14/ago/2009

Posted by Thiago Amieiro in Artes, Cinema & TV, Featured Articles | 8 comments

They call him The Plagiator: Influências no cinema de Tarantino

TarantinoTarantino não é um cineasta. É um DJ. Tal afirmação pode parecer um tanto pejorativa, mas de fato não é. Qualquer um que se interesse por cinema alternativo e/ou não convencional sabe que Tarantino pouco criou.

Boa partes de suas referências cinematrogáficas são realmente explícitas, utilizadas aparentemente como uma singela homenagem aos filmes com os quais teve contato quando ainda trabalhava na videolocadora Video Archives em Manhattan Beach. Entretanto, há influências ainda bem mais sutis e que passam despercebidas pela maior parte de seus espectadores. O presente artigo tem como objetivo apontar as influências, das mais óbvias até algumas bem obscuras, das quais o diretor se utilizou para criar boa parte dos personagens que marcaram seus filmes.

Porém, antes de começar é preciso ressaltar que as qualidades deste diretor não se baseiam em sua criatividade em criar roteiros não convencionais, personagens interessantes e diferentes ou mesmo situações bizarras. Seu mérito é saber quais ingredientes selecionar de um cinema muitas vezes totalmente carente de qualidade (ao menos para a maior parte dos espectadores), juntá-los e criar uma nova receita, que instantaneamente se transforma em filmes cultuados pelo público comum, por críticos e por cinéfilos, ainda que com ressalvas nos três grupos. Sem falar, claro, nos diálogos criativos sobre assuntos inúteis ou a capacidade de escolher a trilha certa para a cena, criando uma composição em que se torna difícil a separação entre imagem e música.

Os Cães de Aluguel (Harvey Keitel, Tim Roth, Steve Buscemi, Michael Madsen, Quentin Tarantino e Eddie Bunker)

Imagem

O figurino, como já pode se notar na imagem acima, veio do filme thriller chinês de 1987 dirigido por John Woo, um dos principais realizadores asiásticos de filmes de ação e que influenciou diretamente cineastas como Robert Rodriguez, os irmãos Wachowski e o próprio Tarantino. Seu estilo é caracterizado pelo chamado gun fu, ou seja, confrontos inspirados nas artes marciais mas com o uso de armas de fogo. Algo como tiroteios coreografados.

Já a idéia de cada membro da gangue utilizar como pseudônimo uma cor diferente é claramente inspirada em O Seqüestro do Metrô, um longa americano de 1974 conhecido internacionalmente como The Taking of Pelham One Two Three. Aliás, a refilmagem deste é o próximo trabalho do diretor Tony Scott. Entretanto, na nova versão os pseudônimos foram trocados por nomes comuns. Enquanto no original temos os mesmos Blue, Grey, Green e Brown (só faltou o White), a nova versão traz nomes super criativos como Ryder, John Johnson, Phil Ramos e Walter Garber. Há ainda outra versão, de 1998, feita para TV nas quais os protagonistas utilizam-se do prefixo Mr. antes da cor correspondente ao seu personagem.

Jules Winnfield (Samuel L. Jackson)

ImagemA fonte de inspiração mais evidente na criação do mafioso nigger interpretado por Samuel L. Jackson é um subgênero conhecido como Blaxploitation. Os filmes que o integravam este movimento norteamericano tinham como características produções baratas (e toscas), com negros nos papéis principais e direcionadas também ao público negro. Seu auge foi durante a da década de 70.

Os personagens eram típicas crias de guetos americanos, imersos num ambiente corrupto, em meio a drogados e traficantes, onde a lei do mais forte se fazia presente e as armas de fogo eram acessórios corriqueiros. O linguajar era típico dos raps americanos, ou seja, muitas gírias nigga. Do you understand, mothefucka?

Abaixo alguns posters para efeito de comparação na caracterização de Jules, inclusive o de Shaft, que o próprio Samuel viria a estrelar anos depois na refilmagem.

ImagemImagem

O pastor do primeiro poster carrega em uma mão um revolver e em outra uma bíblia. Essa ideia não lhe remete a uma das caraterísticas consideradas mais cool pelos fãs do longa do Tarantino? Refiro-me ao fato de Jules sempre mecionar um certo trecho da bíblia (demonstrando todo o seu lado espiritual) antes de despejar sua fúria. Acontece que esse mesmo trecho já havia sido utilizado antes, num filme estrelado por um dos atores que Tarantino mais admira e com o qual trabalharia mais tarde em Kill Bill. Em 1976, Sonny Chiba já citava as mesmas palavras bíblicas em O Guarda-Costas (The Bodyguard/Karate Kiba, 1976, Japão).

Para conferir, veja o vídeo You’re Still Not Fooling Anyone, de 1997 e de autoria do americano Mike White, que acusa Tarantino de ser apenas um plagiador:

Mia Wallace (Uma Thurman)

A principal inspiração quanto à personalidade é a personagem Elvira Hancock (Michelle Pfeiffer), da refilmagem de Scarface (1983) dirigida por Brian de Palma e que configura como um dos filmes preferidos de Quentin. Elvira é a mulher do próprio Scarface (Al Pacino) e tem o jogo de cintura necessário para sobreviver em meio aos roupantes do traficante e o mundo do crime. Também gosta de dançar, como na cena em que convida Tony Montana (o Scarface) para dançar ao centro do Babilonia Club. O corte de cabelo também é identico.

Quanto ao visual (e aquele jeito meio blasé), lembra muito o da atriz Anna Karina em Bande à part (1964), filme francês dirigido por Godard e que também configura como uma das predileções do diretor americano.

Imagem

Elle Driver (Daryl Hannah)

Filmes B de Kung Fu? Spaghetti Westerns? Clássicos americanos? Não, nada disso. A inspiração para a Cobra Californiana, assassina caolha do grupo Esquadrão de Extermínio das Víboras Mortais, vem de um filme sueco, dirigido por um costumaz parceiro de Ingmar Bergman (Bo Arne Vibenius), mas que fez obras sem qualquer paralelo com o cinema bergmaniano.

Imagem

Vibenius era entusiasta de um cinema voltado à violência, com cenas de sexo real e histórias nada convencionais. Seu maior sucesso foi o primeiro filme da história a ser banido na Suécia, país famoso por seus valores liberais. Trata-se de Thriller – A Cruel Picture (1974), também conhecido internacionamente como They Call Her One Eye, título bem mais apropriado.

A estrela do filme é a atriz sueca Christina Lindenberg, grande musa de Tarantino. Christina interpreta Madeleine (One Eye), uma garota caolha e muda, em decorrência de um trauma por ter sido estuprada quando criança, que decide se vingar dos responsáveis por inserí-la num mundo de drogas e prostituição, tudo regado a muita violência e cenas de sexo explícito para Brasileirinhas nenhuma botar defeito.
Entretanto, as tais cenas picantes provavelmente não contavam com atuações de Christina Lindenberg, uma vez que a própria era um tanto recata e inclusive acabou abandonando a profissão de atriz devido aos constante papéis sensuais aos quais era submetida. A utilização de dublês em tais cenas fica ainda mais evidente pela utilização de close-ups extremos nas partes que interessam.

Imagem

Tarantino, na melhor das intenções, ainda mostrou o filme para Daryl Hannah com o intuito de ajudá-la na caracterização. Obviamente ela se assustou ao perceber que se tratava muito mais do que um simples filme de ação, era um exploitation sueco regado a sangue e cenas de sexo real, praticamente um porno, na opinião da atriz. Quentin, com toda a sua inocência, consentiu que se trava realmente disso, mas logo emendou: “Sim, mas um porno decente”. Infelizmente, Daryl não incorpou todas as característica de sua fonte inspiradadora, mas ainda não há como negar as semelhanças.


A Noiva
(Uma Thurman)

Após ter seu amado assassinado no território sagrado de uma igreja, a noiva parte com sede de vingança em busca dos responsávais. Com uma lista de 5 nomes na mão ela vai dado cabo, um a um, daqueles que interromperam sua vida no momento mais feliz possível. Tal descrição lembra a protagonista de Kill Bill, correto? Mas na verdade estava descrevendo a personagem sobre a qual é desenvolvida a história de A Noiva Estava de Preto, um filme francês de 1968 dirigido por François Truffaut e estrelado pela musa da nouvelle vague francesa, Jeanne Moreau.

Tarantino se defende afirmando que não viu a obra de Truffaut, argumentando que na verdade é um fã de Godard (geralmente quem idolatra um não idolatra o outro, apesar de ambos terem sido expoentes do novo cinema francês). Difícil acreditar, já que as semelhanças são enormes, não só pela história em si, mas pela própria personalidade das protagonistas, principalmente na obstinação com que levam adiante sua vingança.

Compartilhe este post:
  • Print
  • Digg
  • del.icio.us
  • Facebook
  • Mixx
  • Google Bookmarks
  • MySpace
  • Twitter
  • RSS
  • StumbleUpon
  • Technorati
  • email

Artigos relacionados

  1. Tarantino não virá ao Festival de Cinema do Rio Quentin Tarantino, o mais aguardado dos convidados da 11ª Edição do Festival do Rio, que se realiza até 8 de Outubro, é agora uma ausência...
  2. Paradoxo Temporal no Cinema “Na Ficção Científica o paradoxo temporal é um fenômeno derivado das viagens no tempo para o passado. Quando o viajante do tempo vai para o...
  3. Friends não vai para os cinemas Depois de muitos boatos a Warner Bros. desmente que a série friends possa ir para as telonas. O Daily Mail divulgou no ultimo domingo (27),...
  4. Anos 80 e seus filmes adolescentes Se agora a moda é adaptar histórias em quadrinhos, nos anos 80 a moda era fazer histórias teens. Os filmes oitentistas sobre adolescentes marcaram gerações,...
  5. Matadores de Vampiras Lésbicas “Usar clichês é realmente tão errado assim?” Essa é a primeira pergunta que o espectador se faz quando termina de ver Matadores da Vampiras Lésbicas....
    1. Breno C.
      Breno C. disse:

      Silenzio (Thiago) sempre mandou muito bem com esse artigo. Tarantino é rei e deve ser lembrado sempre. Espero mais um artigo sobre ele.

    2. Hamfast
      Janderson Dias disse:

      Excelente texto. Deu até vontade de conhecer os filmes citados ali, aliás, pra mim que sou um tanto leigo em cinema esse tipo de texto é uma mão na roda. Estarei aguardando os próximos.

    3. Muito bem escrito, excelente texto e ótima forma de demonstrar sua opinião e as informações que vc tem a respeito…
      Muito bom mesmo Si!

    4. Longa vida ao Tarantino!!! O que ele faz, seja plágio, homenagem ou como queiram classificar, é cinema da melhor qualidade. Sem ele, aliás, vários desses filmes, usados como referências (mais um) em seus trabalhos, estariam no limbo.
      Já há quem diga, inclusive, que Inglorious Basterds tem sua origem em fatos reais (perdi o link)

    5. Tarantino kicks some serious asses! Ninguém cria nada do zero, todos temos referencias. A diferença está em saber reunir o repertório certo e fazer isso de maneira criativa.

      Que venha Inglorious Basterds!

    6. Heloisa
      Heloisa disse:

      Gostei muito do que li e não vejo essa salada de influencias do Tarantino como algo tão terrivel.
      Fiz da tua postagem uma lista, espero que não se importe. Está aqui: http://www.listal.com/list/influencias-de-quentin-tarantino
      Se quiser que apague é só falar por email. Abraço! =)

    7. ummagumma
      ummagumma disse:

      Muito bom o artigo, Silenzio.
      Não sou particularmente fã do Taranta mas reconheço que seus filmes são geralmente muito bons.
      Interessante a comparação do trabalho dele com o de um DJ. Tem a ver, embora eu ache que seria talvez mais apropriado comparar com o de um producer.
      Como amante da música eletrônica, particularmente da mais “roots”, como o trip-hop, jamais classificaria o trabalho de galeras como Groove Armada e DJ Shadow como plágio. São músicos de primeira que além de criar algo realmente novo e cheio de qualidade, também resgatam a memória de preciosidades que foram descartadas com o tempo ou em função de coisas mais ligeiras e “palatáveis”. Não é isso que faz o Tarantino? Acrescento tb o trabalho dele como produtor/consultor e sua parceria com o Robert Rodriguez, esse tb um excelente dj/producer.
      Se tenho alguma crítica ao trabalho do cara, é que por vezes ele extrapola o limite da auto-confiança e se perde em filigranas que quebram o ritmo da obra. Coisa que pode acontecer a qualquer um, como os irmãos Coen, por exemplo. Mas no geral é cinema de primeira, original e personalíssimo, e que serve de referência pra muita gente boa por ai’. Parabéns pelo texto.

    8. Silenzio
      Thiago Amieiro disse:

      Agradeço a todos pelos comentários. Interessante que ressaltaram muito a comparação de Tarantino com o DJ. Dessa forma devo esclarecer que essa comparação não é minha. Quem a utilizou pela primeira vez foi um usuário de um site fechado de amantes de cinema que pregam o compartilhamento de filmes. E partir dela passei a buscar as influências.
      No site http://www.tarantino.info/wiki/index.php/Main_Page vocês encontrarão muito mais a respeito das influências, e não apenas sobre os personagens.

    Leave a Reply