27/nov/2009

Posted by Fábio Cabral in Blogs, Gargarejos Contemporâneos | 1 comment

Capítulo 4

O sonho é a manifestação de nosso desejo inconsciente. Por meio do sonho, acessamos visões de nossas vontades se tornando realidade; por meio desses vislumbres, concretizamos nossas efemeridades da forma mais sincera possível.

Talvez seja por isso que a maioria esqueça os próprios sonhos, ao acordar – pois pode ser terrível ter de encarar a própria sinceridade.

Numumba acorda gritando após mais um sonho conturbado. Você pode controlar sua imaginação mas não o seu sonho; nas imaginações você é o Grande Herói Numumba Caçador de Omakakulas e Pegador de Nilimbas; mas e no seu sonho, você ousa nos revelar, Numumba?

Era noite, hora em que cazumbis se erguem para assombrar e lamentar sob o olhar atento de Kakueje, a Pálida, cuja fosforescência leitosa do alto dos céus trevosos coalha campos e matas, e a Munda Central, em cujo pé nossa aldeia se localiza, mais parece um pico fantasma por onde se esgueiram névoas doentias que ondulam brancuras frias; pessoas comuns se recolhiam em suas cubatas, animais se escondiam em suas tocas, plantas permaneciam onde estavam por não terem opção; Numumba se levanta, esquecido pelas opções e recolhimentos, para ir se alimentar.

– Era uma vez um tempo anterior a todos os outros tempos; um tempo de sonhos e mistérios, além de todas as memórias cinzentas; as florestas cintilavam, árvores caminhavam, animais falavam, espíritos perambulavam abertamente à luz do Sol, uma vez que não havia a Barreira – os Caminhos para o Sonho estavam abertos. Por toda parte, esparramava-se o cheiro translúcido da noite azul, enquanto diversas criatividades fluíam abundantes como cristais puros de estrelas brilhantes; os espíritos se inebriavam dessas criatividades e copulavam bêbados uns com os outros até fornicarem a Vagina da Existência; e a realidade gozava trovoadas, nasciam jovens raios, jovens chuvas, montanhas flutuantes, desertos aberrantes, selvas ambulantes. E os espíritos copularam também com criaturas mortais, dando origens a linhagens inteiras de mestiços meio carne, meio espírito: seres lendários feitos de sonho, avatares brilhantes que tocavam a realidade e alcançavam as estrelas, ânsias soluçantes de desejos infinitos, que se multiplicaram e se espalharam pelo mundo como ventos velozes de verão.

– Fascinante…!

– Espetacular…!

Assim exclamaram Numumba e seu amigo Nolom, muito dignos em suas expressões aparvalhadas.

Todos os dias, temos de lidar com responsabilidades e afazeres obrigatórios; todos os dias, somos chicoteados com cobranças exigentes e humores resmunguentos; todos os dias, alimentamo-nos de ficção, para nos lembrarmos de que estamos vivos. Pois a ficção chama nossas imaginações para dançar e se divertir, e por um tempo deixamos num canto nossas mochilas de peso maior que o mundo. Pois a ficção nos ajuda a conhecer melhor nós mesmos.

E pessoas como Numumba e Nolom precisam das estórias mais do que comer ou respirar. Quase todas as noites os dois amigos iam para o njango de velho Nanga, o Contador de Histórias e membro do conselho de anciãos, e então batiam-se então palmas, pedia-se permissão, ó ancestrais, concedam-me licença para absorver seus saberes e segredos, rolava-se a barriga na terra em respeito ao mais velho, velho Nanga enchia a cara velha com maruvo fresco, cambaleava e vomitava, e então começava.

Numumba saboreava aquelas estórias como se fossem finos doces dourados de mel perfumado; saltitavam ensandecidas as visões de lagos encantados, árvores falantes e serpentes aladas que cuspiam fogo. Numumba, o herói alto e inabalável, desafiava os poderosos reis-feiticeiros do antigo Império Kalumba, se aventurava no Fosso das Almas para conseguir a Lança das Dimensões. Como seria uma conversa com Namutu, o Primeiro Homem, cuja iluminação e poder ultrapassavam a compreensão meramente humana? Talvez quem sabe descobrir os nomes secretos das Cinco Rainhas-Serpentes, ou ainda enfrentar alguma das horripilantes Abominações Ancestrais…

Dia desses, estava o velho Nanga contando sobre o grande caçador Nlunga Ua Tembo – que matara cem omakalulas com apenas uma lança – quando notou que Numumba nervosamente crispava os lábios, o que há, menino, conheço esse chiste, vamos, fale, ah, perdão, não é nada, fala logo garoto! Está bem: n-nas estórias, o senhor disse que éramos reis de grande sabedoria e poder e nossos territórios ocupavam largos espaços! Mas agora nossa linhagem não passa de aldeias esparsas controladas por sobas vaidosos e mesquinhos! Por quê?

– Numumba! – exclamou Nolom.

– Porque somos humanos – disse velho Nanga, com calma. – Não há nenhum mistério: decaímos de nossa alta posição por estupidez, soberba, egoísmo. Nós da tribo Nangana. que pertencemos à linhagem de Namutu, o Iluminado, que descende diretamente da Grande Mãe Serpente Criadora da Terra e do Céu; possuíamos o maior e mais poderoso reino de toda Costa da Serpente; sonhamos com largos espaços, pensamentos elevados e equilíbrios perfeitos; éramos os sábios de nossa espécie. E eu te pergunto: e daí? Fomos derrotados por nós mesmos e nossos sonhos resplandecentes de outrora não significam nada nos dias de hoje.

– S-senhor – gaguejou Nolom. – Os outros anciãos não gostam quando o senhor fala assim…

– Claro que não – disse velho Nanga. – Afinal, eles têm de manter as aparências.

– Mas… – tentou Numumba.

– Garotos, não existe bem nem mal, certo ou errado e sim conflitos de interesses disfarçados de grandiosos objetivos e nobres ideais – finalizou velho Nanga.

Numumba e Nolom se entreolharam, abriram a boca mas desistiram; era mais fácil olhar para o chão. Os lábios de Numumba começaram a crispar de novo, enquanto Nolom piscava sem ritmo. Velho Nanga permanecia imóvel e a fogueira crepitava cheia de desdém.

– Mas vocês podem… – começou velho Nanga.

– Podemos…? – disseram juntos os dois moleques.

– Nada. – esquivou-se velho Nanga. – Chega, está tarde, vão para suas cubatas.

Respeitosamente cumprimentaram o ancião e saíram sem entender porra nenhuma; arriscaram uma olhadela para as estrelas enquanto suas cabecinhas centrifugavam suas imaginações particulares. Despediram-se um do outro sem dizer nada e recolheram-se até suas casas, rumo a mais um sono inquieto, mais uma noite em claro de auto-lamentações deploráveis – pois não há ninguém para segurar sua mão quando estamos sozinhos no quarto escuro da alma, certo?

Já velho Nanga permanecia diante da fogueira; sentou-se numa pedra e de repente fez uma expressão triste. Disse para alguém que aparentemente não estava ali:

Vocês poderiam sonhar muito mais do que imaginam se fossem capazes de encarar a si mesmos e parassem de se refugiar em suas imaginações limitantes. Como a maioria das pessoas fazem.

Sim, eles podem sonhar muito mais – respondeu alguém que aparentemente não estava ali. – E vão fazê-lo, assim que descobrirem o que realmente são. Mas te intrometer está muito além de tua alçada, velho estúpido; apenas observe e relate os acontecimentos para as futuras gerações. Não te metas com os desígnios estabelecidos pelos espíritos!

Desconsolado, velho Nanga se recolheu à sua cubata para encarar seus próprios sonhos sinistros.

Kakueje, a Pálida, ondulando brancuras frias...

Kakueje, a Pálida, ondulando brancuras frias...


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    1. Você já leu ‘Anansi Boys’? Lembrei um pouco, ao ler seu texto!
      Ah, os sonhos… nem sei mais o que dizer dos sonhos. Às vezes, é tão lúcido, tão palpável… Em outras, são apenas migalhas, névoas, caminhos ocultos e sombrios.
      Mas seu texto é muito mais que isso e vou ter que ler mais vezes pra comentar decentemente. :)

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