vez para esse tipo de coisa, eu penso. O sonho você pode me dizer qual é.”

“Como é?”, perguntei, sem entender.

Art Blintze remexeu algumas das folhas que estavam sobre a mesa e me entregou um papel amassado e borrado. Era um conto meu, “Um bocado de pó”, se chamava. Devia ser publicado na próxima edição do jornal. “Leia”, disse Art. “Não preciso”, respondi, “é um conto meu, me lembro dele”.

“Está certo…”, ele falou. Seus olhos estavam bem abertos e atentos. “Você escreveu aí sobre uns sonhos, não é?”

“Como é? Não, são visões”, respondi.

“Que sejam, que sejam… elas são o que importa. Pode ler essa parte pra mim em voz alta?”

Li a passagem das visões, como ele havia pedido. Ao final Art Blintze estava meio chorando, meio gemendo. Eu, por minha vez, não sabia que reação esboçar. Aquelas visões do texto não eram chocantes, nem exageradamente dramáticas ou desoladoras. Os choros e gemidos eram, certamente, um exagero ou mostra de verdadeira comoção da parte dele, pensei.

“Isso é com o que eu sonho todas as noites, menino! Exatamente isso!”, disse Art. “Como pode algo assim? Você sabe dos meus sonhos, mas apenas eu, e mais ninguém, é que os conhecia até então. Isso me chocou — um garoto entrou na minha cabeça e pegou lá dentro algo que me atormenta há quase trinta anos! Como fez, me diga, como escreveu isso?”

“Não sei”, respondi, sem esconder a surpresa, “apenas escrevi, não há muita lógica no modo como faço esses textos.”

“Já sonhou com isso também? Hein?”

“Não.”

“Então, bom, só pode ter alguma coisa dentro de você. Ninguém que não fosse especial de algum modo poderia saber algo tão íntimo de mim, porque isso é meu, garoto, é coisa minha o que está aí, os sonhos que você transformou em visões. E visões de quê, de futuro? Não terminei de ler seu conto, me atrapalhei suficientemente só com essa parte…”

“É, sim, de futuro”, eu disse.

“Hum… pois não há futuro nisso, há? Não em mim, quero dizer. À noite, Morfeu, ou qualquer outro diabo que for, povoa meu sono com o nascimento do garotinho, seu primeiro caminhar, suas idas à escola, seus namoros na juventude… em certas noites essas cenas vêm até mim e me atormentam. Vejo de camarote a vida de um filho que nem chegou a nascer! Será que é assim que ele viveria se a mãe não o tivesse tirado? Com o tempo me arrependi por ela ter feito isso, pois fui eu, e não me orgulho nada disso, saiba de antemão, que sugeri a ela essa coisa e a ensinei como fazer. Não me leve a mal, hoje nem pensaria em algo assim! Mas, veja bem, talvez haja algo de bom nisso tudo… Não digo para a criança, meu Deus, é claro que não, mas para mim. A gente é mesmo egoísta, né?”

Parou por um instante, acendeu outra vez o charuto, serviu-se de mais uísque e recomeçou. Eu continuava a ouvir, ainda tentando imaginar como tudo aquilo poderia se encaixar na realidade.

“Pois bem, garoto, creio que eu jamais amaria aquela criança se ela tivesse nascido. Na verdade, há uma boa chance de que jamais desejasse que ela estivesse viva se de fato vivesse. Penso assim, talvez esteja errado, mas quem sabe Mimie não tenha feito um favor não apenas ao imbecil que eu era quando jovem, mas também ao velho emotivo e fraquejante que sou hoje… pelo bem ou pelo mal, foi ela quem formou meu caráter, posso afirmar sem medo de estar falando bobagem.

“Pois a bobagem eu fiz foi há anos atrás, ter pedido à Mimie que se livrasse da criança. Isso deve ter traumatizado a pobrezinha, isso e a minha falta de apoio e as grosserias constantes. Ela deve ter acabado preferindo tirar de dentro de si mesma aquele pedacinho de mim que só fazia crescer cada vez mais. Desgracei duas vidas, menino, a de Mimie e a de meu filho.

“Mas eu ainda rezo, sabe, e alimento alguma esperança de que ela tenha mentido para mim, dado à luz a criança e se escondido do porco que eu era. Hoje eu realmente amaria esse garoto, se estivesse vivo, mas precisei de décadas recebendo suas visitas noturnas, ou a de seu fantasma, para que aprendesse a amá-lo.

“Por isso, menino, seu texto mexeu tanto comigo, essa história que você conta sobre o pai que tem visões da vida do filho, do qual dizia não querer saber nunca mais. Me diga o que acontece ao fim do conto, preciso saber.”

“Bem”, disse eu, “os dois se encontram no final.”

“E se reconciliam? Vivem felizes?”

“Na verdade, não. Se você leu, sabe que nas visões o pai não via o rosto do filho, pois ele envelheceu, ficou diferente do que era, e o pai também. Nenhum reconheceu o outro quando finalmente se reencontraram.”

“Que história!”

“Mas tiveram uma boa conversa…”

“Sei… garoto, você acha que isso poderia acontecer comigo? Quero dizer, se por um acaso meu filho estivesse vivo, quem sabe eu lhe contaria tudo isso, sem perceber que ali, à minha frente, é ele quem estaria me ouvindo. E, da mesma maneira, ele não se daria conta de quem eu sou.”

“Penso que sim”, falei com sinceridade.

“É, eu também.”

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12 Responses to “Uma visão e um sonho”

  1. Lilian Says:

    Nem preciso repetir o que penso né?
    Gostei mto do texto, de conseguir visualizar a cena toda enquanto lia, o pai desnorteado contando ao filho desconsertado o que passava na mente dos dois… sem saberem quem eram.
    Ótimo… suas aulas estão produtivas rsss

  2. Diogo Says:

    Luke, I am your father.

  3. Bells Says:

    você ja sabe o quanto eu gostei. O que você talvez não saiba é o quanto eu costumo gostar do subentendido. Agora, eu posso ter uma idéia bastante aparende da história do texto. Mas eu não posso ter certeza absoluta, porque está nas entrelinhas e na interpretação. E a falta de certeza é algo profundamente instigador e tentador. E o que provavelmente você fez consciente ^^
    Parabéns!

    veja no blog do(a) Bells: Algo sobre herois e amor

  4. Carmim Says:

    Muito bom o texto, passarinho.

    Prendeu a leitura até o final, nem pareceu tão grande :)

    veja no blog do(a) Carmim: .O Quebra-Cabeça de Frank.

  5. TorUgo Says:

    Rapaz! Adorei, simplesmente, adorei!

    Muito bom! Uma escrita interessante, que prende! O conto é lido em poucos minutos! Sente-se o clima do pequeno conto e somos rodeados pela atmosfera.

    Poucos segundos antes de terminar eu já compreendera o sentido e apenas esperava uma confirmação! E a confirmação foi tão agradável! xD

    Adorei, muito bom mesmo! Muitos parabéns!

    ;D

  6. eduardo Says:

    nossa senhora, que texto…parabens! animal, senso de humor, perspiscácia e sentimento lá em cima..fantastico, meus parabesns

  7. Edu Says:

    @eduardo: obrigado mesmo, xará! =D

  8. Breno C. Says:

    Bom, como já falei para você no MSN, o conto ficou super legal, até mesmo para mim que curto descrições elaboradas de cenário. Você soube construir bem os personagens e escreveu de uma forma que cada fala era tão real quanto poderia. Em momento nenhum senti vontade de parar de ler e Deus sabe que me prender numa leitura tem se tornado algo impossível.
    Continue escrevendo, não é segredo nenhum a quantidade de talento você tem.

  9. Penny Lane Says:

    Adorei a atmosfera do texto Edu, ficou muito bom, eu consigo imaginar o olhar do garoto ao ouvir todas aquelas coisas.
    Você tem talento. :)

  10. Tauil Says:

    Edu, votei no seu conto lá no Meia. Achei muito legal o desfecho, ficou no ar aquela sensação de “puta merda!”, no bom sentido, claro. Relacionei teu blog lá no meu, vou visitar mais sua página.

    Abração!

  11. Ave, palavra: Isaac B. Singer (n°. 1) @ blackbird Says:

    [...] segunda tentativa de me tornar um Isaac B. Singer pós-adolescente foi com Uma visão e um sonho, que por enquanto é meu mais longo (há controvérsias) e melhor (outras controvérsias) conto. [...]

  12. Mamá Says:

    Já tinha lido, mas não comentado.
    Esse seu conto é realmente bem bom.

    Essa passagem “À época, eu ainda escrevia sobre demônios interiores e coisas assim. Os curtos cinco meses que passei na faculdade de psicologia, até quando da morte de minha mãe, haviam me convencido de que já estava apto a vender aos outros filosofias sobre eles mesmos” é incrível, talvez a melhor do texto todo!

    ^^
    post interessante no blog do(a) Mamá: Paris My ComLuv Profile

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