01abr
Luminus Obscuri (Jogos Textuais – Parte II)
Posted by Eduardo F. as Jogos Textuais, Meus textos

Você pode ler a primeira parte deste conto no Expressionando.
Eu andei pela rua, a chuva caindo sobre o meu rosto. Eu não via. Eu não via. O que pode ser sentido, mas não visto? O toque que eriça meus pelos e queima minha pele é um mero gesto na escuridão, que não é preenchida por nada. Estamos todos apagados, obscurecemos no exato momento em que nos perdemos de nós mesmos.
Eu alterno passos, penso e falo, mas ninguém me ouve, não porque não querem — talvez até seja, mas, mais do que isso, é porque não podem ouvir. O que um homem poderia dizer no escuro para que fosse entendido pelos outros, para que fosse acolhido por eles dentro de si? Aquilo que dizemos sai de nós para habitar ouvidos alheios, para nos fazer vivos e presentes na mente e no corpo das outras pessoas. Quando nos emudecemos, quando sumimos, também desaparecemos dos outros, rumando aos poucos pela estrada da desexistência, sem nenhum destino concreto pelo qual ansiar.
A chuva para. O cheio que paira no ar é de grama molhada recém-cortada. A grama é um conceito, saiba disso. Tudo o que conheço são categorias vazias agrupadas pelo pensamento dentro do crânio. Por que eu digo isso? Porque jamais vi coisa alguma que existisse refulgindo, esmaecendo, tremeluzindo ou fluorescendo por aí sem que, para que fosse revelada, necessitasse da luz pálida, persistentemente pálida, que brota das entranhas dos homens. É deprimente o fato de tudo depender de nós para existir a olhos vistos.
Alguém esbarra em mim enquanto ando. Dá para ver em seu rosto luminoso uma expressão de surpresa surgir, mas ele não se detém por muito tempo e logo continua a caminhar. A mesma cena se repete umas duas ou três vezes. Quanto mais perto estou dos que me rodeiam, mais distante me faço deles. Sou uma lâmpada que deixou de brilhar, uma sombra que se aconchega nas trevas e permanece oculta aos olhares alheios. Não importo… o que me faz concluir que nenhum homem tem importância, apenas as luzes que emanam dele.
O que perdi quando deixei de ser igual aos outros de minha espécie foi mais que a luminescência natural dos lumini: eu me separei dos meus, me afastei da manada, me distanciei de tudo o que conhecia para viver em um lugar que apenas eu compreendo, pois lá apenas eu estou. Vivo enfurnado no meu mundo particular, às voltas com os assuntos, dúvidas e medos que ainda me restam, já que tudo aquilo que não posso ser está apagado para mim, e aquele que um dia fui se extinguiu dentro deles.
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- Tags: Escuridão, Jogos Textuais, Luminus Obscuri, Luz
4 Responses to Luminus Obscuri (Jogos Textuais – Parte II)
Bells
março 30th, 2009 at 14:57
A história é perfeita e muito significativa.
É interessante o jeito como só somos lembrados pelos atos e pela aparência e não pelo que apenas somos.
É como se a luz fosse a representação que fazemos, todos os dias, de nós mesmos.
Estou adorando!
Lilian
abril 1st, 2009 at 19:45
Concordo plenamente com a Bells. Como se não bastasse ser um texto gostoso de ler, cada trecho pode ser comparado ao dia a dia rotineiro que temos que viver.
O fato de vcs estarem colocando em primeira pessoa faz com que brote uma identificação imediata com o personagem de forma que nos envolvemos mais ainda.
Começaram muito bem.
Acompanhamento constante!
Parabéns guri!
=*
Marcell
abril 2nd, 2009 at 18:23
Estou meio que migrando do expressionando pra ler a continuação aqui.
Segunda parte muito boa, estilos de escrita bem diferentes.
Continuarei atento pra ver como se desenrola a história.
Expressionador
abril 3rd, 2009 at 18:25
Esse visual do Blackbird ficou muito bom! Faz juz ao ‘black’ do nome.
veja no blog do(a) Expressionador: J.T.: Luminus Obscuri – Parte I…