Too old, too far

10 jun 2009 Em: Contos, Meus textos, Prosas

Echoes

“Nossas vidas foram consumidas há muito tempo atrás”, ele disse. “Na época, eu ainda era jovem e havia qualquer coisa de saudável em mim; as coisas eram fáceis, não havia feitos impossíveis para quem acreditasse ser capaz de tudo e o futuro ainda existia como um sonho dourado distante, mas existente para todos nós, ao qual inevitavelmente chegaríamos ao final da jornada. No momento em que conheci Kari, ela não passou para mim de uma forma nebulosa e apagada, perdida em algum ponto sem importância da Terra, distante demais, alheia demais ao meu mundo para que o fato de a ter conhecido despertasse surpresa ou admiração excessiva.

“Ela usava um vestido creme, provavelmente, ou talvez camiseta e jeans, ou mesmo não usava nada, vai saber… eu não a vi para poder dizer como ela era, não escutei sua voz para compará-la à de alguma estrela de cinema, não senti seu cheiro para que exclamasse ‘Deus, como cheira a jasmim!”. Sei lá se cheirava a alguma coisa. Meu nariz, assim como meus olhos, ouvidos e mente, estava tapado para tudo o que não era eu — ou não era meu. E se ela trabalhava, se estudava, se não existia, para mim não faria diferença alguma naquela hora. E, de fato, não fez. Foi só tempos depois, muito tempo depois, que eu passei a me perguntar quem ela era, como era seu rosto, como se vestia, como andava, como falava; e também do que falava, do que gostava. Foi só anos depois que eu me senti incomodado por não saber o que, dentre tudo o que há no mundo, ela mais amava.

“E, nesse momento, quando me dei conta de que Kari se tornara insubstituível, foi só nesse momento que me dei conta de que, na verdade, eu a havia amado desde quando a conheci, mas nunca me permitira saber disso. Pois bem, foi tudo em vão. Não há nada mais a ser feito a respeito, apenas posso contar a história, passá-la adiante, sem saber exatamente porque o faço. Agora que meu câncer foi diagnosticado e eu sei o que me espera, assim como também sei aquilo que irei levar desse mundo, entendo que Kari — talvez nem mesmo a lembrança de Kari — irá comigo.”

“Não vejo como suas vidas foram consumidas”, eu disse. “Ah, isso foi quando a vi pela primeira vez, atrás do balcão da loja de botões. Na época, eu ainda era jovem e havia qualquer coisa de saudável em mim; as coisas eram fáceis, não havia feitos impossíveis para quem acreditasse ser capaz de tudo e o futuro ainda existia como um sonho dourado distante, mas existente para todos nós, ao qual inevitavelmente chegaríamos ao final da jornada.” “Você já disse isso”, interrompi. “Sim, eu sei, mas é aí que está a coisa toda, você vê?” Mas eu não via. Ele riu. “Não há mais futuro para nós dois, somos criaturas que existem apenas no passado, uma viva, a outra morta”, ele disse com paciência. “Nosso único futuro era o presente que poderíamos ter vivido juntos, mas que jamais veio.”

“Está errado”, eu disse. Ele me perguntou porquê. Respondi: “Quando se ama de verdade, velho amigo, não existe tempo perdido que não possa ser trazido de volta. O ontem, o amanhã e o hoje se tornam uma única coisa: são apenas outro momento em que sempre poderemos nos amar mais uma vez.”

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Uma visão e um sonho

6 mai 2009 Em: Contos, Meus textos

Sonhe e veja

Este conto foi escrito hoje. No começo, só tinha a frase inicial, “Normalmente, eu não saberia dizer como essas coisas aconteceream”. A história surgiu espontaneamente, conforme eu ia escrevendo. É um texto grande, o primeiro conto longo que termino desde 2004 (ou algo assim), pra falar a verdade. Isaac Bashevis Singer me motivou a escrever isso :)

Normalmente, eu não saberia dizer como essas coisas aconteceram — tudo foi demasiadamente rápido. Um ou outro algo eu consegui compreender na época, mas o passar dos anos acabou fazendo com que me esquecesse até mesmo de algumas dessas únicas lembranças. É engraçado que ainda consiga contar alguma coisa.

Trabalhava em um jornal, para o qual escrevia contos duas vezes por semana. Meu editor, Art Blintze, sempre dizia que “o mundo precisava de histórias”. À época, eu ainda escrevia sobre demônios interiores e coisas assim. Os curtos cinco meses que passei na faculdade de psicologia, até quando da morte de minha mãe, haviam me convencido de que já estava apto a vender aos outros filosofias sobre eles mesmos.

Numa terça-feira à tarde, fui ao jornal resolver um problema com um dos cheques do pagamento do mês e me encontrei com Art Blintze. Sua cara redonda, rodeada de tufos de cabelo amarelo, estava apreensiva e angustiada. Quando entrei em sua sala, ele me deu um abraço e foi logo dizendo:

“Você… olha, acho que fiz uma bobagem, uma grande bobagem!”

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How do you mind a broken soul?Pare com os gritos,
as guerras, os mitos,
abra seus olhos, veja
o mundo restrito,
escondido atrás do muro
dos sonhos infinitos.

Você consegue ouvir
os sons do passado?
Eles contam a glória
de homens sepultados,
bom seria se hoje
estivessem ao seu lado.

Há sangue no muro
das almas divididas,
escorrendo das falanges
dos espíritos abatidos.
Quanto mais poderá
uma alma sangrar?

Mãos recolhidas,
palavras contidas,
por que esconder
o que se deve ver?
Abra os olhos,
não há nada a temer.

O que é real, é real,
o que é fé, é fé,
não há nada no mundo
que não seja o que é,
nenhuma coisa especial
além do que é real.

Aquilo em que acredita
faz o que você é por dentro:
uma esperança, uma lenda,
um homem que não se renda.
Quem saberá dizer
o que você vai se deixar ser?

Sangue no muro, palavras escritas
com letras vermelhas
que jamais serão ditas.
Para que falar, se é melhor fazer?
O futuro é escarlate
para eu e você.

Terminam as almas
como tijolos no muro,
argamassa que tampa os furos,
esconde a luz, conjura o escuro.
No horizonte perdido o sol ilumina
a muralha vermelha, nossa mútua sina.

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No topo da montanha mais negra, às voltas com os mais escuros assuntos

Este texto foi escrito com a ajuda inestimável de Bohemian Rhapsody, do Queen.

Invertemos a ordem de postagem dos Jogos Textuais. Agora, meus textos saem aos domingos, e os do Smaily, às quartas.

Acompanhe as partes anteriores deste Jogo Textual postadas no Blackbird e no Expressionando.

Boa leitura, e pode beijar a noiva!

Quando parei de correr meus pés doeram, pontadas agudas que indicavam que meus limites haviam ficado para trás. Havia me excedido. Do topo do monte olhei para baixo, uma selva verde (verde?) de cipós enovelados e folhas reluzentes me cercava por todos os lados. Passara por ela naturalmente, sem me dar conta de para onde estava indo.

É à minha frente, no cume da pequena montanha, que ele está. Seus poros exalam o gás incandescente dos lumini, fios de vapor se condensam ao seu redor e o fazem brilhar. Mas é um brilho distinto de todos os outros, mais fraco, mais gasto, como se o tempo ou o que quer que fosse o tivesse tornado pálido, mas nem assim menos poderoso, menos vívido.

Ele estende a mão e me toca a face. “Frio”, diz. Não compreendo. “Como foi?”, ele pergunta. Meu silêncio e minha dúvida parecem irritá-lo. Sua mão pousa em meu ombro. Algo arde em mim, como se roçasse minha pele, adentrasse os músculos, penetrasse os ossos e chegasse ao espírito. Sinto cócegas na alma.

“Não entendo”, digo a ele. “Sei que não. Talvez a queda o tenha alterado, talvez, quem sabe, jamais possa se lembrar das coisas que fez…”. Não entendo, agora penso apenas comigo. Akin, esse era o nome? Talvez tenha escutado errado. Pergunto-lhe quem é. “Nanki”, diz. Tanto faz, não importa… deuses que há na terra e no céu, sou um perdido. Sou escuro, sujo, fétido, pútrido, e à minha frente há um elo com o passado, um elo com o indizível, que parece saber de mim mais do que eu mesmo sei; e não há como escapar daqui, fui eu mesmo que o segui, dei os passos rumo à sua direção… deuses do céu e da terra, o que é isso? Exclamo.

Ele parece ouvir tudo, perscrutar a minha mente. Ri algumas vezes, outras apenas abre um sorriso e observa meus olhos se moverem, leitosos, da esquerda para a direita. “Ikatki”, me diz, “esse é o nome com o qual nasceu”. “Um deus?”, pergunto. Ele ri gostosamente; suas mãos tocam as minhas e as apertam. “Continua chamuscado, pode-se só olhando para você”, fala. “Mas não foi sempre assim”, eu digo, relembrando a época em que era como os outros. Ele, pacientemente, diz: “Sempre foi”.

“Não”, reajo. Ele me cala com um olhar e fala mais uma vez: “Só porque você brilha por fora, não quer dizer que toda essa luz esteja dentro de você”.

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Just flyNós temos aqui o essencial para sermos felizes. Senhoras e senhores, eu lhes apresento o amanhã, e aproveito para entregar-lhes algumas pequenas pitadas da essência da vida.

Respire e sinta seu corpo arder. Que seja eterno o ar que te rodeia, que seja ilimitado. Mas tanto faz. Você vê o ar? Não, então, do mesmo modo, não precisa ver mais nada. Sua existência depende do invisível, todos nós dependemos dele. Não é aquilo que conseguimos tocar e sentir o que é mais essencial para os nossos dias, mas tudo o que se mantém oculto a nós, difuso nas sombras ou envolto em luz que cega e impede a visão. Eu sei, e você também sabe, que aquilo que mais amamos estará para sempre ausente de nós. E é exatamente isso o que nos faz amar, é isso o que suscita nossas maiores emoções: a saudade, a perda, o voo que não pressupõe retorno.

Você ama e eu amo. Estamos de acordo, então tudo está bom. Sabe, eu poderia dizer que morreríamos no exato momento em que deixássemos de amar, mas isso não faz sentido, então não seria verdade, mesmo sendo algo bonito. De um modo geral, as coisas belas não são verdadeiras. O que é certo (tanto correto quanto real) é o que não é perfeito, aquilo que não está acima de todas as outras coisas. Olha, sou cético quanto ao modo como lidamos com nossas vidas e com esse mundo, mas posso afirmar que, do alto de toda a nossa imperfeição, somos completos exatamente por não o sermos. Eu explico, se houver necessidade.

Veja bem, nós temos aqui o essencial para sermos felizes, e “aqui” é o mesmo que “dentro de nós”, no mais interiorano espaço que há em nossos corpos, no mais íntimo pedaço de nossas mentes. O que eu, particularmente, procuro e espero encontrar são alguns fragmentozinhos de mim que se perderam nas inúmeres viagens que fiz. Há quem os enxergue nas ondas do mar, nos grãos de areia das praias, nas folhas das árvores ou nas nuvens do céu. No meu caso, vejo as borboletas e lírios e sei que há ali algo especial, que, na verdade, não é exatamente uma parte minha que finalmente reencontrei — é mais algo de fora, que, ainda bem, aprendi a guardar dentro de mim. Isso é tudo o que basta.

Uma observação sensata, deixada apressadamente ao final do texto: o que você é faz dos outros o que eles são, e vice-versa, o que significa que todos somos extraordinários graças à sua própria capacidade de ser insubstituívelmente única.

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Brilhe

Acompanhe as partes anteriores deste Jogo Textual postadas no Blackbird e no Expressionando. Boa leitura, e obrigado por todos os peixes!

Ikatki era um deus ou algo assim. Sinceramente não sei dizer o que ele era, jamais dei importância a esse tipo de coisa antes, mas…

A lenda sobre Ikatki dizia que ele havia apagado o globo incandescente (no momento não me recordo muito bem, mas há poucas chances de ter sido um retângulo) que iluminava nosso planeta. Por quê? Porque ele se sentia só. Como é? Também não compreendo. Alguém que se sinta só jamais irá querer ver extinguida a luz, certo? Parece que não para ele.

Talvez Ikatki tenha sido o primeiro dos lumini a andar por aqui; e talvez ele tenha escolhido enegrecer-se e confundir-se com a escuridão para jamais ser notado, para que pudesse continuar sozinho pelo resto de seus infinitos dias, pois assim lhe seria mais prazeroso, seria mais… como posso dizer? Talvez você saiba: quando está sozinho, você tem sede de quê?

Tenho sede de água. Em minha solidão espontânea, desejo apenas água. Sorvo alguns goles do lago que me rodeia. Curioso, não me dei conta, mas estou no meio dele, cercado por águas que tocam minha pele e me fazem sentir imerso numa profusão de mares interiores, ou outras coisas molhadas assim, dos quais não tenho ciência. As estrelas refletem-se na superfície do lago. Chamo estrelas aquilo que não tem nome, os pontos brilhantes acima de mim que nenhum de minha espécie jamais enxergou. Sou privilegiado, sou condenado, sou agraciado, sou podado. Eu sou.

Ikatki me vem à mente mais uma vez. Ele tinha um irmão, não lembro qual o seu nome… talvez Nanki ou Akin, realmente não sei. Nas lendas, Akin tomou para si uma última porção do fogo do grande astro, antes que seu irmão o apagasse, e incendiou-se a si mesmo, tornando-se a única luz desse planeta. Se Ikatki foi, em corpo, o primeiro dos lumini, Nanki foi nossa primeira alma.

Gostaria de saber se as lendas são verdadeiras. Será que as estrelas presenciaram todos esses feitos? Elas sabem? Mas, se não for verdade, o que aconteceu conosco e com o mundo em que vivemos, onde se refugiou o fogo que consumia o vazio escuro que está além do que vemos?

A água escorre pelo meu corpo, as estrelas ainda brilham sobre mim. Eu fecho meus olhos. Ainda posso vê-las.

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Lightcats

14 abr 2009 Em: Meus textos, Poesias

black_blue_bird_lhaq

Há certo tempo, eu amei uma garota. Esse tempo foi hoje.

Feche seus olhos
e eu te guiarei
em meio aos campos,
às montanhas
e ao mar,
rumando
para o infinito,
mas passando antes
em casa
para apanharmos tudo aquilo
que levaremos conosco
e abandonarmos o resto.
Feche seus olhos
e eu te mostrarei
um lugar onde descansar
em paz,
sem nada ao redor,
com tudo
dentro de você mesma.
Não é nada de novo,
não é nada perfeito,
mas é vivo, quente
e estranhamente
poderoso,
e igualmente
luminoso,
como uma chuva de estrelas
ou o revoar de mil vagalumes
que se desprendem da terra
e voam até as nuvens do céu,
chocando-se,
tocando-se,
enquanto fazem brilhar
o mais escuro do firmamento,
enquanto apontam o caminho
que nós dois iremos trilhar.
Mantenha seus olhos fechados
enquanto eu te mostro cores
que só podem ser enxergadas
pela alma.
Aquilo que os olhos não vêem
eu sempre poderei te mostrar
com o coração.

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Asas mais fortes

13 abr 2009 Em: Meus textos, Pensamentos

Foi algo que você comeu?

Continuamos com a programação dos pensamentos blackbirdianos.

Liberto é o corpo de quem voa e bate as asas como a borboleta, como os grandes icebergs. Não importa se nada voa, não importa se a surdez é mórbida, se estou triste e você feliz — se fumo Marlboro e você Carlton. É sempre a grande questão do voo e do bater das asas de borboleta e criaturas afins, os furacões que provocam e todo o resto. Isso é liberdade. Isso é mudança. Isso é o vento.

Todas as outras questões são todas as outras questões, que são basicamente responsáveis por si mesmas e as dúvidas que criam. Não existem, esqueça. Não há nada de novo que voe. Só existe borboletas. Os pombos são borboletas crescidas — galinhas, borboletas que comem milho.

Inventivo é um adjetivo para o lunático que conta as horas a partir de pôres-de-sol. Cada um é uma hora, a gente sabe. Incrível, fantástico e tenebroso. 6206 horas de vida me separam do meio até a ponta do início. Algumas outras tantas do dia em que a borboleta irá esquecer-se como voar e sumir. Viveu. Desapareceu. Voou e foi feliz.

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Humpf

… apenas tentando voltar pra casa?

“Quando se vive solitariamente para sempre, quando se tem controle sobre toda a existência alheia, quando nada pode ferir-nos, ainda assim não somos completos, e só nos encontramos de verdade quando compreendemos que todas as nossas dúvidas e receios nada são além da vontade de sermos amados um dia.”

É uma história real.

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Me desculpe, mas você não está preparado para ser quem é

Você pode ler a primeira e a terceira parte deste conto no Expressionando.

Um borrão atravessou a rua, alcançou a calçada do outro lado. Estava frio. Que engraçado, faz frio aqui. Sempre fez?

Trombava com as pessoas, resvalava seus braços, nossas pernas se tocavam, éramos corpos móveis que se cruzavam no espaço infinito do vazio de uma ausência não notada. Divago. Seguia devagar, sem pressa, apenas pensando, o dedo tocando o nariz, remexendo-o. Estranho, eu posso fazer minhas próprias coisas, não mais sigo o que os olhos dos outros apontam, nem seus olhares apontam para mim.

Topei com uma senhora esperando um táxi. Seu curpo nu e brilhante à minha frente me despertou desejos. Quis acariciá-la, podia fazê-lo, ninguém jamais saberia que fui eu, nenhuma forma era distinguível em mim, apenas os contornos da escuridão… e nada mais. Desejei seus seios. Senti um perfume quente vaporizando-se no ar ao redor dela. Sua boca era pálida. Ela carregava uma bolsa, aberta, como se não houvesse perigo algum. Mas não havia, não é?

Desisti de fazer algo. Roubei um cigarro de dentro da bolsa e o acendi com o corpo da mulher. Fagulhas de luz e calor deram vida ao cilindro de papel que me apressava a vida e nicotinava o meu interior. O brilho vermelho da ponta do cigarro iluminava minha face. Deparei-me comigo mesmo na vitrine espelhada de uma loja. Era como um espírito ruim de nossas antigas crenças, um vjibuk que almoçava crianças ou um tratki que abusava das senhoras desprevenidas. Eu…

Joguei o cigarro na calçada, não o queria mais. Continuei andando até chegar ao meu destino, até avistar as portas entreabertas da clínica. Entrei e anunciei meu nome — as recepcionistas tiveram medo da voz do invisível. Ri e expliquei minha situação. O medo aumentou. Estúpidas, pensei. Quis sumir, adentrar uma floresta e me perder em meio a árvores, lama, animais e riachos. Quis ser selvagem, porque não faria diferença ser ou não: não posso escolher o que querem que eu seja.

Me encaminharam à uma sala de espera escura. Tudo é escuro, a propósito, não sei porque pontuo essas observações. Aguardei minha hora e me chamaram para o consultório. Sentei-me no divã, esperei por instruções, comecei a falar sobre minha trajetória do hospital até aqui. É só isso, não há mais nada.

E agora, o que vem depois?

“A sessão terminou.”

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sobre o blackbird & eu


Ah, o cansaço! O que mais dizer sobre tudo aquilo que fazemos? O que mais dizer, vejamos, sobre este blog? Tudo é apenas mais um outro cansaço, porque nada é um ponto final. Apenas nos cansamos cada dia mais, enquanto buscamos respostas para nossas menores (ou maiores, se tivermos alguma ambição) dúvidas, aquelas questões que nos afligem dia após dia e para as quais não encontramos respostas em lugar algum, simplesmente porque não existem. Não, eu não sou sádico, isso é a verdade. Não há nada que possamos fazer, a não ser... nos cansar mais enquanto tentamos encontrar respostas. E, Deus, isso é tão terrivelmente bom, essa fadiga é tão reconfortante, que continuo correndo em círculos, buscando certas coisas em que acredito e acreditando em outras que nunca virão. E o que poderia fazer? Tudo isso é um desafio, imposto por nós à nós mesmos. E, embora talvez nunca o vençamos, mais vale sonhar com o pódio que realmente conquistá-lo. Uma conquista sempre pode ser esquecida, mas a morte jamais chega para os sonhos: eles são à prova do tempo, dos outros, do mundo e de todo e qualquer cansaço que possa nos fazer desacreditar.

Eduardo Furbino, o Edu. 19 anos. Está em Belo Horizonte, MG. Gosta de filmes, livros e música; histórias, amizades e viagens; comida italiana e bebidas quentes.


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Citações

"Em nossa obscuridade, no meio de toda essa imensidão, não há nenhum indício de que, de algum outro mundo, virá socorro que nos salve de nós mesmos" — Carl Sagan

"Ninguém deve ser elogiado pela sua bondade quando não tem forças para ser mau" — François de La Rochefoucauld

"Todo ato de bondade é uma demonstração de poder" — Jeremy Bentham

"Quando procuro o que há de fundamental em mim, é o gosto da felicidade que eu encontro" — Albert Camus

"O importante não é aquilo que fazem de nós, mas o que nós mesmos fazemos do que os outros fizeram de nós" — Jean-Paul Sartre

"Dentro de nós há uma coisa que não tem nome, essa coisa é o que somos" — José Saramago

"Nós sabemos o que somos, mas não sabemos o que poderemos ser" — William Shakespeare

"Não é sobre escrever. É sobre os sentimentos por trás das palavras" — Ikkaku, Hosaka e Kawabata