Se você soubesse…

Se eu pudesse voar, não voaria. Não há graça, nem poder, nem novidade alguma no vôo, nem beleza em se ter asas ou majestade em saber usá-las, pois tudo é silêncio, e nem mesmo o bater das asas perturba a quietude. Nenhum sopro. Se fechar os olhos, não sentirá a brisa dançando em seu rosto, enrolando-se em seus cabelos, fazendo arder as pupilas e engedrando lágrimas que rolam, rolam e rolam até caírem e tocarem o chão, saciando a sede que têm, mesmo sendo água, de algo firme onde possam repousar. É a vida, é o tempo, o vento, o paradoxo do nada que abraça a nossa existência, afagando-a mortalmente, fazendo brotar fontes de esperança até mesmo na mais árida das mentes. Tudo é produto da desexistência, da desistência: desistimos da vida no momento em que nascemos. Nos apegamos à causa dos outros, à cauda dos outros. Esquecemos para sempre quem nos deu o empurrão que nos fez sair do vazio e adentrar o mundo. Esquecemos de tudo. Imaginamos desculpas, imaginamos pés mais fortes, asas mais brancas, vôos maiores. Nunca alcançamos nada, nem jamais alcançaremos. Não se trata de saber, fazer ou acreditar. Não se trata de ser, possuir ou poder. Tudo existe por causa da insustentável leveza dos seres. É o vazio do homem que alimenta o amanhã e justifica aquilo que passou: sua simplicidade, desconfiança e medo. Se não houvesse isso, então o que haveria? O desafio de ser mais algum dia descola nossas mentes da normalidade e nos impulsiona a andar por estradas que odiamos, a agir de maneira que não aprovamos, tudo porque somos tão vazios quanto aquilo que nos cerca e, ao mesmo tempo, tão cheios de ecos que reproduzem dentro de nós nossas infinitas possibilidades que a impossibilidade de hoje desaparece diante da inconcretude do dia que virá amanhã. Se ainda há para nós esperança ela é exatamente aquilo que nos torna menores e piores, aquilo que nos faz tão perdidos e desconexos. A esperança é preencher o vazio: orquestrando o silêncio, produzir sons magníficos. A esperança é descobrirmos que não há nada mais maravilhoso que ser incompleto e procurar por toda a existência as peças que se encaixam em nós. No fim saberemos, se tentarmos, que aquilo que procuramos é aquilo que todos procuram — estamos unidos pela busca. Estamos unidos, curiosamente, pelo desconhecido. Se fôssemos todos perfeitos, compartilharíamos nossas perfeições. Não somos. Compartilhamos nossas esperanças. Mais vale sonhar voar que o vôo em si, e não há nada que não possa ser sonhado.
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