Posted by Eduardo Furbino in Artes, Concurso de Melhor Prosa & Poesia, Literatura, Projetos | 0 comments
Melhor Prosa & Poesia: Novembro ‘09
O Concurso de Melhor Prosa & Poesia Bird premia os textos postados no clube Sociedade dos Poetas Vivos, do Fórum Bird, eleitos como os melhores do mês por votação aberta a todos os membros registrados na nossa comunidade. O prêmio consiste em ter sua obra publicada aqui, no Portal Bird.
Veja os tópicos com todos os textos concorrentes: Prosas e Poesias.
Nesta 2ª edição do Concurso, o vencedor da categoria Poesia foi Edu, com o poema “Se eu dissesse” e os da categoria Prosa, Urubu Rei e Bruno ‘Poeta, com os textos “Ao amor eterno e universal” e “A insônia“, respectivamente. Abaixo estão os textos dos autores premiados:
Se eu dissesse
por Edu
eu falo muitas coisas
que você não consegue ouvir,
abro muitas portas
pelas quais você não vai seguir,
e enquanto faço,
canto e
tento,
eu sigo,
livre como sou,
sozinho como estou,
apenas – eu – sigo.
há sempre um elo que nos liga
àquilo que não sabemos o quê.
eu, eu
sempre tentei ver além,
mas, nunca contente,
me exilei de tudo,
e não enxerguei que tudo
é apenas um estado
de mim, que não sou eu,
de você, que não sou eu,
de nós, que não sou só eu.
se voltar significa reconstruir,
eu voltarei hoje e também amanhã.
volto porque acredito,
acredito porque sei.
e, um dia, ainda abro as portas
para você passar,
eu, que não conheço muitas coisas,
mas ouço o que falo
e sei o que você diz.
eu, que te conheço,
eu, que te enxergo,
eu, que amo o que sei
e sei que o que vejo
é apenas
você.
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Ao amor eterno e universal
por Urubu Rei
O amor tem feito coisas
Que até mesmo Deus duvida
Já curou desenganados
Já fechou tanta ferida
O amor junta os pedaços
Quando o coração se quebra
Mesmo que seja de aço,
Mesmo que seja de pedra…
— Ivans Lins
Sente-se à mesa Marie. Está na hora de comemorar. Não vamos deixar que o champanhe esquente. Ele sempre deve ser servido gelado. Logo você, sempre tão atenta as convenções sociais, vai querer tomar o champanhe morno? Nem morno e nem quente. Será que foi esse o nosso problema, Marie, ma chéri? Não Marie, não me chame de cínico. Você foi realmente muito querida, e agora eu também te quero. Só que te quero longe de mim. Mas eu ia dizendo que será que esse foi o nosso problema? A relação amornou? Se ela tivesse gelado nos poderíamos ter tentado esquentá-la de novo. Mas morno não é frio e nem é quente e nós não nos demos conta disso. E quando ainda era tempo de tentar esquentar nós nos perdemos de vez. Você sabe em que ponto da vida nós nos perdemos, Marie? Não? Achei que você ia responder isso mesmo. É. Eu também não sei. Ou não me lembro, tanto faz. Se um dos dois lembrasse talvez nós pudéssemos nos encontrar de novo, mas agora é tarde demais. Mas não chore Marie, per Dieu. Decadence avec elegance, não é assim que você sempre falava? Talvez esse tenha sido o problema, afinal. Nós devíamos ter perdido a elegância mais vezes. E não se sinta culpada sozinha. A culpa, se é que houve culpa, foi de nós dois ou de nenhum, isso eu não sei. Só sei é que agora é tarde. Beba Marie. Beba o champanhe e comemore a vida nova a partir de agora. Je vous salue Marie! Pela última vez.
Ach Maria! Não chore! Não torne amarga essa boa cerveja com a qual nós nos despedimos. É uma cerveja cara, como as que eu comprarei a partir de agora. Aliás, se você pudesse me dizer para que nós economizamos dinheiro eu ficaria contente. Há quanto tempo não viajamos, ou reformamos a casa, ou compramos um carro novo? Dinheiro não houve em excesso, mas também nunca faltou. Mas não chore mein liebling. Sim, você foi muito querida e amada. E aqui também não há cinismo nenhum de minha parte. Céus Maria, como você insiste em sempre entender errado o que eu digo! Gott in himmel! Mas, como eu nunca me fiz entender direito, a culpa também é minha. O que eu disse é que fräulein Maria foi muito querida e amada. A verdadeira, a que ficou para trás. A mulher que está aqui hoje, apesar de não me inspirar ódio, não me inspira mais amor. E além do mais, esse choro em teu rosto acentua as rugas que já começam a aparecer. Não, eu não te condeno por isso, nein, nein, nein! Eu sei que você também deve ter reparado somente agora nas minhas. Talvez se nós dois tivéssemos prestado mais atenção um ao outro com o passar do tempo hoje elas não nos causassem tanta estranheza. E além das rugas a minha barriga já não é a mesma. Você com certeza põe toda a culpa na cerveja, mas o teu apfelstrudel também colaborou para isso, pode acreditar. Aliás, Maria, essa é uma das raras coisas que eu vou lembrar com saudade. Você foi a melhor cozinheira que eu conheci. Quando eu estiver bebendo cerveja com meus amigos eu brindarei a você. À Maria! À melhor cozinheira do mundo, saúde! Ach, você insiste nessa história de cinismo. Eu não minto quando digo que você foi a melhor cozinheira. Mas se você tivesse sido menos cozinheira e mais mulher para mim… E se eu tivesse sido mais homem para você também… Mas beba a cerveja, não deixe que fique azeda, como o nosso casamento ficou.
Very well Mary, my heart! Ainda posso te chamar de meu coração? Sim? Você é mais perspicaz do que eu pensava. Afinal de contas os nossos corações ainda batem de modo igual. No mesmo ritmo lento e aborrecido. Se eles tivessem se sobressaltado ou disparado mais vezes… Quando foi Mary? Quando foi que teu coração estremeceu de ciúmes de mim pela última vez? Com certeza foi no mesmo dia em que o meu acelerou sentindo medo de que você fosse embora. E isso faz tanto tempo que eu nem me lembro mais. Do you remember? Mas pelo menos você parou de chorar e eu não derrubei nenhuma lágrima. Nosso whisky ainda continua intacto. Você não vai beber? Quem colocou água em nosso whisky, Mary? Foi o tempo? Foi a rotina? Foi a chegada das crianças? As crianças não foram. Isso eu garanto. Se há algo de bom que fizemos junto foram elas. E é pelo bem delas que nós devemos seguir… Cada um para o seu lado. Agora beba o whisky. O próximo eu beberei com os amigos. E eu sempre bebi com os amigos Mary, apesar de você duvidar. Mas até tenho saudades do tempo em que você insistia que eu chegava tarde porque bebia com outra mulher. Naquela época você ainda tinha medo…
Vamos Maria, ragazza mia! Bom, vejo que agora você não questiona. É sinal de que só agora você sabe de qual moça eu falo. Ou agora eu finalmente me fiz entender? Tanto faz. Mas você me desconcentra demais Maria, e eu me perco, per La Madonna. Fico dando voltas e voltas sem sair do lugar. Beba logo! Não azede esse vinho tão doce que nós dividimos pela última vez. Não deixe que ele vire vinagre. Esse é outro problema. Um vinho que é muito doce logo vira vinagre. Nós devíamos ter nos dado o direito de sermos amargos um com o outro mais vezes, Maria? Foi isso que faltou? Não! Não se enfureça agora, per Dio. Pelo menos não tenha essa fúria fingida. Você e eu nunca tivemos talento para atores, apesar de o nosso casamento ter sido uma verdadeira ópera bufa. Mas como eu ia dizendo, eu sei que você não é boa atriz. Pelo menos teus orgasmos falsos nunca me convenceram. Como eu sei que eram falsos? Va bene, Maria! Não insulte a minha inteligência. Um homem sempre sabe disso, apesar das mulheres acharem ou fingirem que não. Mas houve verdadeiros, eu sei. Aliás, houve muitos no começo. Talvez se eles não tivessem sido tantos, mas tivessem sido mais constantes e espalhados ao longo do tempo… Eu não falava que sabia que eram fingidos pra não te magoar, mas agora eu não me importo. Sexo não foi nosso problema e a falta dele foi conseqüência do que veio depois. E duma coisa eu tenho certeza. Se nós tivéssemos magoado mais um ao outro não teríamos feito tanto mal como o que fizemos magoando a nós mesmos. Mas guardemos essas lições para uma futura relação com outras pessoas. Se eu pretendo ter alguém de novo? Claro que sim. O problema não sou eu e nem é você. Somos nós dois juntos. Tentarei ser feliz agora. Com um pouco mais de sabedoria e de sinceridade também. Beba logo o vinho Maria. O cinismo eu deixo para trás, junto com você. Mas levo um pouco mais de conhecimento que me ajudará a não cometer os mesmos erros e te agradeço por isso de modo sincero.
E agora estamos aqui, Maria. Bebendo nossa última caipirinha juntos. Eu sei que é uma bebida meio cafona para uma despedida, mas sinceramente, você acha que nós dois merecemos coisa melhor? Eu não me iludo. E além de tudo ela me lembra um passado mais romântico. Você se recorda de quando eu fazia o churrasco e você vinha com uma caipirinha recém preparada? Não lembra, não é mesmo? Achei que você ia responder que não. Engraçado. Não é o total esquecimento o nosso problema. É que você se lembra de algumas coisas e eu só me recordo de outras, mas nunca são as mesmas. Essa é a questão. Mas disso eu lembro bem. Você sempre dava um jeito de me surpreender e colocar as mãos nos meus olhos. Adivinha quem é? E eu sempre respondia o nome de outra mulher e você sempre ficava louca de ciúmes. E nós bebíamos essa caipirinha e depois normalmente deixávamos a carne queimar, pois tínhamos coisa bem melhor para fazer. É Maria. Existem rotinas e rotinas. O problema é que nós deixamos a boa rotina ser substituída pela rotina que mata. Aquela que acaba com tudo. E mesmo agora no final eu não consigo deixar de sentir saudades. Não da mulher e do homem de agora, mas sim daqueles que nós deixamos pra trás. Eles não voltam mais. E sei que nem eu ou você podemos encontrá-los. Se pudéssemos eu juro que tentaria. Adeus Maria! Foi muito bom até o dia em que acabou. O problema é que acabou há muito tempo. E beba sua caipirinha antes que esquente.
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A insônia
por Bruno ‘Poeta
- Maldita noite!
Nunca pensei que diria isso, mas é minha vida, a lua talvez pra mim nunca foi bela o bastante, quanto a descrevem em poemas e sonetos, eu a observei tanto, que acho que ela perdeu seu encanto, seu brilho, enfim apenas quero dormir.
Mas nem tudo são males por completo, ou flores em sua totalidade, havia coisas para fazer enquanto o sono nunca vinha, como ler, ver televisão, ouvir musica, ou qualquer outra coisa que ajude passar o tempo e der vontade de dormir,mas nem lendo Os Lusíadas, me dava sono.
Então pensei que um pouco de ar puro me ajudaria, eu estava estressado de tanto trabalho, talvez me fizesse bem. Ao sair pensei em beber um pouco, já passava da meia noite. A rua fervilhava de tanta gente. Entrei no primeiro bar que encontrei, e pensei em tom de ironia: já que não consigo dormir, vou afogar meu sono. Ao entrar, de pronto uma mulher me chamou a atenção, não só pela sua beleza reluzente, mas tinha algo de especial, que ainda não conseguia decifrar.
“ Só um olhar por compaixão te peço,
Um olhar, mas bem lânguido, bem terno.
(…)
Quero um olhar que arrebate o siso
Me queime o sangue, m’escureça os olhos.
Me torne delirante!” [1].
Ao vê-la não pensei em outra coisa, fiquei um bom tempo a admirar aqueles olhos profundamente encantadores, sem perceber de imediato, que não somente seus olhos, mas seus cabelos loiros volumosos, seu rosto afilado, seus lábios inefáveis, tudo fazia um conjunto perfeito.
Eu nunca fui um don Juan, minha timidez me impedia, me contentei em apenas observar, mas acho que não fui discreto o suficiente. Essa historia de amor Platônico, não acredito. Ninguém consegue amar de verdade por mais tímido que seja, e não demonstrar esse sentimento com receio de ele não se realizar antes de começar, ou acabar uma amizade por não realização do tal amor. A amizade quando é sincera nada a extingue, ao contrario do amor é eterna. O amor só é eterno enquanto dura, a amizade dura para a eternidade.
Ela percebeu meus olhares indiscretos e fez um sinal com a taça, como se estivesse brindando, eu então tomei coragem, talvez fosse um sinal de que ela estava desacompanhada, não teria problema.
Ao me aproximar não sei o que aconteceu, as palavras sumiram como se eu tivesse desaprendido falar.Fiquei como um bobo em pé a sua frente sem dizer uma só palavra.
- Está tudo bem?-Perguntou ela
- Sim, sim, somente me perdi no labirinto dos teus olhos.
- Espero que encontre uma saída.
- Eu também.
- Me desculpe ainda não me apresentei. Chamo-me Eduardo, mas pode me chamar de Edu.
- Muito prazer, Isabel.
- O prazer é todo meu. – Respondi e beijei sua mão.
- Me acompanha? – Me pergunta fazendo um sinal com a taça de vinho.
- Com todo prazer.
Depois de muita conversa, e algumas garrafas de vinho a timidez vai pro espaço, não me lembro bem o que falávamos, mas ela estava gostando, e isso pra mim bastava.
- O dia se aproxima! -Exclamou ela num tom de preocupação.
- Eu posso te acompanhar?
- Claro.
Ao sairmos percebi que alguns homens nos fitavam, talvez fosse por causa da beleza de Isabel, que chamava a atenção onde passava.
Caminhávamos em direção ao mar, não estávamos longe. Ao chegarmos à praia, ela parou me olhou com certa tristeza e beijou-me. Beijou-me como nunca ninguém havia me beijado antes, senti algo diferente e acho que ela sentiu o mesmo.
A madrugada, o céu e o mar foram testemunhas. Eros talvez atingiu sua flecha nos nossos corações, e nada tínhamos o que fazer, a não ser obedecer ao deus do amor, e sentir o que jamais sua mãe Afrodite ousou sonhar.Vestidos apenas pelo zéfiro que soprava.
- Olhe que lindo a aurora, já havia esquecido como era tão bela – falou enquanto uma lágrima escorria em seu rosto.
Pensei em perguntar o que passava ou o que passou pra tanta emoção com uma coisa tão simples, não que o alvorecer seja simples, mas quase ninguém se emociona com um acontecimento infinito. Tive medo da resposta, e fiquei a admirar junto com ela.
Como falou Dante, “o amor é uma força selvagem, quando tentamos controla-lo, ele nos destrói, quando tentamos aproxima-lo ele nos escraviza, quando tentamos entende-lo ele nos deixa perdidos e confusos”.
Nesse momento eu estava confuso, não sabia o que fazer o que falar.
- Preciso te dizer uma coisa. – Me olhou com os olhos bem lânguidos, e tristes.
Antes de começar a falar dois homens se aproximaram, percebi que eram os mesmos que nos observavam no bar, Isabel os olhava como se os conhecesse, e tentava dizer alguma coisa.
Um deles sacou de dentro da blusa uma arma e apontou pra mim, nesse momento percebi que havia caído numa cilada e que Isabel estava envolvida.
- Não faça nada com ele, não foi isso que combinamos – gritava Isabel.
- Também não combinamos que você se envolveria tanto com ele – falou um dos homens.
- Seu trabalho era apenas seduzi-lo, e depois roubar-lo.
Eu percebi nesse momento que iria morrer, e só procurava uma forma de sair vivo.
“O amor é uma força selvagem (…) Essa força está na terra para nos dar alegria, para nos aproximar de Deus e do nosso próximo: E mesmo assim da maneira que amamos hoje temos uma hora de angústia para cada minuto de paz”. As palavras de Dante talvez nunca me foram tão verdadeiras.
Eu precisava desse minuto de paz desesperadamente. De repente vi a minha frente, bem perto do pé direito uma pedra relativamente grande, e pensei: Só tem um armado, eu o atinjo, ele desmaia e luto com o outro até não poder mais. E assim fiz.
Mas não contava com a hipótese de o outro está armado também. Ao ver seu companheiro desmaiando, ele sacou sua arma apontou em minha direção e apertou o gatilho.
Eu apenas fechei os olhos, e ouvi o disparo.
Um grito soou, abri os olhos e vi Isabel sangrando, ela havia tomado à frente, e agonizava. Eu sem pensar parti pra cima do atirador e o derrubei no chão, lutamos, ele ainda com a arma em punho. E acidentalmente; um disparo. Parei e percebi que estava encharcado de sangue, eu o havia atingido durante a luta.
Isabel ainda agonizando, me chamou:
- Me perdoa, eu não queria isso – falava com dificuldade.
- Não pense nisso agora, vou pedir ajuda, você precisa de um médico.
- Não, não há mais tempo, só quero quer você me perdoe – implorou aos prantos.
- Claro que te perdoou, você salvou minha vida – falei sem conseguir segurar as lágrimas.
- Apesar de pouco tempo que passamos juntos você foi a única verdade absoluta da minha vida – falou já sem força.
- Não fale mais, você está muito machucada, a ajuda está chegando.
Ela obedeceu, e não falou mais, nunca mais.
“Aquela triste e leda madrugada,
Cheia toda de mágoa e de piedade,
Enquanto houver no mundo saudade
Quero que seja sempre celebrada.” [2]
[1] – Almeida Freitas
[2] – Luis de Camões
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